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O futuro do STF, o exemplo da Suprema Corte americana e duas neuroses da atualidade
23 out 2020, 10:19

Em países democráticos, certamente será difícil encontrar uma Suprema Corte que consiga frustrar mais a população do que nosso STF. Não por acaso, o tribunal maior da nação tornou-se alvo de críticas ferozes, ataques ácidos e muitas piadas — algumas memoráveis. A chegada de Kassio Nunes Marques para a vaga de Celso de Mello não é propriamente uma notícia auspiciosa. O beija-mão nos gabinetes dos senadores, ritual que precede a sabatina cenográfica, dá sinais do que o Brasil verá adiante. Por outro lado, a presidência sob o comando de Luiz Fux pode significar alguma mudança. Fux pretende apoiar a Lava Jato, quer acabar com as decisões monocráticas e está determinado a restabelecer a confiabilidade da qual o STF já desfrutou. O editor-executivo Silvio Navarro, na reportagem de capa desta Edição 31, analisa os últimos acontecimentos que envolvem a entidade, traça um panorama histórico, revela bastidores e conta o que podemos esperar do tribunal.

Por mais mudanças que Fux seja capaz de implementar, no entanto, continuaremos ainda muito distantes do modelo exemplar da Suprema Corte americana. Quando a instituição está muito acima dos indivíduos que a representam e a Lei é a única bússola, não desejos e convicções pessoais, o sistema opera numa frequência virtuosa, como nos mostra o economista Rodrigo Constantino no artigo “Supremas diferenças”.

Além do STF, na pauta da semana teve destaque o tema da obrigatoriedade de vacinação anticoronavírus. O escritor Guilherme Fiuza adiciona ao debate público um curioso tópico para reflexão: qual o objetivo de discutir a obrigatoriedade se nem vacina existe ainda? “É só pegar as manchetes, os discursos, as profecias, as bravatas, comprimir tudo numa seringa e mandar pra dentro do povo. Adeus, covid”, provoca Fiuza.

Um outro mal, talvez mais nocivo que a própria covid-19, vem acometendo milhões de pessoas mundo afora. J. R. Guzzo trata da neurastenia que se instalou entre os indivíduos das camadas mais abastadas da sociedade. “A doença real não vai ser encontrada na infecção dos pulmões, e sim no equipamento cerebral de cada um”, diz Guzzo, ao comentar o distanciamento social e até familiar ao qual muitas pessoas voluntariamente vêm se submetendo.

Mais uma neurose da atualidade, o vírus anticapitalismo propaga-se na Europa e nos Estados Unidos. Quantidades expressivas de jovens mobilizam-se em defesa de um sistema “mais justo, mais sustentável, mais inclusivo”. O discurso ecoa com retumbância nos países ricos. Cresceram, registraram por décadas indicadores ascendentes de prosperidade, e agora, chegada a vez dos emergentes, da Ásia e — espera-se — da África, “vamos paralisar o crescimento econômico porque não vai dar para continuar desse jeito”. Com uma certa condescendência, é possível entender que jovens universitários difundam a litania e ignorem — ou finjam ignorar — que o capitalismo é o responsável pela redução da fome, da mortalidade e do analfabetismo; pelo aumento da expectativa de vida, do acesso à informação e dos níveis de liberdade. Mas, ao ouvir vozes influentes e pretensamente responsáveis seguir o mesmo script básico, convém manter a atenção. A experiente jornalista Selma Santa Cruz examina o fenômeno, apresenta o cenário e também os desafios que se impõem àqueles que, como nós, acreditam — com base em evidências históricas e num farto volume de dados — na capacidade do capitalismo de se transformar e indicar rumos que continuem assegurando o enriquecimento de indivíduos e nações.

No Brasil, é alvissareira a notícia de que a mensagem das virtudes da economia de mercado tende a ganhar tração. Um agente importante passa a se dedicar exclusivamente a essa missão. O empresário Salim Mattar, ex-secretário especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, mapeou todos os movimentos liberais no país e empenha-se numa grande articulação nacional. Mattar também criará um instituto para defender o cidadão pagador de impostos da sanha do Estado ineficiente e gastador. Ele concedeu entrevista à editora Branca Nunes.

Mais um bom motivo de celebração, os 80 anos do Atleta do Século são um belo pretexto para assistir  ao documentário Pelé Eterno. Com a elegância literária tão conhecida do assinante da Revista OESTE, Augusto Nunes escreve: “Existiu mesmo uma divindade contemplada com o arranque de Garrincha e a ginga de Muhammad Ali, capaz de levitar e mover-se no espaço como Nureyev, flutuar sobre os adversários como Michael Jordan, dissimular os movimentos seguintes como um Marlon Brando e manter todo o tempo o gramado inteiro sob a estreita vigilância de quem alcançava, com olhar de fera, o milagre dos 360 graus”.

Boa leitura.

Os Editores.

 

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1 Comentário

  1. O Brasil, com os benefícios de ex-Presidentes, que têm direito a 2 automóveis, assessores, segurança e combustível, com os altos salários, Vantagens e privilégios, aposentadorias privilegiadas e planos de saúde pagos pela população de servidores públicos e ex-servidores, parece que foi dividido em Três. Uma parte pertence ao Poder executivo, outra pertence ao Poder Legislativo, e outra, ao Poder Judiciário.. Ao Cidadão, só resta a conta a pagar.

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