‘Está tudo muito politizado’, diz aluno humilhado em escola de São Paulo

Oeste conversou com Vittorio Furlan Vieira sobre o episódio
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Ele cursa o último ano do ensino médio
Ele cursa o último ano do ensino médio | Foto: Reprodução/Pixabay

Nesta semana, Vittorio Furlan Vieira, de 18 anos, sem querer virou notícia, ao levar a público uma discussão que raramente ultrapassa os muros das escolas: a doutrinação ideológica em sala de aula. Tudo aconteceu depois do vazamento do áudio de uma palestra na Escola Avenues da líder indígena Sonia Guajajara, candidata a vice-presidente na chapa de Guilherme Boulos em 2018. Depois de Vittorio expor seu ponto de vista sobre o tema abordado por Sônia, ele foi humilhado na frente de outros 200 alunos pelo professor Messias Basques. Na quarta-feira 5, Oeste conversou com Vittorio sobre o assunto.

“O que aconteceu tem de servir de exemplo para todas as escolas, não dá para continuar desse jeito”, disse o estudante. “A gente sabe que está tudo politizado e que tem muita gente tentando impor ideologia às outras pessoas. Isso precisa ser um chamado de alerta para os pais em geral. Os estudantes, os jovens não podem aceitar isso. É preciso ter o próprio ponto de vista, buscar conhecimento em outras fontes, não apenas na escola.”

Inicialmente, a palestra iria tratar de “equidade de gênero”. Sonia, contudo, discursou sobre outro tema: “a democratização de terras por meio da desapropriação de propriedades privadas”. “Não tenho problemas em ouvir ideologias contrárias ao que eu penso”, afirmou Vittorio. “Mas ela falou do agronegócio de forma pejorativa. Isso ofendeu profundamente muitos dos que estavam ali. Muitos de nós têm famílias ligadas ao agronegócio. Não acho justo que exista apenas um ponto de vista sendo exposto. Não quis ofender ninguém, mas quis mostrar um contraponto.”

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No dia da palestra, Vittorio argumentou que a desapropriação de terras não era democracia, “mas, sim, um roubo”. “Também falei sobre o uso de agrotóxicos”, observou. “Lembrei que o partido que ela defende tenta impedir que produtos mais modernos e eficientes sejam aprovados, atrapalhando o desenvolvimento sustentável da agricultura”.

A humilhação

Ao humilhar Vittorio, Basques disse que o estudante lembraria com vergonha da sua atitude quando entendesse “o que é ser uma pessoa do tamanho de Sonia Guajajara”. “Então, a minha recomendação é: respeite-me, porque sou doutor em Antropologia”, afirmou o professor, em público. “Não tenho opinião, sou especialista em Harvard. No dia em que você quiser discutir conosco, traga seu diploma e sua opinião, fundamentada em ciência. Aí sim poderá discutir com um especialista em Harvard.”

Apesar do ocorrido, Vittorio defendeu a escola onde estuda. “Isso não é um padrão da Escola Avenues, ela é muito boa”, afirmou. “Eu me orgulho de estudar lá. Eles, por exemplo, fazem cursos de negócios e empreendedorismo. Nunca tinha visto o Basques, ele não é meu professor.”

O estudante ainda se manifestou por meio de uma nota, em que afirma ter sido humilhado por Basques. “Em frente a todos, este professor começou a me humilhar e utilizar de seus diplomas para se sobrepor a mim, um aluno, em ambiente escolar, que estava tentando lutar pelo que acha certo, e defender sua família e seus amigos das coisas ditas pela Sonia”, contou. “Além disso, que diploma um aluno que ainda está na escola tem? Não é coerente.”

A posição da Escola

A instituição minimizou a atitude de Basques por meio de uma nota oficial emitida na terça-feira 5. “Durante o momento reservado a perguntas, um aluno discordou da senhora Guajajara de maneira desrespeitosa”, afirma Andy Williams, diretor da Avenues. “Em seguida, um professor corrigiu o aluno de uma maneira que também foi inapropriada.”

Além da unidade em São Paulo, a Escola Avenues possui outras três filiais. Duas nos Estados Unidos, em Nova Iorque e no Vale do Silício, e uma em Shenzhen, na China. No Brasil, a mensalidade chega a custar R$ 10 mil.

Leia a íntegra da nota do aluno

“Olá, meu nome é Vittorio, e fui eu que fiz a pergunta para a Sonia. Após tanta controvérsia, difamação e mentiras que estão falando de mim, decidi me posicionar, e, contar do meu ponto de vista, o que aconteceu. Ontem, fomos convidados a uma palestra, sobre a qual nenhum de nós foi previamente avisado. A palestrante também só foi revelada na hora, e pelo nome a reconhecemos (Vice do Boulos e filiada ao PSOL). Não era a primeira vez que a Avenues traz pessoas ligadas oficialmente à esquerda para palestrar. Com tudo isso, entramos no teatro e nos sentamos para ouvir. Afinal a palestra supostamente era para ser sobre “Gender Equity” (Equidade de Gênero). Isso não aconteceu, em nenhum momento o tópico foi comentado, e foi aí que começou a “doutrinação”.

