Carta ao leitor - Revista Oeste

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Carta ao leitor
O teimoso Brasil bem-sucedido, o vexame de improdutividade das estatais e a eterna dúvida se o país será capaz de fazer as reformas necessárias
21 ago 2020, 08:52

Há um Brasil que teima em seguir produtivo e exemplarmente inovador mesmo para padrões globais ultracompetitivos. Um Brasil que é resiliente, supera adversidades e atua com agilidade para aproveitar ondas favoráveis. É o Brasil do agronegócio. Num país disfuncional, em que o Estado criou um cipoal burocrático e tributário para achacar o empreendedor e financiar privilégios, o agro gera prosperidade e vira modelo de eficiência. O jornalista David Cohen traça um acurado panorama do setor, numa das reportagens mais bem escritas sobre o tema. Cohen mostra como o agronegócio nacional se tornou o mais produtivo do mundo, a importância estratégica dos investimentos em pesquisa científica e tecnologia, e a notável habilidade do segmento para não desperdiçar oportunidades — sejam excepcionais ou relacionadas à conjuntura econômica. O assunto é a capa desta Edição 22 da Revista Oeste.

O contraponto do vigor do agro é o vexame de improdutividade das estatais, particularmente exibido pelos Correios. O colunista Dagomir Marquezi descreve a inconcebível situação a que chegou a estatal dos envelopes e selos, os penduricalhos adicionados aos holerites dos servidores como benefícios — convertidos em “direitos adquiridos” — e a encrenca que o governo enfrentará caso decida ir adiante com a proposta de privatização. Marquezi faz uma breve análise histórica para constatar que o cursus publicus, serviço postal do Império Romano, era mais eficiente que os Correios.

Esse Brasil apegado ao atraso volta a nos assombrar quando avaliamos a marcha das chamadas reformas estruturais. O país será mesmo capaz de tomar as decisões acertadas e encarar com seriedade questões difíceis ou preferirá a trilha populista da irresponsabilidade fiscal, mantendo a prática secular de adiar indefinidamente a solução de problemas complexos? Selma Santa Cruz, experimentada analista política, dedica-se ao tema. “Década após década, os brasileiros veem cair por terra seguidas tentativas de colocar o país na rota das modernas nações democráticas. Enfrentar mais um revés, caso o atual projeto de modernização também naufrague, não traz um bom augúrio”, diz Selma.

Não contribui para a construção de uma sociedade decente uma Suprema Corte partidarizada. Acometido por uma pandemia legislativa, o STF virou uma espécie de partido político. J. R. Guzzo escreve: “Essa conduta não sai de graça. Agride diretamente o Estado de Direito, o império da lei e a democracia no Brasil. Como resultado, a principal corte de Justiça brasileira é hoje, pela deformação patológica que lhe está sendo imposta por seus ministros, o principal fator de instabilidade política, econômica e social deste país”.

A instabilidade se elevará a altas voltagens caso o STF atenda às demandas daquele conhecido personagem que é a precisa versão degenerada do São Jorge de bordel. Em mais um de seus primorosos textos que não queremos apenas ler, mas reler várias vezes, Augusto Nunes nos transporta para divertidas cenas interioranas para alertar sobre o que poderá acontecer caso o ex-presidente Lula obtenha a anulação dos processos contra si.

Finalmente, o cientista político Bruno Garschagen lembra que há uma boa forma de chegar à resolução de conflitos. Basta recorrer aos preceitos conservadores. A motivação para construir em vez de destruir e a preservação das coisas positivas que sobreviveram aos testes do tempo são importantes mandamentos do cânone conservador. E, no que diz respeito a reformas, os conservadores não procuram detê-las. Eles buscam “dar-lhes um tom moderado e tranquilo, acomodá-las às condições gerais da sociedade, naturalizá-las, em suma”, escreve Garschagen, citando o historiador João Camilo de Oliveira Torres. Uma bela e necessária reflexão.

Boa leitura.

Os Editores.

 

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3 Comentários

  1. A leitura dessa Carta ao Leitor nos consola em meio ao caos institucional do país; percebemos que há pessoas sérias, com um olhar afinado para as questões políticas e culturais. Observo que a revista deveria fortalecer cada vez mais sua seção cultural, com artigos de formação. Abraços a todos da redação.

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    • Reitero a observação do leitor Adriano Carvalho, “…a revista deveria fortalecer cada vez mais sua seção cultural, com artigos de formação”. Certamente vai ampliar o serviço imenso de informação crítica que vem prestando no campo político, vindo a colaborar com a disseminação das ideias/conceitos que proporcionaram as maiores conquistas da experiência humana no mundo.

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  2. Concordo com ambos. A Oeste pode vir um dia a se tornar o que a Veja foi no passado, antes de virar pra esquerda

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