A China e a fábula dos pardais - Revista Oeste

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A China e a fábula dos pardais
Enquanto o discurso ambientalista foca a Amazônia e as mudanças climáticas, a China segue com suas práticas predatórias e não assume responsabilidades
27 nov 2020, 09:58

Em 1958, a revolução chinesa completava nove anos de fracassos. A China era um país precariamente agrícola com 640 milhões de habitantes para alimentar. O camarada Mao Tsé-tung, secretário-geral do Partido Comunista, decidiu que a culpa pelos maus resultados no campo era dos… pardais. “Eles comem grãos de mais”, decretou o dirigente máximo.

E assim, como parte do programa chamado Grande Salto para a Frente, Mao ordenou que todos os pardais deveriam ser exterminados. Os chineses destruíam seus ninhos, atiravam nos pássaros, faziam barulho em terra assustando as aves e impedindo que elas pousassem, até que morressem de exaustão.

Centenas de milhões de pardais foram aniquilados. Com o massacre dos pássaros, os grãos foram poupados. E então chegaram os gafanhotos. Além dos grãos, as aves costumavam comer os gafanhotos e outras pestes, praticando o famoso equilíbrio ecológico. Sem os pássaros para combatê-los, os gafanhotos devoraram tudo o que havia sido plantado.

Consequentemente veio então a grande fome, que durou até 1961. Segundo dados do próprio regime, a crise matou 15 milhões de chineses. O jornalista Yang Jisheng pesquisou o fato por vinte anos e publicou um meticuloso livro (chamado mulo), que elevou esse número para 36 milhões de vítimas. A obra, banida na China, retrata um período extremamente dramático, quando cidadãos desesperados apelaram até para o canibalismo.

O episódio é um fantasma para quem culpa o “capitalismo” por tudo — inclusive pelos problemas ambientais. A catástrofe na usina de Chernobyl, por exemplo, ocorrida em 1986, foi o maior desastre nuclear da História. E aconteceu na extinta União Soviética.

Hoje, a julgar por boa parte da mídia e pelos militantes chiques, existem apenas dois problemas ambientais importantes: as alterações climáticas e a destruição da Amazônia.

São problemas graves? Muito graves. Mas por que só essas duas únicas questões são tão marteladas todos os dias? Parece ser mais um caso de miopia ideológica. Para a esquerda, o centro do problema não é ambiental. Como sempre, a culpa “é do capitalismo”. Emissão de carbono é causada por indústrias pesadas, especialmente dos Estados Unidos. E a destruição da Amazônia é um crime do agronegócio. A culpa, nos dois casos, é do “grande capital” — que deve ser aniquilado, como os pardais. E o que não cabe nessa narrativa não existe. Assim se “enxerga” o mundo com os óculos da ideologia.

Pesqueiros chineses destruíram boa parte da complexa cadeia alimentar das Ilhas Galápagos

Sim, existem fazendeiros que gostariam de transformar a Amazônia (e o Pantanal e a Mata Atlântica) em imensos pastos sob o sol. E, sim, existem muitos empresários que não se importam que a Terra derreta desde que o dinheiro continue a fluir. Mas há também empresários e fazendeiros com consciência ecológica, que fazem pela natureza muito mais que militantes estridentes.

Vamos voltar à China. Em agosto deste ano, o jornal (socialista) britânico The Guardian denunciou que o Arquipélago de Galápagos, no Pacífico, estava sob cerco naval. Esse arquipélago é famoso pela vasta riqueza biológica. Não foi à toa que nas Ilhas Galápagos o naturalista Charles Darwin se inspirou para escrever o clássico A Origem das Espécies.

O cerco naval às Galápagos não era militar. Os 248 barcos pertenciam (segundo o Guardian) a uma “vasta armada de pesqueiros”. Os barcos capturavam e massacravam animais com “práticas indiscriminadas” de pesca. Aquela região do Pacífico é considerada patrimônio da humanidade pela Unesco. Cada barco estava com 500 linhas de pesca no mar, cada linha com milhares de anzóis. Não passava nada. Em 2017, um dos barcos chineses invadiu as águas territoriais do Equador. Foi apanhado com 6 mil tubarões congelados, inclusive o tubarão-baleia, o maior peixe do mundo, que corre sério perigo de extinção.

