5 perguntas sobre o futuro dos ‘unicórnios’ brasileiros - Revista Oeste

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Em 28 set 2020, 21:00

5 perguntas sobre o futuro dos ‘unicórnios’ brasileiros

28 set 2020, 21:00

Jornalista Daniel Bergamasco lança livro nesta segunda-feira, 28, sobre as ‘startups’ que atingiram o valor de US$ 1 bilhão

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O jornalista Daniel Bergamasco escreveu livro sobre os “unicórnios” brasileiros | Foto: Paulo Vitale

Durante a conclusão de seu MBA em Inovação, o jornalista Daniel Bergamasco resolveu investir tempo em descobrir o segredo dos “unicórnios” brasileiros, ou seja, das startups do país que conseguiram ultrapassar o bilhão de dólares de valor de mercado.

Depois de mais de uma centena de entrevistas, lança nesta segunda-feira o livro Da Ideia ao Bilhão: Estratégias, conflitos e aprendizados das primeiras startups unicórnio do Brasil. Em entrevista a Oeste, o jornalista avalia o atual cenário para essas empresas no pós-pandemia.

De onde surgiu a ideia de escrever um livro sobre os “unicórnios” brasileiros?

Fazia um MBA sobre inovação e comecei a pesquisar o assunto. Já trabalhava também na área digital, comandava o digital da revista Veja, fiquei três anos nessa função. E quando comecei a pesquisar, percebi que havia muitas práticas nessas empresas que não eram nem tecnologia de ponta – o Brasil em geral não tem grandes diferenciais de tecnologia  – mas eram práticas de gestão, de um modelo de negócio, um jeito diferente de trabalhar, de contratar. Aí pensei: ‘Essas opções são boas não apenas para startups, mas para pessoas que querem se conectar com a nova economia e com um novo conceito de trabalhar e de fazer as coisas, que é muito mais ágil, muito mais produtivo.

Hoje em dia, startup é muito mais um estado de espírito da empresa do que um jeito de operar. Há um professor meu que fala o seguinte: ‘Uma startup vê uma cobra e mata a cobra. Uma empresa tradicional cria um comitê sobre cobras’.

Quando comecei a entender como funcionava, conversei com os funcionários, busquei entender como essas empresas conseguiram o valor de mercado de US$ 1 bilhão. Elas realmente operam diferente. Não há nada de mágica, é prática de gestão.

Houve mais algum critério além do bilhão de dólares para a escolha das empresas que entraram no livro?

No livro, cito outras empresas que não são unicórnios, mas que achei relevantes para traçar o retrato da nova economia e falar sobre inovação brasileira. Há algumas empresas que são muito menores que “unicórnios”, outras que são apenas um pouco menores, que já estão perto de se tornarem “unicórnios”, mas que ajudam a contar a história da inovação brasileira. Para mim, o mais importante era fazer um livro útil para outros empreendedores e profissionais de qualquer área que querem se conectar com essa nova economia.

Alguns profissionais ficam intimidados quando olham empresas muito inovadoras e acham que as pessoas que estão lá são de outro planeta. Enquanto nas outras empresas, é todo mundo “apertador de botão”. Não é isso. Só tem empresa fundada por gente. Não há nenhuma empresa fundada por borboleta, nenhuma empresa fundada por cavalo, por cabra.

São as práticas de gestão que fazem com que seja diferente, não é que as pessoas tenham um chip que faça com que tudo mude.

Você acredita que muitas startups ainda são criadas com o desejo de serem vendidas para uma empresa maior, preferencialmente de São Francisco ou do Vale do Silício, nos Estados Unidos?

A ideia de fazer uma startup para que em poucos anos ela seja vendida e o criador possa se aposentar muito jovem é uma ideia frequente, muita gente tem essa vontade, mas, em geral, não funciona.

Para dar certo, a pessoa precisa ter o desenvolvimento do negócio, fazer as pessoas entenderem que ele é uma ótima ideia. Se o empreendedor começa a oferecer demais o negócio, um pedaço grande da empresa, a credibilidade dele cai. Porque quem investe, quer investir em empresas em que o empreendedor  acredita na ideia e quer fazê-la dar certo a qualquer custo.

O livro conta histórias de empreendedores que venderam a sua parte muito jovens e hoje em dia levam uma vida invejável. Porém, em geral essas pessoas não fizeram a empresa pensando em vender.

Agora, o IPO internacional, por outro lado, é uma tendência forte, que as empresas têm amadurecido.

No livro conto o IPO da Arco Educação e da Stone. São dois capítulos, cada um sobre um IPO. E parece coisa de filme, porque, no caso da Stone, dá muita coisa errada: de chantagem ao jatinho que foi quase derrubado com os donos dentro ao passar a pouca distância de outro avião maior.

E o da Arco Educação, que foi o primeiro brasileiro a chegar à Nasdaq, também foi muito emocionante: tem lágrima, tem sufoco e depois que eles fizeram o IPO, o caminho ficou um pouco mais suave para quem veio depois. Eles viraram referência para outras empresas que querem seguir a mesma trajetória.

Como você vê o futuro desses “unicórnios” no pós-pandemia?

Há vento contra e vento a favor. A crise econômica decorrente da pandemia, no geral, afeta todo mundo.

No entanto, a pandemia também teve o efeito de acelerar o interesse por esses negócios digitais. Interesse do consumidor: antes o que era coisa de early addopter – de vanguardista, digamos assim -, hoje está disseminado. Um aplicativo para fazer comprar, por exemplo, ficou muito comum entre a população. E isso pode beneficiar essas empresas.

Além disso, há muitos investidores que perderam as primeiras ondas e que hoje em dia estão chorando porque não investiram na Loggi, no NuBank, na 99.  Só que, apesar de não ser o caso do NuBank, houve empresas que tiveram experiências de quase morte por falta de investimentos no começo. E hoje são empresas invejadas.

Então, você tem grupos de investidores-anjos muito organizados e está faltando startup boa para investir. A verdade é essa. A grande limitação das startups na minha visão não é dinheiro, é gente. Porque ter talentos formados, experientes, capacitados para começar a trabalhar e até para liderar áreas, especialmente em tecnologia, é muito difícil.

E agora as startup vão enfrentar a concorrência das empresas grandes que tiveram a transformação digital na pandemia e têm muito mais dinheiro e estrutura para contratar. Para resumir sua pergunta, creio que o grande desafio das startups agora é gente e não dinheiro.

Você investiria seu dinheiro em alguma das empresas que estão no livro?

O que aprendi com essas empresas é que investiria numa garagem cheia de gente talentosa. Não investiria em nenhuma [empresa] grande, não. Procuraria uma garagem com gente talentosa, uma incubadora começando o negócio, com não só o sonho, mas muita disposição. Com uma obsessão para fazer dar certo. Porque acho que é aí que você vai multiplicar muitas vezes o seu patrimônio.

 

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