Além da margem de erro - Revista Oeste

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Além da margem de erro
Por que os institutos de pesquisas, alardeados pelo 'mainstream' como termômetro das ruas, erram tanto nas eleições — e sempre para o mesmo lado?
4 dez 2020, 09:01

O eleitor de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, saiu de casa no último domingo, 29 de novembro, rumo à seção eleitoral com uma certeza: a candidata do Partido Comunista do Brasil, Manuela D’Ávila, havia virado o jogo e seria eleita prefeita naquela noite. Ele não imaginou isso sozinho. Ouviu no rádio, leu nos portais na internet dos grandes veículos de imprensa e assistiu aos apresentadores da TV Globo anunciarem “os mais novos números da pesquisa Ibope” na noite anterior. De acordo com os dados do instituto, Manuela tinha ultrapassado o oponente, Sebastião Melo (MDB), naquela semana e venceria por 51% a 49%. Ao votar, por volta das 10 horas do domingo, a candidata chegou a dizer em entrevista: “Nossa cidade vai construir um caminho novo, inspirado na verdade”. Naquela noite, a mesma TV Globo informaria que Sebastião Melo ganhara a corrida por 55% a 45%. O Ibope havia errado — errado feio.

Os entendedores do jornalismo político no mainstream quase pegaram em armas para sustentar que o eleitorado gaúcho é imprevisível, afinal nunca reelegeu um governador, e o atual prefeito, inclusive, foi alijado do segundo turno, argumentaram. Mas a tese ruiu quando saíram os resultados em São Paulo e no Recife. Como explicar que os 55% a 45% de Bruno Covas (PSDB) contra Guilherme Boulos (Psol), este em proa de subida para eles, tenham se convertido em praticamente 60% a 40% nas urnas — uma distância de 1 milhão de dedos nas urnas. Ou que os 50% a 50% de Marília Arraes (PT) e João Campos (PSB), com viés de crescimento da petista, claro, tenham virado 56% a 44% a favor do eleito? Não é exagero dizer que em todos os casos citados até agora o erro só teve um lado.

Na segunda-feira, dia seguinte ao do segundo turno, a diretora do Ibope, Márcia Cavallari, pediu desculpas pela pisada na bola em Porto Alegre em entrevista à Rádio Gaúcha, do Grupo RBS. “A gente não teve um bom desempenho na última pesquisa. Inclusive, pedimos desculpas aos porto-alegrenses”, disse. À Folha de S.Paulo, ela sugeriu que o instituto deveria refletir sobre a barbeiragem. “Será que precisamos entender melhor os perfis dos eleitores que se abstiveram? Será que a nossa amostragem foi pequena para representar a cidade como um todo?”, questionou — foram ouvidos 807 entrevistados; Porto Alegre tem 1,1 milhão de eleitores.

Uma pesquisa na internet também revela que o eleitor da capital do Espírito Santo dormiu confuso com a profusão de manchetes na véspera do pleito. Conforme o Ibope, o ex-prefeito João Coser (PT) saltara de 47% para 50% na reta final e o Delegado Pazolini (Republicanos) perdia gás, recuando de 53% para 50%. Estava tudo igual no sábado à noite. Porém, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) capixaba, Pazolini foi eleito no domingo com 58,5% dos votantes.

Em Belém, uma das cinco cidades — e a única capital — onde o Psol ganhou, Edmilson Rodrigues marcava 58% contra 42% do adversário, Delegado Eguchi (Patriota), no mesmo Ibope que apagou a luz de sábado. Mas os números finais mostram que a vitória, 24 horas depois, foi no laço: uma diferença de só 26 mil votos.

Fonte: TSE

 

As regras para divulgação de pesquisas estão estabelecidas na Lei nº 9.504/1997. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), “os portais da Justiça Eleitoral disponibilizam as informações das pesquisas de opinião pública relativas às eleições ou aos candidatos, uma vez que são realizadas para conhecimento público. Os dados publicados são fornecidos, integralmente, pelas entidades e empresas que as realizam.

“Nesse contexto, o tribunal não realiza qualquer análise qualitativa, não defere nem homologa o teor, método ou resultado das pesquisas e não altera os dados, prerrogativa e responsabilidade das empresas e entidades. A finalidade do registro é apenas uma: dar publicidade às informações prestadas”.