Segundo o biólogo Jonathan Green, que desenvolve projetos de conservação nas Galápagos, a região é conhecida por ter uma “explosão de vida”, criada pela confluência de correntes quentes e frias do Pacífico. Capturar animais ali é covardia, além de crime. Pois em apenas um mês essa sinistra frota praticou nada menos que 73 mil horas de captura de qualquer ser vivo. Destruiu boa parte da complexa cadeia alimentar do arquipélago. A captura de lulas, por exemplo, acaba com a alimentação das focas. E assim por diante. A China não se importa com esses “detalhes”. É regularmente acusada de pesca descontrolada, captura de espécies de tubarão em extinção, invasão de águas territoriais, falsificação de documento e trabalho forçado. Se confrontado, o país nega tudo e ameaça retaliação.

Você, que é bombardeado todos os dias pelo noticiário sobre desequilíbrio climático e a “destruição da Amazônia”, viu alguma vez os âncoras do Jornal Nacional (ou qualquer outro similar) se referirem a essa barbárie nas Ilhas Galápagos? Leu alguma coisa a respeito nos jornais? Viu um protesto de organização ambientalista em frente de algum consulado chinês? Leonardo DiCaprio tuitou algo a respeito? O papa protestou?

Pois o protagonismo da China na destruição da natureza está longe de parar aí. Rinocerontes estão perto da extinção, caçados para abastecer clientes chineses com seus chifres. (Ralados, eles curariam febre, reumatismo, gota e outros problemas.) Os cada vez mais raros tigres são abatidos para atender alguns chineses que acham que tomar uma sopa com o pênis desses felinos dá “vigor sexual”. (Eles nunca ouviram falar em Viagra?)

Elefantes correm o risco de sumir do planeta porque a classe emergente da China acha chiquérrimo ter objetos de marfim. Ursos são mantidos a vida inteira em pequenas gaiolas enferrujadas com um tubo de borracha permanentemente enfiado na vesícula para a dolorosa extração da bile — que, segundo a “medicina tradicional chinesa”, cura qualquer coisa. Chifres de rinoceronte, genitália de tigre e bile de urso não curam nada. Mas a matança continua.

Claro que os chineses não podem levar a culpa por todos os males ambientais que a espécie humana provoca. Vários países europeus, especialmente a Espanha e a Noruega, são predadores marítimos. O Japão continua fazendo da caça à baleia um gesto de futilidade nacionalista. As preciosas florestas da Indonésia, da Malásia e de Madagascar marcham para a devastação total. A Rússia está ameaçando acabar com o status de santuário da região ártica. Os Estados Unidos de Joe Biden pretendem se tornar um país-símbolo na proteção ecológica — mas limitado à linha “mudanças climáticas/destruição da Amazônia”. Já nos elegeu como alvo.

O Brasil virou o maior vilão ecológico do planeta. Não exatamente pelos erros que comete, mas pelo governo que escolheu, que deve ser combatido sem trégua nem racionalidade. Temos as maiores reservas florestais do mundo, e relativamente pouca ocupação agropecuária, segundo os dados oficiais (30%). Nossa legislação é marcadamente conservacionista.

Não somos vilões. Mas também não somos heróis. Temos essa imensa riqueza em biodiversidade e tratamos desse assunto de maneira passiva, culpada e negligente. Por lei, nossos biomas deveriam ser protegidos pelo Estado. Mas o Estado brasileiro precisa construir palácios para juízes e pagar salários indecentes a uma casta de privilegiados. Não sobra dinheiro para contratar fiscais ambientais e equipamentos de vigilância e atuação.

Defender a natureza deveria estar acima do terreno de disputas políticas. Não está. Tanto que a China comete seus crimes ambientais sem sofrer nenhuma consequência. Igualmente condenável é achar que “ecologia é coisa de esquerdista”. E que tocar fogo no Pantanal é uma vitória do agronegócio. E, portanto, “da direita”. É um raciocínio torto e perigoso.

O século 21 não chegou para alimentar esse tipo de simplismo. Questões inéditas surgem a cada dia — a conquista do espaço, a era dos robôs, a preservação do planeta, os direitos dos animais. E a realidade cabe cada vez menos nessa visão binária.

Leia também o artigo “Uma fake news amazônica”


Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direitos dos animais e tecnologia.

