CoronaVac: as perguntas ainda sem resposta sobre a vacina chinesa - Revista Oeste

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Em Em 23 out 2020, 17:00

CoronaVac: as perguntas ainda sem resposta sobre a vacina chinesa

23 out 2020, 17:00

Oeste conversou com o médico toxicologista e pediatra Anthony Wong para esclarecer algumas questões sobre o imunizante

Vacinação

Como esperar uma vacina perfeita para a covid-19 em menos de um ano?
Foto: Emin Baycan/Unsplash

Na corrida por uma vacina capaz de imunizar a população contra a covid-19, o governador de São Paulo, João Doria, apostou suas fichas na CoronaVac, vacina produzida em parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac Biotech. O relacionamento de Doria com o gigante farmacêutico Sinovac teve início em agosto de 2019, depois de uma viagem até a China e da abertura de um escritório comercial de São Paulo em Xangai.

Em julho de 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou a realização de testes da CoronaVac em diferentes locais do Brasil. A vacina está na última etapa, o chamado ensaio clínico de Fase III, e envolve 9 mil voluntários distribuídos entre os Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, além do Distrito Federal.

Nesta semana, depois de informar que compraria 46 milhões de doses da vacina chinesa ao custo de R$ 1,9 bilhão, o Ministério da Saúde recuou e negou a intenção de adquirir o imunizante chinês. Doria, no entanto, insiste que o presidente Jair Bolsonaro deve apoiar a CoronaVac.

Apesar dos sinais de otimismo, o desenvolvimento de vacinas apresenta muitos desafios para torná-las seguras e eficazes. Em média, um imunizante leva de 10 a 15 anos para ficar pronto. Como esperar uma vacina perfeita para a covid-19 em menos de um ano? Além da questão científica, o país enfrenta o debate sobre a obrigatoriedade da vacinação em massa. Mas avançar nessa seara, que esbarra na liberdade individual, implica garantir à população segurança acerca do imunizante a ser oferecido no mercado.

Neste momento, a prioridade deve ser a garantia de que os procedimentos clínicos sejam observados com rigor científico. Entretanto, o que se observa é uma disputa insana para ver qual nação assume primeiro a paternidade de uma vacina capaz de erradicar a maior pandemia do século.

De acordo com João Doria, a vacina contra o coronavírus em desenvolvimento pelo Instituto Butantan é a mais segura em fase final de testes no Brasil. “Os primeiros resultados dos estudos clínicos realizados no Brasil comprovam que, entre todas as vacinas testadas no país, a CoronaVac é a mais segura, a que apresenta os melhores e mais promissores índices no Brasil. É, de fato, a vacina mais avançada neste momento”, declarou o governador.

Leia mais sobre o assunto na coluna de Guilherme Fiuza —  “Vacinação sem vacina”  — publicada na edição 31 da Revista Oeste

Diante da afirmação de que a vacina chinesa é “a mais segura” e da pressa de alguns governantes em imunizar compulsoriamente a população, Oeste conversou com o médico toxicologista e pediatra Anthony Wong para esclarecer algumas questões sobre a CoronaVac. Wong afirma não ser contra vacinas nem tem preferência por um imunizante de determinada nacionalidade. Mas põe em xeque alguns critérios de análise científica na elaboração de vacinas em estudo em todo o mundo. A seguir, os principais pontos levantados pelo especialista:

Atropelo de etapas no desenvolvimento da vacina

• Antes de serem disponibilizadas em larga escala, todas as vacinas passam por um rigoroso processo de testes. Na fase de pesquisa pré-clínica, o imunizante é estudado em culturas de células e animais. Após essa etapa, entra a fase clínica, para testes em seres humanos, que é dividida em I, II e III.

