O que dizem médicos e cientistas indiciados no relatório final da CPI

'Mantenho firmes minhas convicções em favor da autonomia do médico e do paciente', disse o presidente do Conselho Federal de Medicina
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Plenário da CPI da Covid | Foto: Pedro França/Agência Senado
Plenário da CPI da Covid | Foto: Pedro França/Agência Senado

*Por David Ágape, especial para a Revista Oeste

O relatório final da CPI da Covid, divulgado na quarta-feira 20 e que ainda será votado na próxima terça-feira, 26, incluiu o indiciamento de 66 pessoas, entre elas o presidente Jair Bolsonaro, além de médicos e cientistas, acusados de integrar o suposto “gabinete paralelo” e de outros crimes.

Entre as acusações estão: epidemia com resultado morte e prevaricação, ambos crimes tipificados no Código Penal; e também crime contra a humanidade, baseando-se no texto do Tratado de Roma do Tribunal Penal Internacional, que condena quem promova “ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque; outros atos desumanos de caráter semelhante que causem intencionalmente grande sofrimento ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental”.

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A Revista Oeste conversou com alguns profissionais da saúde indiciados na CPI da Covid.

Mayra Pinheiro

A médica Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde, foi acusada de promover o chamado tratamento precoce, além de ser indiciada pelos crimes de prevaricação, crime contra a humanidade e de epidemia com resultado morte.

“Isso é uma agressão a uma médica inocente. Arrisquei minha própria vida ao lado dos técnicos do Ministério da Saúde para salvar as pessoas acometidas de covid, na grave crise sanitária de Manaus, causada pela falta de escrúpulo de agentes públicos que desviaram o dinheiro da saúde, comprando respiradores em loja de vinho”, disse Mayra.

Segundo o advogado de Mayra, Djalma Pinto, o relatório deve ser anulado em razão da suspeição e do impedimento legal do senador Renan Calheiros, que é pai de Renan Filho, governador do Estado de Alagoas e suspeito da compra de respiradores irregulares no caso do Consórcio Nordeste.

Paolo Zanotto

Paolo Zanotto é especialista em virologia, epidemiologia molecular e evolução viral e foi acusado de causar epidemia com resultado morte e de integrar um suposto “gabinete paralelo”. Segundo o relatório, Zanotto teria aconselhado o presidente Jair Bolsonaro contra a vacinação no combate à covid-19 e estimulado a adoção de alguns medicamentos para o tratamento da doença.

“Fui acusado de defender o tratamento precoce, mas o ônus da prova é do acusador. Para criminalizar o tratamento precoce, a evidência de que ele é ineficiente e de que tem sido administrado com má intenção ou por descuido precisa ser apresentada”, disse o professor.

Zanotto afirma que as evidências da ineficácia do chamado tratamento precoce são limitadas, seletivas e equivocadas. No entanto, segundo o pesquisador, a evidência a favor dos medicamentos reposicionados cresce a cada dia ao redor do mundo, em estudos e pela aplicação em programas de saúde em diversas nações.

“Vão incriminar os gestores de Cuba, Senegal, China, Índia, México? Vão tentar refutar os trabalhos de Marselha, Detroit e Dacar? Vão invadir Porto Feliz, Macapá, Porto Seguro? Vão mandar tribunais internacionais prender gestores que estão reduzindo a letalidade ao redor do mundo? Sugiro o contrário”, disse Zanotto.

Flávio Cadegiani

O médico endocrinologista Flávio Cadegiani foi acusado de realizar estudos não autorizados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) com o medicamento proxalutamida e indiciado no relatório da CPI por crime contra a humanidade.

“Ainda não fiz a leitura completa do relatório, porque somente vai ser votado na terça-feira. Mas é certo que a pesquisa observou os mais rígidos princípios éticos, bem como todas as normas do Conselho Nacional de Saúde e todas as orientações da Conep, de forma que não há dúvidas de que não houve nenhuma violação a direitos humanos nem tampouco a qualquer direito dos participantes da pesquisa”, disse Cadegiani.

Mauro Ribeiro

Mauro Ribeiro, médico e presidente do Conselho Federal de Medicina, também foi indiciado no relatório da CPI e enviou uma nota a respeito.

“Mantenho firmes minhas convicções em favor da autonomia do médico e do paciente, princípio milenar hipocrático que é pilar da prática da medicina, o qual foi subjugado pela CPI e deve ser defendido — hoje e sempre — sob qualquer circunstância. Lamentavelmente, a narrativa adotada pela CPI ao longo de sua existência desprezou esse princípio, deixando evidente em seu relatório final a politização em torno da maior crise sanitária do Brasil”, disse.

Ribeiro acrescenta ainda que, embora ainda não tenha sido notificado oficialmente sobre o desfecho da CPI, reitera sua disposição em prestar todos os esclarecimentos necessários.

Associação Médicos Pela Vida (AMPV)

A Associação Médicos Pela Vida (AMPV), acusada no relatório de integrar o suposto “gabinete paralelo”, informou em nota que vê com decepção a CPI, que se apequenou com a sua transformação em um “palanque político-eleitoral”.

“A CPI não promoveu a discussão científica esperada; ao contrário, martelou de forma sistemática a mesma narrativa inverídica da imprensa tendenciosa que fala de ‘medicamentos sem comprovação científica’, produzindo verdadeira lavagem cerebral na população. Um desserviço à nação.”

A AMPV diz também que recorreu ao STF contra o pedido de quebra do seu sigilo por falta de justificativas e ressalta que o órgão nem sequer foi ouvido.

“Como pode pessoas e instituições serem incriminadas sem sequer serem ouvidas?! Nem a AMPV nem o presidente do CFM foram chamados. Mas a medicina foi violentada, com políticos, jornalistas, promotores de Justiça, até artistas e toda a sorte de ‘pitaqueiros’ dizendo o que os médicos devem fazer. A vida merece respeito. E a sua preservação, diante de ameaça à saúde, requer acolhimento imediato e autonomia do médico em sua condução”, finalizou a nota.

Os médicos Nise Yamaguchi, Luciano Dias Azevedo e Osmar Terra não responderam ao nosso contato.

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6 comentários Ver comentários

  1. A CPI foi tão incompetente que não conseguiu enxergar que o protocolo do Mandetta matou milhares de pessoas . Procurar atendimento e ser orientado a voltar pra casa sem nenhuma medicação, algumas existentes ha mais de 50 anos, e voltar ao hospital se tivesse falta de ar é negligência !!!

  2. É impossível provar que foi a divulgação da medicação contestada a causa da morte de tantas pessoas. O fato de uma pessoa dizer que é bom deve ser confrontado com os que de fato tomaram em função dessa propaganda. Dessa forma teremos que ouvir os que morreram, comprovar que a morte foi causada pela medicação, e não pela doença, e provar que o percentual de mortes no Brasil foi superior ao de países onde não se aconselhou os remédios. Enfim…

  3. Esperávamos o quê, de uma CPI autorizada por pessoas comprometidas com bandidos, e conduzida por bandidos? Por um relator, um presidente e um vice-presidente mais sujos que pau de galinheiro? Cheios de processos por corrupção e outros crimes? Em um país sério, essa cúpula estaria na cadeia, e não conduzindo apurações de nada!

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