A fuga da autoridade adulta - Revista Oeste

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A fuga da autoridade adulta
Existe uma palavra em português para aquele terrível termo anglo-saxão, “adulting” (algo como “adultar”)? Espero que não
24 jul 2020, 08:02

Eu estava falando em uma conferência em Nova York durante o verão de 2016 quando descobri o termo “adultar”. Tomava um drinque em um bar quando vi um jovem na casa dos 30 usando uma camiseta que dizia “Chega de adultar por hoje”. Na mesma semana, vi um jovem vestindo uma camiseta que dizia “Adultar — Não quero mais fazer isso”. Depois, entrevistei uma mulher cuja camisa transmitia uma mensagem simples: “Adultar é cruel!”.

Caso você não esteja familiarizado com o termo, adultar é definido como “a prática de se comportar do modo característico de um adulto responsável, especialmente na realização de tarefas mundanas, mas necessárias”. A palavra é usada para transmitir uma conotação negativa em relação às responsabilidades associadas à vida adulta. E sugere que, dada a oportunidade, qualquer mulher ou homem sensato na casa dos 30 preferiria não adultar, e evitar o papel de um adulto.

No mundo anglo-americano, a vida adulta é constantemente retratada como desagradável, e as responsabilidades atribuídas a ela, como um fardo impossível. Os jovens são rotineiramente alertados sobre as dificuldades de fazer a transição para a vida adulta. Isso não acontece mais de maneira natural. É por isso que aulas de “adultamento” foram criadas para ensinar às pessoas as habilidades necessárias para se tornar adultos.

Cultiva-se a ideia de que pessoas crescidas têm muito pouco a ensinar às crianças

Livros com títulos como Mastering Adulthood — Go Beyond Adulting to Become an Emotional Grown-Up (“Aprenda a adultar — vá além do adultamento e se torne uma pessoa emocionalmente madura”, em tradução livre) têm como objetivo ensinar aos leitores as habilidades e competências que vão ajudá-los a se tornar indivíduos maduros.

A tendência de retratar a vida adulta como uma conquista excepcionalmente difícil que precisa ser ensinada coexiste com uma sensação palpável de desencanto com o status de adulto. Em tudo além do nome a vida adulta se tornou desestabilizada, a ponto de ter se tornado alvo de escárnio e, para muitos, uma identidade indesejada. Não surpreende que adultar seja uma atividade que muitos indivíduos biologicamente maduros só estejam preparados para desempenhar em regime de tempo parcial.

O corolário da idealização do adultamento em regime parcial é o desmantelamento da autoridade adulta. O impacto corrosivo da perda da autoridade adulta no desenvolvimento dos jovens foi uma grande preocupação para a filósofa política Hannah Arendt. Escrevendo nos anos 1950, Arendt chamou atenção para o “colapso gradual da única forma de autoridade” que existiu em “todas as sociedades conhecidas historicamente: a autoridade dos pais sobre os filhos, dos professores sobre os alunos e, em geral, dos mais velhos sobre os mais novos”. Setenta anos depois, a desautorização da vida adulta se tornou amplamente celebrada na cultura popular ocidental. Em vez de se preocupar com as consequências da erosão da autoridade adulta, esse desenvolvimento é visto como positivo por partes da mídia, que acreditam que pessoas crescidas têm muito pouco a ensinar às crianças.

A erosão do limite entre adultos e crianças

Cientistas sociais norte-americanos inventaram o termo “vida adulta emergente”, que supostamente dura entre os 18 e os 29 anos, para capturar o que insistem ser uma fase pré-adulta na vida das pessoas. Os comentários com frequência a descrevem como uma consequência inevitável de um mundo de incertezas em rápido crescimento. No entanto, ela é mais bem compreendida como uma consequência do desmantelamento gradual dos limites psicológicos e morais que ajudaram a solidificar a distinção convencional entre crianças e adultos. Em uma contribuição perspicaz para essa discussão, o criminologista Keith Hayward argumenta que, “em vez de algo tão significativo quanto um novo estágio na vida, o que de fato está acontecendo é a erosão dos estágios já estabelecidos”. Para capturar a dinâmica desse desenvolvimento, Hayward inovou o conceito de dissolução dos estágios da vida. A manifestação mais significativa da dissolução desses estágios é o que Hayward descreve como um processo bidimensional de “adultificação” e “infantilização”.

Com a erosão do limite entre adultos e crianças, os adultos muitas vezes são infantilizados; e as crianças, por sua vez, tratadas como pequenos adultos. A principal característica cultural desse processo bidirecional é a atribuição de equivalência moral entre crianças e adultos, e o cultivo da imaturidade entre pessoas crescidas.

