Coronavírus como ideologia - Revista Oeste

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Coronavírus como ideologia
Não é apenas um vírus. É um molde. As pessoas colocam nele suas próprias suposições, suas ideias, suas percepções sobre a história, suas expectativas de como o mundo deveria ser
10 abr 2020, 08:08

Como você, tento sair uma vez por dia para manter a mente sã, seja para uma caminhada ou, melhor ainda, vivenciar um pouco da vida comercial lá fora, por mais atrapalhada que seja. Negócios fazendo negócios, riqueza sendo gerada apesar de todas as barreiras, não é nada além de inspirador.

Nossas cidades parecem ter sido varridas pelo vento, mas nossos soberanos consideraram algumas atividades essenciais. Então, pelo menos, temos isso. No fim de semana, a loja de bebidas funcionava a pleno vapor, bem como a loja de material de escritório. Sorrisos em todo lugar, especialmente por parte dos funcionários, que nunca estiveram tão felizes por ter emprego e receber salário.

Mas, mesmo assim, nunca se sabe quando você vai deparar com uma pessoa para quem esse vírus não é uma doença a ser superada, mas uma filosofia a ser seguida. E lá estava ela, uma garota na casa dos 20 anos, montando guarda em uma destilaria que tinha sido considerada essencial porque começou a produzir álcool em gel.

(Deixe-me fazer uma pausa aqui e dizer que, de repente, estou escrevendo a trama para um romance distópico. Ainda não acredito que isso de fato aconteceu conosco.)

Essa jovem — eu já a conhecia porque costumo trazer gente aqui —, que costuma usar seu traje hipster, com um brinco em algum lugar do rosto, especializou-se em enaltecer o sabor turfoso do uísque local. Dessa vez, no entanto, ela estava coberta dos pés à cabeça, como uma mulher talibã, com um macacão de algodão de modelagem solta no corpo, luvas e máscara. Um avental cirúrgico, como se fosse realizar uma operação. E, quando se deu conta de que eu não estava lá como um paciente doente em busca de higienizador para as mãos, ela me pegou de jeito.

“É muita irresponsabilidade você sair para passear e socializar em meio a essa epidemia”, ela gritou.

“Você está ocupando espaço. Pode estar infectando as pessoas.” Quando falou em infectar, não acho que estivesse se referindo ao coronavírus; era a meu comportamento de normalidade que ela se opunha.

Lidei bem, sorri levemente e respondi: “Espere um pouco. Você está falando sério”. “Muito sério”, ela devolveu. Foi quando me dei conta. Não é apenas um vírus. É um molde. As pessoas colocam nele suas próprias suposições, suas ideias, suas percepções profundas sobre o caminho da história. Despejam nesse molde todas as suas queixas contra o mundo, todo o suposto desprezo e toda a esperança sobre como o mundo deveria ser organizado. Seus paraísos e seus infernos estão refletidos nos acontecimentos a sua volta.

Para elas, não se trata de uma questão de saúde, é uma oportunidade de afirmar sua visão de mundo e impor essa visão sobre os demais.

Estou apenas supondo, porque não conheço a história dessa pessoa, mas ela provavelmente estudou em uma faculdade do nordeste dos Estados Unidos, um desses cursos que não servem para muita coisa, e fez muitas disciplinas que pregavam a combinação incomum de postulados que a classe acadêmica dominante ama e que vê o mundo como fundamentalmente arruinado pela apropriação, microagressão, negação identitária e pelo racismo/machismo/imperialismo estrutural. O mundo está profundamente destroçado, diz essa ideologia. “Algumas pessoas fizeram isso. Sinta muita, muita raiva delas.”

Isso é tudo o que ela conhece. Em geral, ela esquece toda essa falação e trabalha feliz nesse emprego. Mas não mais. A crise é sua chance de fazer um bom uso de sua formação e enfiar goela abaixo nas pessoas que a única maneira de consertar o mundo é ser um ativista pela justiça, o que quer que isso signifique. “Coronajustiça.”

Essa predileção por canalizar determinada ideologia ficou óbvia desde o começo da pandemia.

Já em fevereiro, as pessoas estavam em seus corners: “É tudo mentira” versus “Vamos todos morrer”. O campo das mentiras estava ocupado pelas pessoas que não acreditam em nada nunca. O campo da morte estava apenas exercendo sua visão apocalíptica da esquerda ou da direita.

Houve algumas surpresas ali, especialistas sem nenhum conhecimento prévio de nada médico, quanto mais epidemiológico, que estavam convencidos de que essa doença era a nova peste negra. Eles mal podiam esperar para explicar isso para o resto de nós. Enquanto isso, na imprensa religiosa milenar, ouvimos que essa é a prova do apocalipse, da vingança de Deus contra um mundo pecador, o cumprimento da profecia.

Há os que adequam tudo em que acreditam em oposição a Donald Trump, que é o Grande Satã. Tem sido um tempo desafiador para eles, porque Trump tem oscilado de um lado para outro. Ele começou como um minimizador que não se dava nem ao trabalho de seguir o noticiário sobre esse assunto, quanto mais analisar as falhas absurdas de testagem que eram culpa de suas próprias agências regulatórias. Então, possivelmente enxergando uma chance de exercer os poderes de um imperador, foi para o extremo oposto. Agora, o presidente se tornou essa mistura muito estranha de opiniões, mas com um tema predominante: ele é o herói.

