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Mara Gabrilli: ‘As cicatrizes da covid-19’

Senadora relata em depoimento exclusivo à Revista Oeste como enfrentou a covid-19 e as sequelas deixadas pela doença
Mara Gabrilli: 'O tsunami sofrido pelo meu corpo me trouxe alguns prejuízos' | Foto: MARCOS OLIVEIRA/AGÊNCIA SENADO
Mara Gabrilli: 'O tsunami sofrido pelo meu corpo me trouxe alguns prejuízos' | Foto: MARCOS OLIVEIRA/AGÊNCIA SENADO

Senadora relata em depoimento à Revista Oeste como enfrentou a covid-19 e as sequelas deixadas pela doença

Mara Gabrilli: “O tsunami sofrido pelo meu corpo me trouxe alguns prejuízos”
Foto: MARCOS OLIVEIRA/AGÊNCIA SENADO

Fortes contrações no abdômen, perda de olfato e paladar. Essas foram as primeiras manifestações em meu corpo que apontaram para o diagnóstico positivo da covid-19. O peso no braço e nas pernas não me permitia pilotar a cadeira de rodas. Parecia que havia alguém em cima de mim. A pilotagem começou a ficar perigosa quando os espasmos me arremessavam para a frente. Em pé na cadeira, minha cabeça era empurrada em direção ao joelho. Essa era a forma de o meu corpo de tetra mostrar que algo tentava invadi-lo. Havia um corpo estranho duelando ali.

As contrações eram acompanhadas de muitas dores. Essas dores me geravam mais espasmos, que me geravam mais dores. Um ciclo debilitante que eu já havia vivido de forma parecida no ano passado, o que me fez entender que dores muito fortes desencadeavam contrações musculares incontroláveis. Aliás, o pulo do gato, que permitiu não ter o pulmão atingido pela covid, se deu justamente por ter vivido essa experiência anteriormente.

À época, comecei a praticar exercícios respiratórios para expandir o pulmão, pois dessa forma oxigenava meus músculos e diminuía as contrações musculares. Ao ser infectada pelo novo coronavírus, graças a essa prática, meu pulmão estava expandido e não foi tomado pelo vírus.

Isso não significa que passar por esse inimigo invisível tenha sido fácil. Pelo contrário, o tsunami sofrido pelo meu corpo me trouxe alguns prejuízos que venho trabalhando para sanar há quase três meses.

Perdi força e peso, pois a falta de paladar e olfato também me levaram à perda de apetite. Sofri com a perda de memória recente, que me ocasionava uma sensação desnorteadora e difícil de lidar. Em segundos, perdermos a referência do que estamos falando. É perturbador e desgastante tentar o tempo todo lembrar o que estava falando dois segundos atrás.

Entre dores e espasmos, também sofri com manifestações inesperadas em meu sistema nervoso periférico, com contrações que caminhavam estranhamente por todo o corpo. Para se ter uma ideia, meu rosto foi atingido por espasmos. Cheguei ainda a romper alguns ligamentos e minha musculatura ficou descompensada, porque os espasmos me atingiam com força brutal, mas de forma desigual.

Enfrentar tudo isso e voltar ao normal tem me exigido uma reabilitação multifatorial, com diversos profissionais: neurologista, fisioterapeuta, fisiatra, psicólogo, otorrinolaringologista, nutricionista e até fonoaudiólogo. Isso porque a voz, minha principal ferramenta de trabalho, também foi comprometida. Fui diagnosticada com fadiga ocupacional e incoordenação pneumofonoarticulatória. Esse nome gigante significa que minha voz está falhando.

Já imaginou o que é para uma pessoa sem os movimentos do pescoço para baixo perder a voz? É o mesmo que lhe amputassem braços, pernas, mãos. De uma vez só, sem aviso prévio. Minha voz é meu movimento, meu comando. É através dela que faço tudo. Enfraquecê-la, além de gerar uma carga emocional difícil de suportar, também compromete minha atuação como parlamentar, pois é à voz que recorro para requerer algo ao outro. É com a voz que exerço meu mandato em prol de um país, principalmente daqueles cuja voz nunca foi ouvida. E isso gera frustração e medo.