Durante a palestra, Sonia falou muito sobre como os indígenas deveriam ter mais terras e abertamente criticou os fazendeiros e sua profissão. Defendeu a tomada de terra privada pela instituição que ela faz parte (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). Neste momento, mais uma vez a indignação tomou conta. Tenho amigos que os pais trabalham com o Agronegócio, e minha família vem da Agropecuária. Falar do agronegócio desta maneira tão pejorativa em frente a uma audiência de 300 alunos me deixou extremamente ofendido e desrespeitado (coisa que acredito que outras pessoas também sentiram). Afinal ela estava totalmente fora do tema. Sonia continuou atacando o Agronegócio, Fazendeiros, Latifundiários e seus meios e falou de “distribuição e divisão de terras” (um claro apelo político).

Sonia também falou muito do governo atual, citando projetos protocolados e leis aplicadas de forma pejorativa, e criando uma imagem para os alunos de que precisávamos lutar contra isso. Outra vez ficamos indignados. Como que a escola traz alguém tão ligada a movimentos políticos em ano de eleição, onde vários alunos vão votar pela primeira vez na vida? O que Sonia falou pode, sim, de certa forma, ser interpretado como propaganda eleitoral, visto que a mesma vai ser candidata a deputada federal pelo Psol e já foi do PT (colocando em nota, que a escola NUNCA trouxe ninguém de direita para dar um ponto de vista contrário). Além disso, Sonia exibiu dados e fatos duvidosos, e usou destes para exibir o ponto de vista dela.

Ao final da palestra, percebi que vários de nós estávamos indignados. O professor Messias Basques (que havia planejado e chamado Sonia para a escola) abriu a palestra para perguntas. Percebi que ninguém ali iria falar nada, e se algo fosse ser feito teria que vir de mim. Não aceitei o que havia acontecido, uma clara doutrinação política, um desrespeito à profissão de vários pais de amigos e de minha própria família. Precisei vir em defesa do que eu acredito e defender a mim e aos meus colegas, não aceitei que só tivesse um ponto de vista sendo compartilhado.

Me levantei na frente de 4 classes, peguei o microfone e falei o que pensava. Comentei o fato dela estar errada. Invasão de propriedade privada não é democracia e muito menos democrático, e tentei expor a controvérsia que ela mesmo se colocou ao falar mal de agrotóxicos. No Brasil só se podem utilizar alguns específicos tipos de agrotóxicos, os que mais poluem, e falei que os partidos que ela apoia são contra a entrada de novos agrotóxicos mais modernos e menos prejudiciais. Durante minha tentativa de explicar esta falácia e expor um ponto de vista diferente à plateia, vários professores vieram atrás de mim, tentaram me pressionar para perguntar algo e ir rápido. Juntando isso com o fato de estar na frente de mais de 200 pessoas, fiquei mais nervoso. Acredito que tenha me exaltado em poucas palavras que utilizei, posso ter sido infantil realmente. Indignado e sob pressão fiquei nervoso, mas nunca a desrespeitei, e quem ouvir os áudios da palestra pode confirmar isso. Minha intenção de ir lá nunca foi humilhá-la ou algo do tipo. Fui para me defender de algo pelo qual me senti atacado e expor um ponto de vista diferente, frente a uma nítida tentativa de doutrinação.

Logo em seguida, tiraram o microfone da minha mão, e este professor chamado Messias Basques, começou a falar. Bom, todos ouviram o que ele me falou. Me senti humilhado, desprezado, menosprezado e muito desconfortável. Em frente a todos, este professor começou a me humilhar e utilizar de seus diplomas para se sobrepor a mim, um aluno, em ambiente escolar, que estava tentando lutar pelo que acha certo, e defender sua família e seus amigos das coisas ditas pela Sonia. Além disso, que diploma um aluno que ainda está na escola tem? Não é coerente.

Sonia pegou o microfone para responder, mas não conseguiu responder com clareza o que eu havia dito. Se exaltou e falou coisas como “privilegiado”, “elite branca” e, acima de tudo, soltou uma frase dizendo assim: “Este Estado que só defende ricos e a grande elite”. Depois de tudo o que aconteceu, depois da Sonia ter me respondido, novamente este professor pega o microfone e se dirige a mim novamente falando: “Quando o Vittorio for discursar na ONU, chamaremos ele aqui para poder debater”. Tirando sarro da minha cara na frente de todos. Diminuindo minha pessoa e minha inteligência. Qual era o objetivo dele no último comentário? Será que ele realmente só queria me humilhar? Fiquei espantado e muito humilhado por este professor.

Cada um tem suas próprias conclusões sobre o que aconteceu, mas isso é o que tenho a dizer, e acredito que, com os áudios, vocês podem perceber e ouvir o que foi dito lá.

Vittorio Furlan Vieira

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