Tecnicamente, há três tipos de erro em sondagens eleitorais, segundo o especialista em planejamento de governo e veterano em campanhas políticas Luis Carlos Burbano. “Os erros amostrais têm a ver com a definição do tamanho e da distribuição da amostra — a correta deve ser proporcional ao número de eleitores, à composição por sexo, idade e distribuição geográfica. Em muitos casos, essas exigências técnicas não são cumpridas adequadamente. Os erros não amostrais acontecem quando os dados são coletados, registrados e processados — por exemplo, quando os entrevistados, simplesmente, mentem. E há os erros de interpretação”, diz Burbano.

Ao analisar as manchetes que surgiram dessas pesquisas nos portais de grandes veículos, contudo, Oeste ouviu de especialistas que pode ter ocorrido um quarto fator: o erro de torcida.  “É fake news mesmo. Ter pesquisas não é o problema, mas sim a credibilidade que os grandes veículos de imprensa dão a elas. E pesquisa não pode ser usada para alavancar candidaturas”, afirma o advogado Arthur Rollo, especialista em Direito Eleitoral, que obteve uma vitória histórica neste ano ao conseguir suspender na Justiça a publicação de um levantamento do Datafolha na capital paulista, segundo ele, repleto de erros — como as balizas de situação econômica e grau de escolaridade dos entrevistados. Nesse caso, Rollo defendia a candidatura de Celso Russomanno (PRB). “Não era um erro da pesquisa não, era para beneficiar o Guilherme Boulos”, completa o advogado.

Com a palavra, o diretor de pesquisas do Datafolha, Alessandro Janoni, sobre o motivo de os números da casa não baterem com os das urnas: “Depois que a pesquisa de véspera é divulgada, muitos eleitores observam o resultado desse levantamento, articulam-se e, somado a outros fatores, mudam de voto”. Definitivamente, essa é uma daquelas respostas além da margem de erro.

 

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26 Comentários

  1. Sistema nojento, esse. “Pesquisas” historicamente manipuladas e compradas, deveriam ser simplesmente proibidas.

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    • Parabéns pelo teu texto. Concatenado, esclarecedor e com conteúdo.
      Adorando teu trabalho na Revista Oeste e no Opinião no ar.
      Como sempre, #pracimadeles

      * Vocês foram brilhantes quinta a noite na Live.
      Que trio.

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    • Concordo. Conheço muitas pessoas que se deixam levar por pesquisas. Estas acabam funcionando como indutor de votos de eleitores dotados de pouco discernimento (e neurônios).
      Deviam ser proibidas ou, pelo menos, nos dias que antecedem às eleições.

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  2. Não entendo.Se é comprovado que trata-se de “fake news”com grave repercussões e prejuízo para outros, porque os autores não respondem no processo do STF ?

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    • Não tem dúvida que essas pesquisas mentirosas,, sempre dando vantagem aos candidatos da esquerda, são feitas para influenciar os eleitores. A camada menos informada da população acha que se um candidato está na frente deve ser o melhor… E tem outros que querem votar em quem ganhar; é a sindrome do torcedor… Pesquisas do Data Folha e do Ibope como as que temos tido, sempre errando feio e favorecendo politicos esquerdistas deveriam ser proibidas…

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  3. De fato, não sei se uma pesquisa enviesada – mostrando um candidato com uma intenção de voto maior que a real – ajuda ou atrapalha…
    À primeira vista, ajuda (desanima os eleitores do oponente, arregimenta aqueles que desejam votar no vencedor, etc); MAS também poderia fazer um eleitor desistir de votar (acreditando que já está ganho!!!). Desconheço pesquisas acadêmicas de psicologia que tenham abordado a questão. A reportagem tem conhecimento???
    Esse seria um tema IMPORTANTÍSSIMO para os pesquisadores acadêmicos (eu consigo imaginar/rascunhar/delinear uns 2 ou 3 experimentos para tratar a questão)… mas temos que esperar os americanos pensarem a respeito, pois aqui o foco é “fazer banheirão”.

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  4. QUAL A REAL UTILIDADE DESSA PESQUISA DE INTENÇÃO DE VOTO???

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    • Por isso, antes de qualquer eleição, recito o seguinte mantra: FDMSE as pesquisas.

