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Carta ao Leitor
A doutrinação anticapitalista nas salas de aula, o panorama desolador da educação no país e as enviesadas pesquisas de intenção de votos
4 dez 2020, 08:55

O único sistema que se mostrou capaz ao longo da história da humanidade de produzir e distribuir riquezas e bens culturais é vilipendiado quase diariamente nas escolas do país. O capitalismo é apresentado a crianças e jovens como um mal. Às vezes, até, um mal necessário. Porém, na essência, um modelo econômico usurpador, injusto, feio. Perdem-se tempo e dinheiro com a difusão de uma narrativa ficcional inútil. É simplesmente insultuoso que livros didáticos apresentem o empresário como um explorador, o agronegócio moderno como beneficiário do trabalho escravo, o capitalista como um Tio Patinhas avarento.

Em A Mentalidade Anticapitalista, o economista austríaco Ludwig von Mises (1881-1973), numa chave mais ampla, discorre sobre o fenômeno:

O dogma fundamental dessa crença proclama que a pobreza é resultado de instituições sociais injustas. O pecado original que privou a humanidade de uma vida feliz nos jardins do paraíso foi o estabelecimento da propriedade privada e da empresa. O capitalismo atende apenas aos interesses egoístas dos ferozes exploradores. Condena as massas de homens íntegros ao empobrecimento e degradação progressivos. O que é necessário para tornar prósperas todas as pessoas é a submissão dos exploradores gananciosos ao grande deus chamado Estado.

Até por falta de preparo intelectual, é provável que a maioria dos professores nem tenha uma explícita intenção doutrinária e apenas repita clichês de fácil assimilação. Mas, ao fim e ao cabo, o recado para os alunos acaba sendo mesmo este: “O Estado é um ente mais sábio, mais generoso, mais justo que o mercado”. Custa muito, mais adiante, demolir esse credo. “São necessários vários meses para desideologizar os estudantes e mostrar a realidade dos fundamentos da economia”, diz um diretor do Insper, de São Paulo, uma das mais prestigiadas universidades privadas do país. “E há muitos casos em que não somos bem-sucedidos.” Se o Insper, empenhado nessa “desinfecção”, enfrenta dificuldades, o que se dirá de instituições que reforçam as lições anticapitalistas das escolas de ensino fundamental e ensino médio? A editora Branca Nunes dedicou dias de apuração intensa para entender — e explicar — os estragos causados por essa educação que preconiza valores torpes. Branca assina a reportagem de capa desta edição.

A ideologia nas salas de aula é um dos elementos do culto à ignorância tão amplamente praticado no país. É fácil embarcar nas utopias quando não se sabe fazer contas. E não vai adiantar entregar um texto básico aos estudantes para ajudá-los a compreender melhor a sociedade em que vivem. Sete em cada dez não sabem o mínimo sobre escrita e interpretação de texto quando chegam à terceira e última série do ensino médio. O panorama desolador e seu contexto são objeto da análise da jornalista Selma Santa Cruz. E Augusto Nunes aborda outros aspectos do culto à ignorância: “Estudar e aprender tornaram-se verbos conjugados pela elite golpista, gente de olhos azuis irremediavelmente racista, misógina e homofóbica. Falar a linguagem culta é coisa de reacionário pedante.” A situação é particularmente dramática quando se considera que o Brasil gasta 6% do PIB com educação, porcentagem superior à média dos países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, de 5,5%. É, portanto, mais do que evidente que o dinheiro do pagador de impostos não vem sendo bem utilizado.

O desperdício é também inequívoco com as pesquisas de intenção de votos, boa parte bancada com recursos do contribuinte via Fundo Eleitoral. As projeções dos institutos de pesquisa têm, sistematicamente, apresentado erros grosseiros quando confrontadas com os resultados das urnas. Que utilidade elas têm, além de anabolizar manchetes na imprensa e memes nas redes sociais? Há alguma boa razão para que continuem sendo financiadas pelo cidadão que trabalha e paga tributos? Na matéria “Além da margem de erro”, o editor-executivo Silvio Navarro esquadrinha os fatos relacionados às pesquisas. E o colunista Rodrigo Constantino, numa avaliação precisa, crava: “Não é erro, é viés!”.

Boa leitura.

Os Editores.

 

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5 Comentários

  1. Eu acho que sou um dos poucos leitores que posta criticas( penso eu construtivas!) e que e´,possivelmente, considerado um aborrecimento.
    Continuo fiel ao ensinamento de um grande jornalista que tambem se converteu em grande escritor : Le gout de la verite´n´empeche pas de prendre parti !.(A.C.)
    A pergunta e´ : ate´quando o brasileiro – classe semi-media e media , classe semi-alta e alta – ¨tera´tempo para se arrepender¨ por ter contibuido , direta ou indiretamente , a construção deste status quo ?
    A colera ( que e´a outra cara da compaixão ) contra a opressão, se não se configurar na insurreição das consciencias (( nunca violenta!)) no nivel social e politico , deixa espaço a vertigen do poder.(E.B.)
    O oficio de viver se converteu em tarefa ardua.

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    • “Le gout de la vérité n’empêche pas de prendre parti” – “O gosto pela verdade não impede tomar partido” (Albert Camus). Combateu o totalitarismo soviético, que era simpatizado por seus amigos contemporâneos. Recusou-se a assumir quaisquer filiações ideológicas. Por essa razão foi vilipendiado, oprimido intelectualmente e retaliado. Teve graves desavenças intelectuais com seu antigo colega Sartre. Tentaram acabar com êle. Mas obteve a glória de sair vitorioso…

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    • Até quando o brasileiro terá tempo de se arrepender?
      Eu respondo: só podemos nos arrepender do que temos “consciência da culpa”… Muitos (brasileiros) não querem nem pensar no assunto, quanto mais se arrepender… Tenho 56 anos, e até pouquíssimo tempo era “completamente omissa e desinteressada” quando o assunto era política, como muitos da minha geração (ou eram de esquerda (doutrinados)- ou não eram nada).
      Quanto mais demorarmos para tomarmos consciência disso tudo, e nos arrependermos por ter contribuído com isso (a omissão também contribui), mais dolorido será o processo…

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  2. Essa doutrina persuasiva decorre das pregações anacrônicas de A. F. Gramsci, aqui difundida, a partir do 1º grau, por imitadores de Paulo Freire, pseudopatrono da educação, forçadamente “patrono da educação brasileira” pela Lei 12.612/2012, assinada por Dilma Rousseff e Aloizio Mercadante… Trata-se de um ideário bitolado que incutido na mente de certos docentes, mesmo após a queda do “Muro de Berlim” e da “Cortina de Ferro”. Uma estupidez. O próprio governo chinês, desde 1976, se convenceu que a economia totalmente estatal planejada é ineficaz e prejudicial ao país. Razão pela qual abriu a maior parte dela à livre iniciativa, com inúmeras privatizações.

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  3. A Coreia do Sul é Capitalista. A Coreia do Norte : anticapitalista. Comparemos as duas economias, e não teremos mais dúvidas sobre qual é a melhor e a mais avançada.

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