A pecuária dá uma aula contra o desperdício - Revista Oeste

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A pecuária dá uma aula contra o desperdício
Com 99% de aproveitamento, a pecuária brasileira é referência mundial em reciclagem animal e produtividade
18 set 2020, 08:50

Um ditado popular avisa que do boi só não se aproveita o berro. Coisa do passado. Hoje, até o berro é reaproveitado. “Tem muita gente que reproduz esse som na buzina dos carros”, festeja Décio Coutinho, presidente da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), que reúne mais de 140 indústrias responsáveis pelo reaproveitamento dos resíduos do abate no país.

Evaristo de Miranda, chefe da Embrapa Territorial, instituição da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, informa que, entre 2016 e 2019, o Brasil matou a cada ano, em média, 39 milhões de bovinos, 37 milhões de suínos, 3,2 milhões de ovinos e caprinos, 6 bilhões de frangos. Também produziu aproximadamente 700 milhões de toneladas de peixe. A carne para consumo humano de cada animal, entretanto, varia entre 50% e 60%. O que acontece com os 40% a 50% restantes?

Seriam necessários mais de mil novos lixões e aterros sanitários apenas para receber os resíduos com os quais a Abra trabalha caso fossem simplesmente descartados. Isso tornaria quase inviável o sistema de abate em larga escala. Um bovino em decomposição, por exemplo, libera em média 1,2 tonelada de gás carbônico. Miranda calcula que o volume de coprodutos reciclados anualmente pela indústria brasileira seja suficiente para preencher dois Maracanãs.

“Além da carne, os derivados do boi geram matéria-prima para abastecer cerca de 55 segmentos da indústria, de comestíveis a produtos farmacêuticos”, explica Miranda. “Se existe um exemplo de economia circular no Brasil, ele está na pecuária. A meta é chegar a um modelo econômico com zero resíduo.”

A reciclagem animal resulta em ração, fertilizantes, biodiesel, cosméticos, pneus e muito mais

A reciclagem animal reaproveita 99% do material que seria desprezado por frigoríficos, abatedouros, açougues e supermercados. São gorduras, restos de carne, penas, sangue, escamas, cascos e chifres, que, transportados em menos de 24 horas para as indústrias responsáveis, resultam em farinhas para ração, fertilizantes, adubos e gorduras que geram biodiesel, sabão, tintas, cosméticos, pneus, suplementos e muito mais.

Fonte: Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra)

“É uma indústria que também se autoalimenta”, observa Décio Coutinho. “Parte da ração produzida com o material reciclado é usada como alimento para os próprios bichos que mais tarde serão abatidos.” A exceção está nos bovinos, que, por lei, não podem ser alimentados com farinha de origem animal.

Com a utilização das farinhas e gorduras animais, o Brasil foi dispensado de plantar 2,1 milhões de hectares de milho e soja, consumir 1 milhão de toneladas de adubo, utilizar 12 bilhões de metros cúbicos de água e gastar R$ 800 milhões em defensivos agrícolas.

“A reciclagem animal começou há mais de cem anos, quando nossos avós e bisavós ferviam a gordura com soda cáustica para produzir sabão”, conta Coutinho. “Hoje, 13 milhões de toneladas de matéria crua são transformadas em 5,6 milhões de toneladas de produtos.” Grande parte do que sobra é água, que pode ser reutilizada nas próprias fábricas ou tratada e devolvida limpa para o meio ambiente.. “A reciclagem animal converte esses restos com alto potencial poluidor em produtos padronizados ricos em proteínas e minerais”, resume. “Somos responsáveis pela sustentabilidade da pecuária brasileira.”

Dos cascos e chifres dos bois também é extraído o colágeno, utilizado em medicamentos antiflacidez

O reaproveitamento acontece por meio do chamado upcycling — o processo consiste em reaproveitar materiais que seriam descartados para criar outros produtos, de qualidade frequentemente superior à dos originais. Em 2019, por exemplo, quase 15% do biodiesel brasileiro foi produzido a partir de gorduras animais (sebo bovino, gordura suína e óleo de aves). Farinhas de ossos, sangue e vísceras são a base de rações para pets. Dos cascos (são mais de 150 milhões por ano) e chifres dos bois também é extraído o colágeno, empregado em medicamentos e no tratamento da flacidez. Quase 90% dos cosméticos usam gordura animal em sua composição.

“Quando se considera o que os frigoríficos pagam pelo boi e o que ganham com a venda de carne, muitas vezes o resultado é negativo”, escreveu Evaristo de Miranda no livro Tons de Verde. “Boa parte dos lucros, na verdade, vem da comercialização dos subprodutos.”

Fonte: Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra)

Maior produtor de proteína animal do mundo, o Brasil tornou-se um exemplo também nos processos de reaproveitamento dos resíduos do abate, o que confere sustentabilidade à pecuária brasileira e gera 54 mil empregos diretos. Embora tenha movimentado US$ 115 milhões em 2019, o mercado exportador desses produtos ainda é um gigantesco universo a ser explorado. Hoje são destinados ao consumo interno mais de 95% da produção. Outros grandes produtores são a Austrália, os Estados Unidos e a Argentina.

