Combater o racismo é luta civilizacional - Revista Oeste

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Combater o racismo é luta civilizacional
Os que agem movidos por ressentimento e desejo de vingança corrompem a luta legítima
5 jun 2020, 11:02

O racismo é abjeto, infame. Numa perspectiva social, é pensamento e ato intoleráveis numa sociedade civilizada. No âmbito político, trata-se de um tipo de coletivismo que projeta numa pessoa de pele preta um conjunto de vicissitudes. É triste que ainda haja quem assim pense, quem assim aja.

Não acredito que alguém nasça racista. É, desgraçadamente, questão de aprendizado, de treinamento social, que muitas vezes começa em casa. São comentários explícitos ou velados no seio familiar e nos meios sociais que moldam uma perspectiva restrita a respeito da identidade de uma parcela numerosa da sociedade tão somente em função da cor da pele.

Se, no passado, a ciência foi usada para legitimar teses racistas, que vinculavam determinados comportamentos e tendências à cor da pele, a características físicas (antropologia criminal de Cesare Lombroso), ao pertencimento a um povo (judeu), à origem geográfica (o sertanejo segundo Euclides da Cunha), algo dessas falsas teorias ficou no imaginário popular e foi sendo passado de geração em geração. Alguns se perderam na história, outros permaneceram para nos envergonhar.

Quando menciono o problema da perspectiva restrita a respeito de uma identidade coletiva em função da cor da pele, tenho em mente o seguinte: se alguém é treinado para ser racista, os exemplos que terá em mente serão os piores possíveis.

É perturbador quando a luta legítima e necessária contra o racismo é usurpada por ideólogos de esquerda

Todas as vezes que ressurge a discussão sobre o racismo contra pessoas de pele preta só me vêm à mente todos os que admiro. E daí me pergunto: como alguém pode ser racista, como pode alimentar um racismo abstrato e coletivista, diante de alguém que não conhece ou perante nomes célebres como Machado de Assis, Antônio Pereira Rebouças e seus filhos André e Antônio, Luís Gama, Lima Barreto, Castro Alves, Pixinguinha, Errol Garner, Miles Davis, Cassius Clay, Ruth de Souza, Sammy Davis Jr., Bill Cosby, Billie Holiday, Diana Sands, Viola Davis, Michael Jordan?

Eles e tantos outros gênios são dignos de admiração por aquilo que eram, fizeram, deixaram como legado não pela cor da pele, elemento secundário e irrelevante. Se o sucesso que conquistaram puder ser usado para combater o racismo, melhor escolha não há: o exemplo é força poderosa de persuasão e incentivo para crianças, jovens, adultos.

Por isso é perturbador quando a luta legítima e necessária contra o racismo é usurpada por ideólogos e militantes de esquerda, por seus fantoches e inocentes úteis, em várias partes do mundo. E é ainda mais chocante quando essa mesma batalha civilizada é usada de maneira abjeta para cometer ou defender a violência.

Como justificar a destruição de patrimônio privado, de lojas, de propriedade de pessoas de pele preta ou de locais nos quais elas trabalham? Nesse período de pandemia, quando a economia está combalida, atacar o comércio é atacar o trabalho também dos indivíduos de pele preta que lá trabalham, como mostram os vários lamentos gravados em vídeos que têm circulado nas redes sociais.

E a forma como as manifestações explodiram mundo afora, com características e ações similares, incluindo a aparente contraposição entre manifestação pacífica versus manifestação violenta (uma versão singular do good cop/bad cop), só induz à impressão de que existe uma articulação internacional que se aproveita de tantos que vão para as ruas achando que participam de atos espontâneos.

O objetivo supremo da esquerda era claro: converter o mundo acadêmico em instrumento de formação de militantes

O uso imoderado de palavras-chave como lugar de fala, genocídio negro, racismo estrutural, estruturas de poder, dívida histórica, exclusão não deixa dúvida quanto à natureza ideológica do discurso de parte dos manifestantes e da opinião de especialistas. Há nisso uma influência marxista aplicada à cor da pele (em vez da luta de classes, a luta de raças) que prevalece sobre o tema fundamental: o racismo, que existe, que tem de ser combatido, mas que jamais será minimizado e superado por uma ideologia de conflito, de revolução permanente, de ressentimento, de destruição. O embate como estratégia impede a aliança e a ajuda mútua para neutralizar o mal. E foi precisamente esse pensamento revolucionário que orientou (e orienta) o discurso, a ação e a violência de grupos que convertem uma luta positiva em negativa.

A partir da década de 1960, um movimento que começou nas ruas percebeu que o mundo acadêmico era uma oportunidade de ouro para fazer a cabeça dos jovens, conquistar respeitabilidade teórica e formar um exército intelectual. Deu certo.

Desde então, as universidades norte-americanas começaram a sofrer um ataque ideológico vil, mas seus representantes acovardaram-se, deixaram-se acuar e permitiram que as instituições fossem profundamente modificadas — e não para melhor —, pois não se tratava apenas de agregar novas disciplinas, mas de extinguir todas aquelas vistas como eurocêntricas e representantes de “uma visão branca”.