A falência do status autoritário da vida adulta é comunicada de maneira notável por meio da narrativa cada vez mais influente que insiste que “as gerações mais velhas são culpadas por tudo” o que deu errado. Em vez de servirem como exemplo, os adultos costumam ser punidos por dar mau exemplo para as crianças. O outro lado da depreciação da vida adulta, por parte da sociedade ocidental, está na adulação da suposta sabedoria das crianças. Tornou-se comum convidar crianças para condenar o status moral da geração mais velha.

Educadores reconhecem que perderam a confiança nos valores em que foram socializados

Organizações internacionais com frequência se escondem atrás de crianças para promover sua ideologia. A culpabilização dos adultos e a adulação das crianças caminham lado a lado. Tornou-se moda entre os políticos elogiar a liderança e o discernimento das crianças. O tema da irresponsabilidade dos adultos dominou a palestra da celebridade infantil ecológica Greta Thunberg na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática em dezembro de 2018. “Como nossos líderes estão se comportando como crianças, teremos de assumir a responsabilidade que eles deveriam ter assumido anos atrás”, disse ela. “Precisamos entender o que a geração mais velha nos relegou. Teremos de arrumar a bagunça que eles fizeram”. Essas declarações de superioridade moral da criança e a condenação da vida adulta registram claramente o espírito confuso do mundo ocidental. É por isso que aqueles que não gostam de adultar são loucos por Greta Thunberg.

Um dos subprodutos da desautorização do adulto tem sido a perda de clareza sobre quais valores transmitir às crianças. É comum ouvir educadores reconhecer abertamente que, uma vez que perderam a confiança nos valores em que foram socializados, não têm certeza de que ideais deveriam transmitir para as crianças. A ausência de consenso sobre a narrativa da vida adulta aumenta a dificuldade dos jovens de adotar atitudes “maduras” em relação à vida.

Em vez de oferecer às crianças orientação moral e uma liderança confiável, o mundo adulto coloca o fardo de encontrar respostas para os problemas que a sociedade enfrenta nas crianças. No desespero, alguns adultos chegam a ponto de insistir que as crianças têm as respostas. É por isso que o chefe do Departamento de Política da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, conclamaria crianças de até 6 anos a votar. O professor David Runciman lançou essa proposta com base na ideia de que as pessoas jovens estavam “em enorme desvantagem numérica” em relação aos idosos, e isso criava uma crise democrática que precisava ser corrigida.

Quando crianças de 6 anos de idade recebem a responsabilidade de determinar o futuro da sociedade por um dos principais professores da Universidade de Cambridge, você sabe que a sociedade ocidental está em apuros.


Frank Furedi é professor emérito de Sociologia na Universidade de Kent, na Inglaterra. Colunista da Spiked, é autor de livros considerados clássicos sobre temas como medo, paranoia e guerra cultural, como How Fear Works (2018) e First World War — Still No End in Sight (2016). Seu último livro, Why Borders Matter: Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Boundaries, foi lançado em julho pela Routledge.

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30 Comentários

  1. O mundo enlouqueceu

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    • A Síndrome de Peter Pan “evoluindo” para governar o mundo das ideias… e depois, tudo o mais. É o fim!

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    • Artigo fantástico! Realmente, o mundo ocidental precisa, urgentemente, de um freio de arrumação.

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    • Esse mundo está me tornando ou me fazendo um desiludido. É como se há algum tempo atrás, porém, não tão distante assim, eu fosse percebendo que as gerações estavam se perdendo, perdendo e se perderam. Crianças tornaram-se os mandatários de país e avós e os mesmos se infantilizaram para receber amor ou para tê-los próximos e os distanciaram.. triste!

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    • Pois é, enlouqueceu mesmo! E a Greta Thumberg, além de tudo tem distúrbios emicionais bastante sérios. É inacreditável a imprensa mundial (e nacional) ter endeusado essa pirralha raivosa!

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  2. Artigo sensacional!!!

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  3. “Para o mundo que eu quero descer” não é mais retórica para um desbabafo, mas fuga real. É como dizem, tempos fartos produzem homens fracos.

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  4. Não ficamos pra trás. Temos nosso Felipe Neto debatendo com um ministro do STF.

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  5. Eu não conhecia o verbo adultar, mas há muito acompanho esse fenômeno social e concordo inteiramente com o Frank.
    Parabéns pelo artigo.
    Precisamos de altas doses de costumes conservadores e práticas econômicas liberais para chamar à razão considerável parcela dessa Geração Y — responsável, no meu entender, por distorções socioculturais como essa.

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  6. Ótimo artigo, e ótimos comentários dos leitores. Essa percepção dos jovens de que “os coroas estão por fora” é antiga, segue de geração em geração, mas as atuais são tristes demais… nem arrumam seus quartos, e acham que conseguem arrumar o mundo. Faltou chinelada, isso sim.

