Covardes, medrosos e mimados - Revista Oeste

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Covardes, medrosos e mimados
É imperativo que haja uma contracorrente conduzida por famílias que exerçam a proteção necessária dos filhos sem enfraquecê-los
26 jun 2020, 08:45

Quando o escritor francês Michel Houellebecq afirmou que seu livro Submissão não era uma previsão a respeito da dominação muçulmana na França, mas uma descrição do temor das pessoas diante dessa possibilidade, expôs um dos grandes males atuais: a incapacidade para enfrentar incertezas e inseguranças. Em períodos como este de pandemia, é algo que tende a se agravar.

Com a prosperidade econômica, conforto, mais tempo livre, desenvolvimento científico, médico e farmacológico, muitos que nasceram após a 2ª Guerra alimentaram a ilusão segundo a qual as incertezas poderiam ser neutralizadas (inclusive com drogas) e que a única e melhor maneira de garantir a própria segurança e a de seus familiares era evitar tudo aquilo que pudesse deixá-los em risco.

Se antes os pais protegiam os filhos sem blindá-los da realidade, mostrando-lhes quais eram os riscos de viver em sociedade, ensinando-lhes como poderiam se proteger, o Ocidente viu emergir nas últimas décadas um processo de infantilização de jovens e adultos. Superproteger ou mimar os filhos era uma forma (equivocada) de não repetir a educação rígida que receberam ou de oferecer a eles aquilo que não tiveram.

A superproteção produz indivíduos completamente despreparados para a vida em sociedade

Antes o motivo (legítimo) para a superproteção era a violência urbana das grandes cidades; depois, foram as doenças, o bullying, a possibilidade de fracassar na vida. Segundo esse raciocínio torto, as crianças deveriam ser preservadas de sofrimento físico ou psicológico.

O efeito dessa blindagem paterna foi a incapacidade dos filhos para lidar ou reagir diante da dor. Vimos ainda nascer esse estranhíssimo fenômeno de pais que superprotegem os filhos mas terceirizam a educação deles para as escolas e universidades. E é nos colégios e nas instituições de ensino superior que parte desses jovens, psicologicamente desprotegidos, se entrega à ideologia, às drogas, ao álcool, e vive uma experiência de desumanização cuja mudança na aparência (vestuário, corte e cor de cabelo, tatuagem, piercings) é apenas a face exterior desse processo.

O resultado disso é a formação de pessoas completamente despreparadas para a vida em sociedade, o que também implica uma incapacidade para reconhecer e defender a cultura e a tradição que nos foram legadas. Se é verdade que é antiga a sensação — e constatação — de desencanto e desespero diante do problema da cultura no mundo contemporâneo, as mudanças negativas ocorridas são, de fato, o resultado da perda da integridade, do menosprezo pelos valores espirituais, do desrespeito pela moralidade individual e pública, como observou Mário Vieira de Mello em seu livro Cidadão — Ensaio de Política Filosófica (Topbooks, 1994).

Procuram fazer com que a sociedade seja um experimento permanente de “quebra de tabus”

Combater a autoridade da família, da religião, do ensino era — e continua sendo — o pretexto daqueles cuja estratégia de ação inclui “quebrar tabus”. E o fazem desrespeitando a si mesmos, os outros, as regras, com a finalidade de estabelecer uma nova ética e destruir o tecido social. Perante a pressão no ambiente familiar, houve quem optasse por aprender com os pais a não repetir seus erros, a lapidar  seus acertos; mas houve quem recorresse ao caminho mais fácil: fugir, romper, destruir.

Passado o período mais agudo de ruptura dos anos 1960, nas décadas seguintes aqueles jovens e adultos foram envelhecendo e ocupando, alguns deles, espaços de poder nas universidades, na política, no Judiciário, na promotoria, na imprensa. A partir dessas posições privilegiadas, de maneira mais ou menos radical, iniciaram a segunda fase da engenharia social: fazer com que a sociedade fosse um experimento permanente de “quebra de tabus”.

Não é sem razão a projeção de determinados assuntos no debate e de determinadas posturas na política (drogas, aborto, feminismo, prostituição, LGBTXYZfobia, transgêneros, vitimismo social, desarmamento et cetera).

O atual período exige respostas rápidas que não são de ordem exclusivamente políticas

Nesse processo revolucionário e de fragilização dos espíritos juvenis, determinados departamentos de universidades mundo afora tiveram papel relevante e cumprem uma tarefa perniciosa, como mostra, a partir do caso norte-americano, o livro The Coddling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas Are Setting Up a Generation for Failure (Penguin Press, 2018), de Jonathan Haidt e Greg Lukianoff. O caso brasileiro merecia um livro que fizesse similares diagnóstico e prognóstico.

Retomando o ponto de Houellebecq que citei no início do artigo, se por um lado temos gerações criadas para ter medo de que algo ruim lhes aconteça, por outro lado, temos pais que terceirizam a educação dos filhos e as criaturas dos anos 1960 que utilizam os estudantes como instrumentos de destruição cultural. Os ataques, principalmente, contra a família e a religião são parte desse processo, pois ambos são obstáculos à revolução, à engenharia social, ao Estado autoritário ou totalitário.

O atual período de isolamento social forçado, de medo diante do que estava por vir, de manifestação na política de espíritos autoritários, de exibição nas redes sociais de espíritos atormentados suscita questões e exige respostas rápidas que não são de ordem exclusivamente políticas.