Essa reviravolta trouxe problemas para a mídia anti-Trump. De início, havia um esforço conjunto de revidar suas minimizações e criar uma febre.

Então, a acusação contra ele se tornou não estar exercendo seu poder ditatorial o suficiente — isso vindo das pessoas que tinham alertado que Trump era um autoritário em potencial, a quem não poderia ser confiado poder. Foi confuso, para dizer o mínimo. Enquanto escrevo este texto, ele está mais uma vez oscilando entre “fechar tudo” e “abrir tudo”, enquanto Andrew Cuomo, um novo herói entre os ativistas democratas, está escancarando seu desejo de colocar todo o Estado de Nova York em confinamento.

Ainda assim, houve um tema no aparente caos de Trump, e ele ficou evidente desde seu primeiro pronunciamento para a nação sobre o assunto. Ele decidiu colocar o vírus no contexto de seu próprio nacionalismo, que acredita ser sua grande contribuição para a história mundial. O vírus veio da China. China, ficava repetindo. E chegou a chamá-lo de vírus da China. Além disso, ordenou o bloqueio de todas as viagens vindas da Europa para os Estados Unidos. Trump conseguiu o que queria e, assim, causou um desastre em aeroportos no país todo, montes de pessoas amontoadas por oito ou doze horas esperando, enquanto a Casa Branca dizia a todos para fazer distanciamento social. Mesmo agora, há dezenas de milhares de pessoas com vida e emprego nos Estados Unidos que estão presas no exterior, trancafiadas do lado de dentro e de fora.

Para Trump e seus apoiadores, essa não é uma doença a ser curada, é a prova de que o globalismo está errado e a confirmação de que os Estados Unidos precisam lacrar suas fronteiras para todas as pessoas e todos os produtos. E, assim como algumas ideologias explodiram, outras faliram. Estou pensando especificamente no tipo de ambientalismo que favorecia a reutilização de tudo, se abstinha de usar pias e vasos sanitários e expressava seu ódio pela cultura de consumo. Os sacos plásticos voltaram a todos os caixas de supermercado, a seção de papel higiênico está vazia e hambúrgueres que não são feitos de carne seguem intocados na prateleira.

Sim, a carne está de volta. Assim como a limpeza. Pelo jeito, a ideologia ambientalista defensora da sujeira era um luxo consumível apenas em tempos de paz e prosperidade.

Nestes tempos, tem sido extremamente difícil pensar com clareza, como profissionais de saúde fariam. Para eles, esse é um vírus, e as pessoas que o contraem precisam ser identificadas, isoladas e tratadas. Talvez isso não pareça complicado, mas às vezes o mais difícil é pensar com simplicidade. É quase impossível quando uma tempestade perfeita de febre da mídia, ambição política e ignorância pública se forma para abrir um barril cheio de ideologia tóxica que envenenou a habilidade das pessoas de raciocinar.

Mesmo agora, muita gente não está lendo o noticiário nem olhando para os dados. Elas estão confirmando suas predisposições. Nossa cultura política se esgotou por completo — um tsunâmi de sangue — e tornou-se uma das tarefas mais essenciais da civilização: cuidar dos doentes, curá-los e arruinar a racionalidade, a ciência e a medicina; tudo isso à custa de 1 bilhão de vidas.

Sim, esse é o preço trágico de uma cultura obcecada pela ideologia. Em vez de derrotar o vírus, estamos usando sua presença entre nós para derrotar uns aos outros.

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Jeffrey Tucker é diretor editorial do American Institute for Economic Research. Liberal atuante, escreveu milhares de artigos para veículos de imprensa e é autor de oito livros traduzidos para cinco línguas, sendo The Market Loves You o mais recente. Ele também é editor de The Best of Mises. Tucker trata de temas como economia, tecnologia, filosofia social e cultura.

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8 Comentários

  1. Bom artigo. É bem por ai, a torcida organizada pelo corona tem ganhado vários adeptos dia após dia – é uma politização a favor do vírus e contra.

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  2. Confesso que gostei mais da foto que emoldura a testa do artigo.Viaja muito na irrealidade do cotidiano.

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  3. Adorei. “…esse é o preço trágico de uma cultura obcecada pela ideologia. Em vez de derrotar o vírus, estamos usando sua presença entre nós para derrotar uns aos outros”. Ou seja, os idiotas dominaram o mundo.

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  4. Excelente artigo! Já está na hora dos hipocr6 serem desmascarados.

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    • hipócritas

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    • Só para ser mais claro: qdo escrevi hipocr6, quis dizer hipócrita.

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    • Essa coisa ainda vai render muito. E me faz lembrar uma frase de origem espanhola que diz mais ou menos assim: “Somos todos heróis. Marchamos por causas distantes, enquanto esmagamos as mais belas flores pelo caminho”.

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  5. Excelente! E curiosamente nos traz um certo alívio de perceber que toda essa pasmaceira que estamos presenciando no Brasil não é uma exclusividade nossa. Da politização do combate à pandemia e até da solução medicamentosa, até a mídia mainstream enlouquecida, que gera mais pânico do que informa. Enfim, nos sentimos em um campo de batalha, só que em lugar de lutar contra um inimigo comum, estamos na base do salve-se quem puder. Parece mesmo fim dos tempos!

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