 

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33 Comentários

  1. Em matéria de passar pano para a China, ninguém na mídia brasileira supera a Bandeirantes, que se tornou uma espécie de filial da TV estatal chinesa. Ontem estavam criticando o Itamarati pela correta repreensão diplomática à arrogância do embaixador chinês.

  2. Esse artigo deveria ser disponibilizado em todas as redes sociais, a verdade dos fatos tem que ser escancarada.

  3. Excelente artigo !
    A compra da Bandeirantes e só
    o início do processo. Fiquemos
    atentos !

  4. Artigo muito bom. Mas, o atual governo brasileiro precisa adotar uma política ambiental mais clara e praticar ações mais firmes na defesa do ambiente.

  5. O Brasil tem condições de aumentar a produção e manter reservas ambientais. Deve se posicionar com firmeza perante países com interesses ocultos.

    Ótima reportagem, Parabéns!

  6. Parabéns: artigo com independência sem proteger ninguém . É assim que deve ser feito. Show! PS: Obrigado pela informações. Foram muito úteis ao conhecimento do assunto. E como comentou o Marcos De La Penha , o assunto deveria repercutir em todas as redes sociais.

  7. A China é e sempre foi com sua Ditadura,falta de transparência em tudo o que ocorre de fato dentro de suas fronteiras,a aberração da total falta de liberdade.Se não podemos de fato conhecê-la,o que imaginar de um país exportador de vírus para a humanidade e ameaçando o resto do mundo com sua arrogância?Seja no comércio internacional ou outras áreas de tecnologia.Conheco a China através da literatura,desde Mao até a atualidade.Uma realidade que não podemos negar:tem um bilhão e duzentos milhões de habitantes, não tem como alimentar toda sua população com seus próprios recursos naturais.Mesmo assim faz imposições ao mundo ocidental?abaixe sua arrogância.

  8. A China não é só o maior inimigo do meio ambiente, é também o maior inimigo das liberdades individuais e das democracias.

  9. Excelente artigo!

  10. Está é à nação chinesa, provoca o terror no Planeta com atitudes autoritários, mas não é responsabilizada por nada, a quem interessa manter a China no pedestal da impunidade?? Ou o mundo acorda para essa Nação ou à liberdade já não será.

  11. Ótimas reflexões, Marquezi. Mas é preciso que se diga, também, que a China – e os chineses em geral – desprezam os valores ocidentais e estão pouco se importando com a preservação das riquezas que nos sao próprias.

  12. Alguém já disse aqui, mas vou insistir. Este texto precisa ser veiculado pela mídia maciçamente. Conteúdo impressionante, levantamento assustador dos crimes ambientais cometidos pela China, principalmente, e a maior parte da população brasileira só sabe de queimadas na Amazônia e no Pantanal. Este artigo merece um prêmio. Excelente.

  13. Apoiado!!!

  14. Concordo plenamente, temos alguns problemas; uma mídia vendida e os poderes legislativo e judiciário que se apresentam, hostis a um governo que segue uma pauta assumida nas urnas por mais de 57 milhões de brasileiros.

  15. Oficialmente, a China tem 1,4 bilhão de habitantes, mas, efetivamente, tem cerca de 1,7 bilhão. É que lá o casal era ou ainda é proibido de ter um segundo filho. Muitos tiveram, mas o Estado não o reconhece oficialmente, inclusive nega-lhe registro, escola etc. Só que esse povo come, né?

  16. Esses repugnantes comedores de cachorros.

  17. Sim, vários países tem ações predatórias, mormente não países, como entidade, mas seus cidadãos.
    Sö que, o que ocorre, no momento, com o Brasil, é puramente uma questão de IMAGEM.

    Sempre tivemos um enorme soft power, minhas viagens pelo mundo demonstraram a receptividade, boa vontade, humor, até carinho, de todos, quando dizia ser brasileiro. Representávamos neutralidade, futebol, miscegenação, sol, praias, beleza, carnaval, etc.
    A postura beligerante de Bolsonaro, seus ataques gratuitos a outros países, ao invés de se solidarizar com o problema de queimadas e passar a defendê-las como inevitáveis, ou querer argumentar que menores do que imagina das, etc etc.,, a cretinice Galtieriana de que querem “tomar a Amazônia” etc. etc. nos levou à péssima IMAGEM que temos agora.
    O resto é bullshit, discussão ideológica, e rasa, para um simples fato: falta de inteligência emocional de nosso PR.