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    • Simples, atrevo-me a lhe explicar: elas servem de “colchão” para amortecer o impacto da reação popular logo depois do TSE “ajustar o algoritmo” que vai definir os eleitos, segundo o planejamento do comando esquerdopata. Lembre que Bolsonaro DE FATO elegeu-se no primeiro turno em 2018. Note que eles não param de publicar pesquisas em que a popularidade dele vem despencando sempre – mesmo que a gente veja o contrário nas gravações de centenas de vídeos feitos por populares e espalhados nas redes sociais da Internet. Ora, é exatamente para preparar o espírito do povo para a TRETA que eles pretendem fazer em 2022. Basta ver a insistência com que o dono do TSE Luis Barroso defende a absurda INFALIBILIDADE E INVULNERABILIDADE DO SISTEMA DIGITAL DELE , FEITO PELA SMARTMATIC, ligada a DOMINION, as mesmas empresas que VIRARAM GENI nas eleições americanas e estão em vias de permitir jogar meio mundo na cadeia por FRAUDES GROSSEIRAS, só detectadas graças ao voto impresso que existe por lá e o infame Barroso, nega implantar aqui – mesmo havendo lei federal aprovada para isso – apenas para não atrapalhar os planos esquerdopatas dele et caterva.

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  5. Manipulação escancarada.

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  6. Essa pesquisa é semelhante as que ouvimos todos os dias. ” o consórcio das empresas jornalisticas, O Globo, Folha……….etc” oferecem o espetáculo do ridículo, com informações de mortes do covid ( vírus chinês). Todos essas pesquisas são encomentadas para induzir o povo.
    Não acredito em nenhuma. Porque não fazem na China.

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    • Podiam aproveitar o espaço e informar o número de curados.

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  7. Resta saber se são os institutos que cometem a pajelança ou se¨ apenas fazem a encomenda conforme as especificações dos contratantes.

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  8. A resposta do diretor do DataFolha mostra claramente o baixíssimo nível intelectual de quem faz as pesquisas. Dizer que “os eleitores se articulam (na véspera)para mudar o voto” mostra o quanto nosso Brasil virou um hospício e comprova que essas pessoas tratam o povo como idiota.

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    • Eita! Mas o povo brasileiro está muito melhor do que se imaginava. Só gostaria de saber como é que esse povo avalia o resultado de uma pesquisa divulgada na véspera da eleição e ainda consegue se articular e mudar o voto no dia seguinte! O Atilio tem razão: só se forem os residentes de um hospício. Esse diretor acha que somos todos trouxas mesmo!

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  9. Como de praxe na Revista Oeste, texto excelente!

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  10. O gráfico do IBOPE de Porto Alegre está invertido.

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  11. A cada eleição fica reiterado o grau de credibilidade que pode ser dado a esses institutos.
    Nota ZERO aos badalados, imprestáveis e inúteis DataFarsa e Ingolpe!

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  12. Muito bom! Meus parabéns pelo texto!

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  13. bah, caiu a internet bem na hora da minha postagem…. só vou repetir agora uma sentença para os professores da área de estatística e matemática. O que é apresentado não é pesquisa científica. É apenas uma enquete. Pequenas amostras dificilmente representam um universo maior. A população sabe disto quando o número de eleitores é de 200 mil e número de questionários não passa de mil, é sacanagem dizerem que é um retrato do momento…

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  14. Esses institutos de pesquisa, principalmente o Datafolha, deveriam encerrar as suas atividades no Brasil no que se refere a pesquisas eleitorais.Eles erram sempre e, curiosamente, os erros deles são apenas a favor das candidaturas esquerdistas ou, como preferem, progressistas.
    Na verdade eles não são pesquisadores, é o que parece, mas torcedores e se comportam como aqueles apaixonados por times de futebol, distorcendo claramente o resultado final, frequentemente beneficiando o pessoal da canhota.
    Simples assim. Não é necessário fazer-se maiores análises.

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  15. A maioria dis institutos de pesquisa estão desmoralizados e deviam abadar, dando espaço para novas empresas mais sérias.

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  16. Paraná Pesquisas é a única que podemos confiar.

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  17. Triste o povo que precisa de pesquisa pra guiar seu voto. Mais triste ainda o povo que se deixa guiar pelas pesquisas para depositar seu voto. Infinitamente mais triste ainda o povo que acredita nestas pesquisas que há alguns pleitos têm errado e, mesmo assim, ainda continuam “enchendo a burra”. Francamente…

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  18. Excelente artigo. Está na hora de acabar com esses “institutos de pesquisa” que não pesquisam nada.

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    • As pesquisas objetivam criar uma realidade que sempre favorece à esquerda.

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