Por causa da pandemia do novo coronavírus, foram canceladas diversas feiras internacionais que poderiam abrir mercados. Mas o setor funcionou a pleno vapor. Neste momento, quatro projetos de pesquisa são desenvolvidos em parceria da Abra com a Embrapa. Décio Coutinho anima-se: “Podemos ter um diamante ainda desconhecido dentro de algum resíduo”.

O Brasil recicla 99% dos resíduos de açougues, frigoríficos e supermercados

Os derivados do boi geram matéria-prima para abastecer cerca de 55 segmentos da indústria, desde produtos comestíveis até farmacêuticos

Fontes: Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat)

Leia também “O extraordinário momento do agronegócio”

 

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18 Comentários

  1. Parabéns pela matéria! Ajuda a desmistificar que a pecuária polui. Sugiro uma pauta sobre emissão de gases, sequestro de carbono e uso de água. A pecuária quando se considera as pastagens, o balanço é de Carbono é negativo, e ainda o consumo de agua é 90 % oriunda de chuvas e das plantas, sendo que é praticamente quase tudo reciclado!

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    • O Brasil que dá certo! Tranquilo e certo que eu me mudaria para o interior para trabalhar neste universo do agrobusiness brasileiro. Viva o Brasil!

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  2. Ótimo artigo. Parabéns à autora.

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    • Excelente reportagem! Aprendi coisas que sequer imaginava. Parabéns!

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  3. Show. Informação consistente: é isso que importa.

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  4. O Brasil que dá certo…

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  5. Excelente artigo!

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  6. O curioso é que os seres humanos são herbívoros. Se comem carne o fazem pelo livre arbítrio. Os Gorilas só comem vegetais e são enormes. Mas dizem que precisamos de proteína. Mas só existem as proteínas animais? Elefantes, Rinocerontes, Búfalos, Hipopótamos, Bois, Vacas, Bisõs etc, só comem vegetais e são enormes …

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    • Bisões e não Bisõs …

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    • Foi o consumo da carne que nos transformou em homo sapiens, resultando em um cérebro sem igual – e quando a carne foi assada, esse processo evolutivo não apenas foi aperfeiçoado, como promoveu uma socialização sem paralelo e conduziu definitivamente os seres humanos à civilização.

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      • Se você acha que isto temos hoje é uma civilização, sinto dizer que os seus conceitos estão equivocados. A violência humana já começa no prato onde estão os despojos de bilhões de animais mortos para o consumo de um animal herbívoro. Esta falácia sobre o cérebro é mais uma lenda urbana pois proteína, prezado companheiro aqui da Revista Oeste, está também nos vegetais e olhem que curioso, os Gorilas são enormes e só comem planta. Mas você pode dizer que eles não são tão inteligentes quanto os humanos, é verdade, pois eles não são incapazes de fazer uma bomba atômica., por exemplo Outrossim o animal mais inteligente do planeta Terra é o Golfinho, você sabia?

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        • Caro Marcus,
          Assim como você tem o direito de ser vegano, temos o livre arbítrio e podemos optar pelo consumo de proteína de origem animal. Não consigo entender onde você quer chegar com seu argumento em relação ao tamanho dos animais. Muitos dinossauros eram enormes e se alimentavam de plantas, mesmo assim não eram especialmente inteligentes e estão extintos. Evolutivamente estamos muito mais próximos do chimpanzé do que do gorila e você vai se surpreender ao pesquisar a dieta dos chimpanzés. Também temos inúmeros exemplos de animais carnívoros (grandes e pequenos), incluindo aí o golfinho que você citou como sendo o mais inteligente do planeta. Seriam eles de alguma forma inferiores ou menos importantes na diversidade ecológica por serem carnívoros?
          Forte abraço a todos os leitores de Oeste!

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          • Prezado Valmor

            Primeiro quero corrigir sua observação pois eu não sou vegano, mas deveria, sou vegetariano desde 1977, hoje tenho 60 anos. Os primatas mais próximos de nós são os Orangotangos que são herbívoros. Acontece que concordo com você que temos o livre arbítrio mas nem sempre sabemos usá-lo da melhor forma. Os humanos são herbívoros basta estudar um pouco a nossa fisiologia. Mas podemos comer até fezes se quisermos mas não é bom que o façamos mas podemos.

            Um pensamento: “A democracia é o convívio e a aceitação das diferenças”.

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            • Prezado Marcus,
              Vc se enganou. Entre nós muitos de nossos semelhantes se alimentam diariamente de fezes, o que lhes confere um caráter especial, tornando-os a própria expressão de sua alimentação. Eles se auto entitulam…. petistas.

    • Vá comer seu alface e não encha o saco de quem quer comer carne. Sua comparação com tamanho dos animais e sua alimentação passa do ridículo ao patético, bem depois de estúpido. Primeira vez que vejo alguém justificar a inteligência de animais com o fato de comerem ou não carne. Por fim, como você acha que morrem os bichos na natureza? São ferozmente devorados vivos por outros. Isso chama-se cadeia alimentar, ó inteligência suprema.

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      • Não costumo responder a pessoas mau educadas e sem argumentos mas vou abrir uma exceção: vá estudar! PS: O humanos são herbívoros …

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      • Você sabe ler? Então leia: “A democracia é o convívio e a aceitação das diferenças”

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      • Não é comer seu alface e sim a sua alface, só que, para o seu azar, eu não como alface, nunca gostei.

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