    E, para quem diz que China é poluidora – não que não seja no momento- vá se informar sobre sua postura para mudar isto – o livro Brasil Paraiso Sustentável de Jorge Caldeira mostra o que China está fazendo

  18. A China é um perigo para o mundo.

  19. Belíssimo artigo do Dagomir Marquesi,mostra a qualidade editorial da OESTE.Concordo com os leitores que se manisfestaram que é um assunto tão importante que deveríamos estender a mais pessoas das nossas relações.Costumo fazer um “print”do assunto e enviar a amigos e grupos de zapp,junto com cadastro para assinatura da OESTE.Tem dado certo.Este do Dagomir recomendo aos pais lerem para os filhos.

  20. “O Brasil virou o maior vilão ecológico do planeta, não exatamente pelos erros que comete mas pelo governo que escolheu”.
    Neste paragrafo e seguinte, Dagomir retrata as dificuldades que o governo Bolsonaro enfrenta para governar, com os outros autoritários Poderes estabelecendo prioridades que retiram as condições necessárias para bem governar.
    Observo portanto, que a revista oeste nos proporciona excelentes e inteligentes artigos de todos os jornalistas, nos quais podemos até observar como neste, a resposta ao artigo contundente do nosso mestre Guzzo ao governo Bolsonaro, recentemente ao jornal Estadão.
    Ressalto que admiro nosso mestre Guzzo, e sou assinante desta revista por sua orientação.
    Parabéns Dagomir pelos excelentes artigos que nos proporciona

  21. Sempre os mais interessantes textos da Oeste. Obrigado, Dagomir!

  22. A china não tem que dar chilique quando é criticada, pois não é exemplo de nada para ninguém. Sua ditatura, verdadeiramente genocida, foi a que mais exterminou seus compatriotas. Em termos de natureza, tem os maiores índices de poluição, além desta relação cruel com os animais destacadas no artigo. Não devemos nos ajoelhar para quem sangra o planeta diuturnamente.

  23. A má imagem não é culpa do Bolsonaro. Foi criada meticulosamente pela nossa “intelligentsia” ao longo das décadas (achando bonito, chique, “inteligente”, “despojado” e “in” denegrir a imagem do país e do nosso povo no exterior).

  24. O sentido foi outro: a “perseguição” é pela audácia do povo em eleger Bolsonaro.

  25. Que matéria!!!! Parabéns

  26. O comentarista fez referências muito vagas quando entrou no assunto Amazônia. Até parece que acontece uma devastação descontrolada dessa área. Não é bem assim. Existem muitas ações de fiscalização e controle das áreas ambientais com investimentos bilionários do governo. mas o que domina é grande mentira inserida no senso comum pela grande imprensa, que é esquerdista por natureza, apoiada pelas frentes politicas e simpatizantes da mesma esquizofrenia. Abraços!

  27. Dagomir, ótimo artigo, cirúrgico.

  28. Excelente artigo. Como já manifestado acima deveria ser de conhecimento de todo o público brasileiro. Esses comedores de morcego e cachorro devastando o planeta e a esquerdalhada e a impresenlha todos silentes.

  29. Verdades tão bem apresentadas neste artigo. Ainda podemos lembrar do recente anúncio do Macron contra a soja brasileira, que se fazia passar por proteção à Amazônia ou ao Pantanal, mas que na vdd é proteção aos seus parceiros locais.

  30. Simplesmente espetacular.

  31. A esquerdalha está boicotando o Brasil, ajudando essa narrativa mundial de que estamos destruindo a Amazônia. Boicotam em outros aspectos também, tudo pra derrubar o Bolsonaro, o vilão da vez. Parece criançada que perdeu uma votação de onde seriam suas férias de verão (queriam ir pra praia, mas a votação elegeu montanhas, então fazem de tudo pra viagem ser um fracasso)

  32. Correto e sóbrio. Isso mesmo!

  33. ótimo texto…. bem explicado, boa didática, palavras simples e pensamento claro. Seria bom se os intelectuais de direita escrevessem mais nessa linguagem nas redes sociais. Parabéns!

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