O objetivo supremo da militância de esquerda, que também já se aliava a alguns movimentos negros, era claro: converter o mundo acadêmico em instrumento de formação de militantes políticos, em centros de afrocentrismo e de engenharia social, como mostram, por exemplo, Allan Bloom em seu The Closing of the American Mind, Roger Kimball em Radicais nas Universidades e Jonah Goldberg em Fascismo de Esquerda.

Paulo Freire defendeu a doutrinação ideológica nas escolas, a politização do ensino e o fim do capitalismo

Mesmo as principais universidades dos Estados Unidos foram aparelhadas e nada indica, hoje, que o processo possa ser revertido. Na terça passada, por exemplo, a Harvard Political Review aproveitou as manifestações no país para enviar aos assinantes de sua newsletter um artigo publicado no site no fim de maio (“Remaking Ethnic Studies”) em que celebrava seu departamento de estudos étnicos e lamentava não haver em maior número. O texto, escrito por Swathi Kella, estudante da Universidade Harvard, confirma o problema profundo descrito por Bloom, Kimball e Goldberg.

No início do artigo, Swathi diz que a disciplina de estudos étnicos nasceu a partir da “crescente consciência racial que definiu a década de 1960”. Logo em seguida, ela cita o pedagogo socialista Paulo Freire como autor de “um trabalho inovador chamado Pedagogia do Oprimido”, no qual ele responsabilizava “as instituições educacionais tradicionais de doutrinar os alunos nas salas de aula com base em hierarquias de poder”. Logo Freire, que, em livros como Pedagogia da Autonomia, defendeu a doutrinação ideológica nas escolas, a politização do ensino, o fim do capitalismo, enfim, parte da cartilha defendida em disciplinas como a de estudos étnicos e por professores e estudantes como a autora do texto.

O que vem acontecendo há décadas nas instituições de ensino superior do Ocidente é o contrário da ideia e missão da universidade defendidas por intelectuais do calibre do Cardeal Newmann, Otto Maria Carpeaux, Michael Oakeshott, Kenneth Minogue. E não é só na alteração dos currículos. Pesquise no YouTube e você encontrará vídeos em várias partes do mundo de alunos invadindo salas e eventos dentro de universidades para impedir aulas e palestras, para intimidar e travar o debate.

As manifestações pela morte de George Floyd não podem ser reduzidas aos atos de violência, mas devem ser tratadas de acordo com a natureza ideológica evidente dentro da qual a violência é instrumental, não acidental. É em nome dessa ideologia que muitos agem, outros seguem e tantos justificam com frases do tipo “discordo da violência, mas…”. Os que agem movidos por ressentimento e desejo de vingança, os que veem na destruição e no roubo uma catarse momentânea para suas frustrações corrompem a luta legítima dos que denunciam o racismo e destroem as pontes com todos aqueles que devem ser aliados.

Trata-se de uma escolha ética: uma passeata pacífica chama atenção para o combate ao racismo e angaria apoio para medidas concretas e corretas; manifestação violenta provoca reação social e conduz à perda da legitimidade política. Além disso, políticas públicas que podem ter efeito positivo e ajudar na resolução do problema social que também afeta os pretos (mas não só, considerando que a maioria dos pobres é formada por pardos) são apenas parte de um conjunto de soluções, não o pagamento de uma vida histórica.

Se não existir um esforço comum para combater o racismo e a violência policial contra pessoas de pele preta e se, por outro lado, forem mantidas a retórica do confronto e as agressões, haverá muitos dispostos a reagir simetricamente.

Jamais percamos de vista a verdade fundamental: o combate ao racismo não é — nem deve ser — uma luta ideológica: é — e deve ser — uma luta civilizacional.

Leia também nesta edição “A voz e a fúria das ruas”, da colunista Selma Santa Cruz

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Bruno Garschagen é cientista político, mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).

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13 Comentários

  1. Excelente, excelente, excelente artigo!

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    • Excelente artigo, ao contrário do d Selma Santa Cruz

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      • Preciso ler esse artigo da Selma.

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        • Deveriam publicar a ficha criminal do George Floyd, seria impactante.

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  2. Mais uma vez um artigo impecável!!!

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  3. Foi ao ponto!

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  4. Excelente como sempre Bruno.

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  5. Pelas afirmações que tem feito e a imprensa vem divulgando com destaque, parece-me que o presidente da Fundação Palmares vai no caminho inverso ao proposto por Bruno Garschagen neste brilhante artigo. Nota mil para Garchargen e nota zero para Sérgio Camargo.

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  6. Esse ótimo artigo deveria ser reproduzido e distribuído para que mais pessoas possam entender a ligação entre o Gramcismo e sua estratégia de infiltração em universidades do mundo inteiro, cada uma patrulhando os trabalhos a ser publicado e criando uma atmosfera de “inequality” / desigualdade e de direitos adquiridos e não de deveres. A cartilha continua a ser aplicada a cada oportunidade, menos nas ditaduras aonde o ensino é menos sutil.
    Parabéns Bruno, sucinto e direto.

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  7. Excelente artigo.

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  8. Vejo muita nobreza em seu artigo. Abs..

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  9. Seu artigo é muito bom. Sempre bom o que leio de vc.
    Mas racismo só tenho ouvido falar de um tempo para cá.

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  10. Gostaria de saber, e não se trata de retórica, por que Édson Arantes do Nascimento não foi citado.

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Revista Oeste — Edição 27 — 25/09/2020

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