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    • Corroboro com suas palavras, Eric. Tenho um casal de filhos na casa dos trinta que teima em não adultar. Hoje, tenho certeza de que faltou chinelada.

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  7. A dialética negativa da Escola de Frankfurt foram competentes em desmoronar hierarquias institucionais fundamentais as relações humanas. O ocidente está à deriva.

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    • Digo:…foi competente…

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    • Parabéns ao articulista e aos comentaristas até aqui. Corroboro o “ faltou chinelada”…

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      • Excelente artigo, nas cenas mais cotidianas vemos adultos invertendo papéis e colocando as crianças em posição de liderança que não lhes pertence. A política é o reflexo da sociedade. Muito triste essa situação.

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  8. Texto excepcional. Lembrei do Nelson Rodrigues, que, muitas décadas atrás, foi ao ponto: “Jovens: envelheçam rapidamente”. Também disse: “O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade”. Mas não lhe passou despercebido que “O adulto não existe. O homem é um menino perene”. Vê se cresce, menino!

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    • Excelente.

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  9. Aqui começa o real problema da educação. Excelente matéria!

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  10. e muito pior

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  11. Naqueles lamentáveis tempos de Greta Thunberg apontando o dedo para as nações reunidas em Genebra (se não estou enganado), eu me perguntava que raio de líderes o mundo apresentava naquele momento, que se intimidavam perante uma adolescente impertinente. E eis que o Sr. Furedi brilhantemente aparece com uma ótima e interessante explicação. Assinar a Revista Oeste foi uma ótima decisão.

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  12. Interessante como toda a dialética esquerdista se apoia nessa estrutura social , ao dizer que o estado proverá todas as necessidades do cidadão, o infantilizando e o dominando

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    • A perda de papai e mamãe juntamente com a necessidade de se sustentar, “adulta” qualquer um. O perigo é o jovem “idiotizar”.

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  13. Dr Frank, aos 67 anos posso dizer q o pior dos jovens dos anos 80 em diante foi entrarem muito tarde no mundo do trabalho. Não estatuto da criança e adolescente considera adolescente quem tem até 25 anos. Jovens de 15-16 anos nas décadas anteriores viraram homens no trabalho e na guerras

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  14. A culpa de tudo isso que vemos aí não é de ninguém menos que a famigerada esquerda, que insiste em dominar todos os sistemas educacionais e até parte das igrejas. Foi ela quem arrumou um jeito de nos deixar sem líderes e sem Deus, a não os líderes que ela mesma fabrica, e que nós detestamos. Voltem a direita a seus antigos lugares e ouviremos novamente o canto do sabiá.

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  15. Excelente artigo!!

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  16. Excelente artigo, em plena lucidez.

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  17. Concordo com a Hannah Arendt, e acrescento que a “adolescência” foi invenção dos anos 50 (segunda metade): existiam crianças e adultos, e ponto. A ruptura de existência única entre atitudes infantis e adultas curiosamente se deu em um bom momento econômico nos pós II Guerra, nos EUA e em parte também na Europa: surgimento do Rock (nada contra, adoro esta música), e toda uma cultura jovem que se contrapõe ao mundo adulto, pela linguagem, atitude, vestimenta, mídia e culminando em valores morais distintos (lembram do “nunca confie em alguém com mais de 30?”). Todas as décadas que se seguiram apenas exacerbaram este abismo jovens X adultos, e a “adolescência” foi esticada cada vez mais para baixo e para cima (começa hoje aos 12 e vai até 40, se deixar). Uma coisa todos esquecem: o mundo é um lugar complexo e cruel, a terra do nunca não existe, e a responsabilidade de viver e trabalhar é da humanidade, fugir (mentalmente ou fisicamente) não muda nada. Vivam, tenham bagagem de anos de trabalho e responsabilidade, constituam famílias. A vida é mais que rótulos.

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  18. O ‘adulting’ existe porque o ‘childing’ deve ter tomado conta das mentes daqueles que deveriam tomar atitudes sensatas e adultas (for that matter!). Gretas, Felipes e que tais só existem porque conferencistas internacionais e ministros amalucados dão palco pra esses ‘sábios de chupeta’. As crianças são e estão cada vez mais espertas e têm muito a nos ensinar. Mas, se realmente acreditarmos que o que temos a aprender depende de quem se nega a assumir responsabilidades, é porque já desistimos disso há muito tempo.

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  19. Muito verdadeiro esse texto!

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  20. Brilhante artigo!!! A civilização ocidental está num sério risco de se desfazer. Se não agirmos rapidamente seremos invadidos por outras culturas!!!!

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