Aliás, o medo de não voltar ao normal de nós mesmos dilacera a qualquer um. E olhe que, para mim, lidar com a “anormalidade” tem sido um exercício diário desde que quebrei o pescoço e passei a fazer tudo de forma diferente. O interessante dessas mudanças é que, com a covid-19, pude resgatar algo da época em que andava, corria, maratonava. Eu passei a transpirar novamente! Algo que desde a lesão medular não acontecia.

O fato de ter voltado a transpirar, depois de 26 anos que sofri o acidente, explica a razão por não ter tido febres durante todo o processo da covid. Muito pelo contrário, minha temperatura oscilava entre 33ºC e 35ºC, porque meu corpo recebeu de volta o sistema de resfriamento: o suor. De alguma forma o vírus estimulou o meu sistema simpático.

Assim como eu, muita gente no Brasil e no mundo vem lutando para se recuperar de sequelas, mas, quando falamos de pacientes com lesões medulares e diferentes tetraplegias, o buraco pode estar ainda mais embaixo. Quase num abismo, uma vez que falamos de pessoas que sempre foram postas à margem de muita coisa, principalmente de acesso à saúde. A desigualdade nunca foi tão escancarada quanto nessa pandemia.

Pensando nos mais vulneráveis deste país, apresentei diversas proposições que integram um pacote emergencial para pessoas com deficiência e em situação de vulnerabilidade. Tenho muita gratidão, porque, quando já estava infectada, dois de nossos projetos foram aprovados: o PL 2113/2020, que proíbe restrição de cobertura em seguros de vida e de assistência médica, e o PL 2178/2020, que garante transporte a cuidadores de pessoas idosas, com deficiência ou com doenças raras. Ambos tramitam atualmente na Câmara. Isso mostra quanto o Senado tem sido célere e humano, pois há um entendimento de que para reverter essa crise não devemos travar batalhas individuais.

As consequências de uma pandemia devem ser foco de políticas públicas, de ações coletivas. Sabemos que esse é um obstáculo a ser vencido pelos sistemas de saúde do mundo inteiro. O planeta gira em torno de um vírus e só conseguiremos sair dessa se atuarmos juntos. Esse, inclusive, é um dos motivos que me inspiraram a escrever esse texto. Precisamos também compartilhar dores e cicatrizes. Elas nos nortearão no presente e no futuro. Afinal, o que faremos para sanar essas sequelas em um país continental como o Brasil?

Compreender a dimensão do problema e o que está por vir é o primeiro passo para entendermos que não falamos de uma gripezinha. Falamos de algo novo e sem parâmetros científicos, mas que pode nos deixar muitas lições, inclusive a da empatia. A meu ver, esse é o principal antídoto para a indiferença, o maior mal da humanidade.

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7 comentários

      1. Solidário com.onpensamebto da senadora mas gostaria de saber se ela votou o aumento absurdo de funcionários públicos, votação está contrária ao acerto para com o governo no combate à pandemia. Admiro a senadora mas gostaria de saber qual foi sua participação nessa pouco vergonha feita pelo senado.

      2. Ela voltou “não” ou seja pela derrubada do veto. O Brasil que se estrepe (para não usar outra palavra)

      3. Pois éh! Ela sofreu, mas se recuperou, mas o Brasil que se dane! E também seus eleitores.

  1. Sou de SP, votei em Mara, pra me livrar do PT, fico muito feliz que ele tenha se recuperado, mas como Senadora, já voltou votando contra o veto e prejudicando as finanças do país. Espero realmente que Mara nunca mais precise passar por isso, nem ela nem ninguém. Quanto a atuação como senadora, perdeu meu voto. Infelizmente tanto ela quando o Major Olímpio terão muitos anos pela frente no Senado, pela que não se importam em representar seus eleitores.

  2. Votei nessa Senadora e me arrependo disso, não votarei de novo. Respeito muito o problema de mobilidade que ela tem, mas não é por isso que ela deve cuidar apenas dos problemas que lhe diz respeito, há outros problemas que merecem atenção dos senhores senadores, inclusive os cuidados com os DEUSES do STF.

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