A estratégia sueca contra o coronavírus: "A vida tem que continuar” - Revista Oeste

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Em 30 abr 2020, 18:33

A estratégia sueca contra o coronavírus: “A vida tem que continuar”

30 abr 2020, 18:33

Enquanto outros países pisavam no freio, a Suécia manteve suas fronteiras abertas, permitiu que restaurantes e bares continuassem funcionando e não impôs limites ao transporte público

Vista da capital da Suécia, Estocolmo

Vista da capital da Suécia, Estocolmo
Foto: Condor Patagónico/Wikimedia

“Ela estava apoiada na bengala, descansando entre dezenas de jovens suecos, desfrutando de um dos primeiros dias ensolarados de primavera do ano”, começa a reportagem do jornal The New York Times, que conta como a Suécia decidiu ir na contramão da grande maioria dos países e não impor o isolamento social à população no combate à epidemia de coronavírus. “Estou tentando não me aproximar muito das pessoas”, disse Birgit Lilja, 82 anos, a personagem que aparece no início do texto, explicando que havia saído de casa para pegar pessoalmente uma nova carteira de identidade. “Eu confio que eles tomem cuidado comigo.”

A confiança é alta na Suécia – no governo, instituições e na população, conta a reportagem. Quando o governo desafiou o modelo que estava sendo usado no resto do mundo e se recusou a impor um bloqueio geral para “achatar a curva” da epidemia de coronavírus, as autoridades de saúde pública apontaram a confiança como justificativa central.

Os suecos, acreditaram, poderiam ficar em casa, seguir protocolos de distanciamento social e lavar as mãos para retardar a propagação do vírus sem a necessidade de ordens obrigatórias. Ao que tudo indica, a Suécia parece estar tendo o mesmo sucesso no controle do vírus quanto a maioria das outras nações.

A reportagem constata, contudo, que nem todas as pessoas estavam obedecendo os protocolos – o que tornava mais misterioso o aparente sucesso do país em lidar com a epidemia sem apelar para um bloqueio economicamente devastador.

No bairro de Sodermalm, em Estocolmo, os jovens lotavam os bares, restaurantes e parques. “Eles riam e se deliciavam com a liberdade”, destaca a reportagem.

“Não estou vendo estatísticas muito diferentes em outros países”, disse Johan Mattsson, 44, enquanto tomava um drinque num café da rua Skanegatan. “Estou feliz por não termos entrado em bloqueio. A vida tem que continuar”.

Enquanto outros países pisavam no freio, a Suécia manteve suas fronteiras abertas, permitiu que restaurantes e bares continuassem servindo, deixou pré-escolas e escolas primárias funcionando e não impôs limites ao transporte público ou passeios em parques locais. Cabeleireiros, estúdios de ioga, academias e até alguns cinemas permaneceram abertos.

Reuniões de mais de 50 pessoas foram proibidas. Os museus fecharam e os eventos esportivos foram cancelados. Só no fim de março as autoridades proibiram visitas a casas de repouso.

No domingo, cinco restaurantes foram fechados por não observarem os requisitos de distanciamento social. No entanto, eles não foram multados e terão permissão para reabrir depois de passarem por uma inspeção.

“Durante a crise, a Suécia teve unidades de terapia intensiva suficientes para lidar com pacientes infectados pelo coronavírus”, garantiu Lena Hallengren, ministra da Saúde e Assuntos Sociais. “Temos 250 camas vazias agora”.

Isso não quer dizer que a Suécia escapou totalmente das consequências mortais do vírus. A Autoridade Sueca de Saúde Pública admitiu que as pessoas mais velhas foram bastante atingidas e que a doença se espalhou por 75% dos 101 lares para idosos de Estocolmo.

Essa forma mais livre de lidar com a epidemia, contudo, não isolou totalmente a economia sueca, principalmente porque o país depende de exportações, observou Magdalena Andersson, ministra das Finanças. Ela disse que a economia deve encolher 7% este ano, “mas cabeleireiros, restaurantes e hotéis estão sendo menos afetados em comparação com outros países”.

Desde os primeiros sinais da pandemia, a Autoridade Sueca de Saúde Pública decidiu que um bloqueio seria inútil. “Depois de entrar em um bloqueio, é difícil sair dele”, disse Anders Tegnell, epidemiologista-chefe da Suécia. “Como você reabre? Quando?”

Cientistas como Tegnell, que se tornou uma celebridade na Suécia, e não políticos, conduziram o debate sobre a resposta ao coronavírus. Os líderes políticos raramente participam de conferências de imprensa sobre o vírus, e a Constituição sueca impede o governo de se intrometer nos assuntos de autoridades administrativas independentes, como a Autoridade de Saúde Pública.

“Basicamente, estamos tentando fazer a mesma coisa que a maioria dos países está fazendo – diminuir a propagação o máximo possível”, disse Tegnell. “Simplesmente usamos ferramentas um pouco diferentes”.

Um artigo de Daniel Hannan publicado recentemente no The Telegraph resume o que veremos nas próximas semanas: “Se a Suécia for bem-sucedida, todos os bloqueios terão sido inúteis”

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8 Comentários

  1. Toda unanimidade é burra! No caso da quarentena por causa desse vírus mais ainda.

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    • Concordo plenamente

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      • Também concordo. E, para piorar a questão de como e quando liberar, sul e Sudeste chegando ao período frio. Melhor não tivessem feito essa quarentena! Agora, com o inverno, o vírus vai se fortalecer e aí, sim, veremos o que é bom pra tosse… obrigada Doria e cia!

        Responder
  2. O que deve ser compreendido, tem relação com a cultura local, portanto, na proporção populacional r na sua cultura, o respeito às diretrizes acaba fazendo a diferença, com relação a países mais populosos e com cultura diferente, onde não há interesse social!

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  3. “A confiança é alta na Suécia – no governo, instituições e na população” diz a reportagem. Essa frase diz tudo. No Brasil ninguém confia nos políticos. Vemos os mesmos fraudando licitações e mentindo sobre os dados de mortos e infectados, além de todo o resto.

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    • E depois serem reeleitos com números expressivos de votos.

      Responder
  4. Quem tem medo de morrer não vai para guerra e morre na mão do inimigo ou quem tem medo de kgar não come e morre de fome.

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  5. Na Suécia, o ÚNICO privilégio dos deputados (Parlamento Unicameral, não há Senado, acham desnecessário) é 1 (UM) passe anual de transporte público.
    Anos-luz à frente do Brasil.

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