Porque se é possível que o problema atual se aprofunde, com o agravamento do autoritarismo na política e da doença intelectual de professores e comentaristas profissionais e amadores, com pais agindo de forma ainda mais superprotetora, formando ou alimentando covardes e mimados, também é possível (e imperativo) que haja uma contracorrente conduzida por famílias que exerçam a proteção necessária dos filhos sem enfraquecê-los e com base numa educação que ensine a beleza contida nas inevitáveis incertezas da vida e a dose necessária e responsável de coragem para viver, lutar e morrer.

Sobre o tema, leia também o artigo de Frank Furedi nesta edição, “Nosso vício em segurança”

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Bruno Garschagen é cientista político, mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).

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18 Comentários

  1. Bruno, parabéns. A Revista Oeste esqueceu de colocar seu nome como autor no corpo do texto.
    Refletindo sobre o tema acho que a fraqueza dos jovens é por ignorar que existe de fato uma guerra cultural, cujos autores brigam ferrenhamente pela ocultação do fato dentro do espaço de debate.
    Essa ocultação ativa do real enfraquece, adoece, enlouquece.
    Enfim, só o planejado para quem não quer ter que se ocupar com o pensamento oponente.

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  2. Uma aula didática para entender o momento que passamos.Uma análise da ideologia do álcool,das drogas e do processo de desumanização.Donde vem os despreparados para a vida em sociedade e incapazes para defender a cultura e tradição que nos foram legados.Combater a autoridade da família,da religião e do ensino era e continua sendo o pretexto para estratégia de “QUEBRAR TABUS”,caminho fácil para fugir,romper,destruir.Pince alguma autoridade de nossas instituições e situe no texto e tire suas conclusões.Bruno é um orgulho da revista OESTE. Obrigado Jesus.

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  3. É isso. Assim as manadas não-pensantes se juntam e estridam seu vazio.

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    • Bruno,
      Queria acrescentar um ponto: mesmo que em casa o leme tente rumar o barco,quase impossível… a força da correnteza arrebenta a educação que se dá… não sei se vc tem filhos,mas em casa a única coisa na qual ainda acredito (infelizmente) é que o meu exemplo e o do meu marido,ao largo dos anos, sirva para algo…
      Eu me sinto impotente
      Abraço!

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  4. Que artigo. Que clareza que consistência que leveza que sensibilidade que trágico. Eu tenho estudado os sonhos na pandemia. E isso tem me convencido da potência do vírus em contagiar nossa intimidade. E como esse fenômeno é mais um modelo a reafirmar aspectos dramáticos do teu alerta. Abraço

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  5. Brilhante artigo. Costuma-se falar em marxismo cultural sem se leva em conta o caldo cultural que o torna possível. Bruno Garschagen foi direto ao ponto.

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  6. Muito bom, coerente e corajoso.

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  7. Caro Bruno; sim mimados covardes e medrosos.
    Só para que alguém me esclareça: trabalhei anos na Coreia do Sul e anos na China. Vi a receita da educação e desenvolvimento. Países ideologicamente opostos mas com a mesma receita vitoriosa.
    O estado , fortemente na educação com a infantil, média e superior sem mimos ou molezas. Ah, sem drogas também. Alojamentos imensos para os estudantes universitários, que comiam o arroz em marmitas e estudavam em livros usados. Estudavam nas calçadas por falta de luz nos alojamentos.
    Construíram a infraestrutura para as indústrias , terrenos com água, energia, gás, logística para os portos. Aí falaram para Japoneses, Ingleses, Alemães e Americanos:”olhem venham para cá que oferecemos gente capacitada e áreas para suas indústrias.” E logo um mercado.
    Uma democrática e outra comunista!
    Aqui os universitários uma vez lá só pensam em ficar nos Campus e fumar maconha. Nos pagamos!
    Quer dizer: ideologia importa?

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    • Importa sim, na medida q marxistas dentro dum país capitalista usam todas artimanhas pra destruir a cultura vigente, mesmo criminosas.

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  8. Excelente artigo, como de costume!

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  9. Radiografia perfeita desta geração. Egoístas, mimados, sem resiliência, intolerantes aos revezes e frustrações .Sem esquecer do analfabetismo funcional imposto pelo ensino medíocre.

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  10. Muito bom o artigo!

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  11. Excelente!
    Os textos dos comentaristas da Revista Oeste são puro aprendizado.

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  12. A geração Y e Z foram doutrinadas nas escolas e nas mídias digitais sob á egide do Marxismo Cultural. A autoridade dos pais, da religião, dos professores, da policia foram desmontadas, com a inoculação massiva de figuras de linguagem politicamente corretas como: diversidade, multiculturalismo, globalismo e todos esses jargões elaborados por engenheiros sociais que moldaram a mente dessas gerações. Agora vem o resultado trágico com os antifas, ancaps, black blocks e revoltados sociais que destroem por destruir. São os idiotas úteis do século XXI.

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  13. Sensacional. Parabéns. Conseguiu transformar em um texto claro e direto, minha sensação e leitura do que vejo ao meu redor.

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  14. Excelente!

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  15. Acho que os novos religiosos e professores não estão à altura da importância que a religião e a educação têm para a sociedade. A família precisa ser o elo mais forte.

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  16. Excelente artigo. Os pais super protetores envolvem seus filhos em capsulas de insegurança e medo , talvez para evitar que, ao expô-los ao mundo, tenham que participar mais de sua educação.

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