Não é exclusividade da CoronaVac. Todas as vacinas que já estão no ensaio clínico de Fase III encurtaram etapas. Segundo Wong, só a fase pré-clínica dura, no mínimo, seis meses mas pode chegar a até um ano. “Todas as vacinas correram pela fase pré-clínica.”  A Fase I, para atestar a segurança em seres humanos, dura de três a seis meses. A Fase II, quando os pesquisadores reforçam critérios de segurança e avaliam a resposta imune do organismo e o acerto de dose [para saber a quantidade de miligramas e o número de doses necessárias], leva entre seis meses e um ano.

Se a CoronaVac e outras já estão na Fase III, é só fazer as contas para constatar que é impossível que qualquer laboratório do planeta tenha obedecido às etapas necessárias para oferecer um produto seguro e eficaz para a população em tão pouco tempo.  

Dosagem

• A vacina chinesa usa o método do vírus inativo, também chamado de vírus morto, para induzir a produção de anticorpos e provocar uma resposta imune no organismo. Segundo Wong, um imunizante que utiliza essa metodologia precisa de três a quatro doses para fazer efeito. A cada aplicação, o indivíduo aumenta sua imunidade ao vírus, até chegar a 100%. Para prevenir a poliomielite, por exemplo, são necessárias três doses da vacina e mais um reforço.

Conforme anunciado, só estão previstas duas doses da CoronaVac. Para Wong, isso tem relação com o encurtamento das etapas de estudo da vacina chinesa. “Eles não completaram a Fase II. Então, não sabem se ela precisa ou não da terceira dose. E garanto que precisa. Não há uma única vacina de vírus inativo que não exija três doses. A única explicação para oferecer apenas duas doses é a pressa”, diz Wong.

O médico toxicologista e pediatra Anthony Wong | Foto: Divulgação/Redes sociais

Efeitos adversos

• O grau de efeitos adversos na testagem da CoronaVac na China está em torno de 5,37%, diz Wong. “Em comparação com a vacina de tétano ou mesmo de poliomielite ou sarampo, a incidência de efeito adverso é de 0,05% a 0,5%. Portanto, 100 vezes menor do que a chinesa.”

Política de testagem

• Segundo Wong, a vacina que usa vírus inativo é menos eficiente em produzir anticorpos no organismo do que a que utiliza vírus vivo. Até o momento, a vacina chinesa foi testada em 9 mil voluntários, mas cerca de um terço ainda não recebeu a segunda dose.

O especialista explica que existe uma janela temporal entre a primeira e a segunda dose que precisa ser obedecida, sob risco de perda da eficácia do imunizante. Por exemplo, se uma pessoa tomou uma dose em julho mas não voltou para receber a segunda, é possível que os anticorpos produzidos na primeira aplicação não permaneçam no organismo. “Se não se respeitar o prazo, é preciso começar a vacinação do zero porque não há segurança de que a vacina aumentou e persistiu o nível de anticorpos no organismo”, diz Wong. De novo, o pé no acelerador na Fase II, momento adequado para realizar acerto de dose e ajustar o prazo entre uma aplicação e outra, não foi respeitado.  

Duração da imunidade

• Quanto tempo duram os anticorpos dessa vacina no organismo ? Ainda não há resposta a essa pergunta. Ou seja, não se sabe por quanto tempo um indivíduo que tome a vacina chinesa ficará imune ao vírus. Muito provavelmente, será necessário revacinar a população em intervalos periódicos.

Pessoas que já contraíram a covid-19

• De acordo com Wong, quem já pegou a covid-19 e desenvolveu anticorpos não deve tomar a vacina “para não correr o risco de produzir anticorpos em demasia que possam atacar o próprio corpo”. Em 80% dos casos de infecção por coronavírus, os pacientes são assintomáticos. Ou seja, muita gente pode ter contraído a doença sem saber. “Seria preciso fazer um teste de sorologia para confirmar se a pessoa não tem anticorpos antes de tomar a vacina”, diz Wong.

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1 Comentário

  1. Isso deixa o Doria como um cafajeste irresponsavel. Onde tá a tal ciência q tanto prega.

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