Rádio perde anunciantes após jornalistas ironizarem assalto

Comentaristas exaltaram ação dos bandidos que promoveram "noite do terror" em Criciúma (SC)
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Na madrugada de terça-feira, bandidos fortemente armados saquearam uma agência do Banco do Brasil na cidade
Na madrugada de terça-feira, bandidos fortemente armados saquearam uma agência do Banco do Brasil na cidade | Lucas Colombo/Estadão Conteúdo

Quatro anunciantes da Rádio Gaúcha (a maior emissora do Rio Grande do Sul) informaram nesta sexta-feira, 4, o fim da parceria com o veículo de comunicação. Santa Clara, ZeZé Biscoitos, Unicred e a Vinícola Salton alegaram que o motivo é a repercussão negativa da edição de 1° de dezembro do programa Timeline, uma das atrações da rádio. Isso porque os jornalistas David Coimbra e Kelly Matos teceram comentários polêmicos sobre o assalto em Criciúma, cidade no interior de SC. Depois do ocorrido, a rádio publicou uma nota desculpando-se.

Conforme noticiou Oeste, na madrugada de terça-feira, bandidos fortemente armados saquearam uma agência do Banco do Brasil, fizeram reféns e levaram uma quantia vultosa ainda não calculada pelas autoridades. Um policial militar, que trocou tiros com os assaltantes, ficou ferido e está no hospital em estado grave. Até o momento, seis pessoas suspeitas de participação no caso foram presas. É o maior assalto já registrado na história de Santa Catarina. A seguir, os principais trechos dos comentários dos jornalistas sobre o episódio:

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1) Coimbra: “Vamos supor que todos os assaltantes fossem assim: organizados. Eles têm método. E, mais que isso, eles têm respeito pelo cidadão. […] Chamaram um funcionário do banco e perguntaram: ‘Quanto você ganha?’. O cara respondeu. E o bandido: ‘Está vendo? Não estamos tirando dinheiro de ninguém. Estamos tirando dinheiro do banco’. Ou seja, existe uma filosofia no assalto deles. […] Existe uma moral. […] Não é algo contra o cidadão, tanto que eles deram dinheiro às pessoas. […] Estou falando para você, que é bandido: Tome consciência. Seja como os caras de Criciúma, que respeitam a população. A ação tem de ser para outros alvos e não o pobre trabalhador. Existe ética para tudo”.

2) Matos: “Esse episódio lembrou a série da Netflix La Casa de Papel. A série fala um pouco sobre criminosos com essa filosofia: não estão roubando do povo. […] No Assalto ao Banco Central, filme que narra uma ideia parecida, ele diz assim: ‘Crime não é roubar um banco. É fundar um banco’.”

Repercussão

Ao cancelar o patrocínio com a Rádio Gaúcha, a Unicred argumentou que “respeita a liberdade de imprensa e o trabalho realizado pelos jornalistas e pela RBS; no entanto, não compactua com os comentários realizados a respeito de bancos e assaltantes”. A Irmãos Ruivo, que controla a ZeZé Biscoitos, repudiou o episódio e informou, em nota, que tem compromisso com a preservação do Estado Democrático de Direito.

A cooperativa Santa Clara reafirmou que defende a segurança pública e a integridade física dos cidadãos. Também a Vinícola Salton anunciou que está retirando patrocínio da rádio. O posicionamento das quatro empresas representa um “Sleeping Giants” às avessas, uma vez que, agora, não foi preciso uma milícia digital pressionar anunciantes de modo a intimidar veículos de comunicação. As próprias companhias decidiram se manifestar.

Assista ao vídeo

O colunista do jornal Brasil sem Medo Leandro Ruschel divulgou nas redes o vídeo com o comentário dos jornalistas. Assista:

Posicionamento da Rádio Gaúcha

“A respeito de manifestação feita pelo comunicador David Coimbra, no programa Timeline da última quarta-feira (2), sobre o assalto em Criciúma (SC), o Grupo RBS informa que não houve intenção de minimizar a gravidade da ação criminosa e de ofender as empresas, os cidadãos e os policiais que foram feridos. O comunicador se retratou no ar nessa quinta-feira (3). A RBS pede desculpas pelo ocorrido e afirma seu respeito às instituições financeiras e às forças policiais, assim como a todas as pessoas atingidas pelo lamentável episódio. A linha editorial da RBS nos assuntos de segurança busca auxiliar cidadãos e empresas a se protegerem e valoriza as forças policiais na defesa da lei e da sociedade. A empresa tem como princípio estar aberta às críticas e aos questionamentos de todos, para ouvir suas percepções sobre todo e qualquer tema e estabelecer uma relação constante de diálogo e respeito. Essa atitude será reforçada nos próximos dias com diversos setores da sociedade com o propósito de aperfeiçoar o seu jornalismo responsável e independente.”

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