Covid-19 causa volta de 100 mil a uma Venezuela quebrada

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Em Em 7 set 2020, 05:30

Covid-19 causa volta de 100 mil a uma Venezuela quebrada

7 set 2020, 05:30

Em reação, o governo do ditador Nicolás Maduro tem restringido cada vez mais a entrada pelos corredores humanitários

refugiados

Refugiados em Pacaraima (RR) em agosto de 2018 | Foto: Nilton Fukuta/Estadão Conteúdo

Inflação acima de 4.000%, 96% da população na pobreza, salário mínimo abaixo de US$ 3 e uma crise sanitária que se agrava num país onde 58% dos hospitais não têm água e 63% reportam falta de energia elétrica constante. É para essa Venezuela que 100 mil venezuelanos decidiram voltar, deixando diferentes cidades colombianas em razão da pandemia.

No Terminal do Norte de Bogotá, dezenas de venezuelanos esperam todos os dias com a esperança de entrar num ônibus e ir até a região da fronteira, passar por um dos corredores humanitários e seguir para a Venezuela. A estação agora está equipada com banheiros, chuveiros e controles epidemiológicos. Só entra no local quem possuir o bilhete da viagem, que custa 180 mil pesos (R$ 265).

Leia mais: “Argentina e o fantasma da venezuelização”, na edição 23 da Revista Oeste

Os ônibus fornecidos pela Migração Colômbia saem para Cúcuta (a mais de 500 quilômetros da capital, Bogotá) ou para Arauca (a 700 quilômetros), mas não passam diariamente no terminal.

Segundo a entidade do governo colombiano, desde 14 de março, 100 mil venezuelanos retornaram e 40 mil aguardam para voltar ao país de origem. A fronteira entre Colômbia e Venezuela, que tem 2.200 quilômetros, está fechada desde a declaração da pandemia da covid-19 e o retorno dos venezuelanos depende de negociação entre autoridades migratórias dos dois países.

O governo do ditador Nicolás Maduro tem restringido cada vez mais a entrada pelos corredores humanitários: caiu de 500 pessoas por dia para 300 e até 100, no ponto que existe em Arauca.

Pressão

Para o professor Erik del Bufalo, da Universidade Simón Bolívar, em Caracas, o impacto do retorno desses venezuelanos será forte nas questões sanitária e econômica. O sistema de saúde venezuelano está sobrecarregado e, desde o início da crise do novo coronavírus, autoridades sanitárias alertam para um possível colapso.

Com a crise econômica e a perda de poder de compra, que piora desde 2014, a diáspora venezuelana chegou a 5 milhões de pessoas — a pior migração forçada da América Latina na história moderna. E muitos desses venezuelanos viviam em situação precária nos países vizinhos, trabalhavam na informalidade e tinham pouco acesso a programas de saúde, por exemplo.

Leia também: “Coreia do Norte pode estar preparando lançamento de míssil submarino” 

Com o isolamento social imposto para conter a propagação do vírus, os migrantes perderam a condição de sobrevivência e precisaram regressar à Venezuela, como mostra um relatório do Centro de Justiça e Paz (Cepal). Entre março e maio, quase 65 mil venezuelanos haviam deixado a Colômbia.

Mas esses venezuelanos voltam para enfrentar um cenário de incerteza: durante o mês de abril, 43% dos residentes na Venezuela informaram que não podiam mais trabalhar ou haviam perdido parte da renda. Em agosto, o número de lares que recebem ingressos vindos de parentes no exterior passou de 9% para 5%.

“Essas pessoas [que retornam] estavam desempregadas, trabalhavam na economia informal ou para o Estado. Por isso, não veremos um impacto em números muito altos, mas a pressão sobre os sistemas de saúde e social será grande”, explica Del Bufalo.

Outra área que sente as consequências da crise sanitária — e também será um desafio aos que regressam à Venezuela — é a educação: a cobertura educacional para os jovens entre 18 e 24 anos caiu pela metade, ou seja, 2,2 milhões de jovens não estão estudando no país.

Reportagem do Estadão Conteúdo

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2 Comentários

  1. O que dizer do PT, PSOL e PCdoB?
    Se precisam de apoio, que se unam essas facções à OAB do Felipe Santa Cruz, e levem tbm o Kakay, numa ajuda humanitária externa. Tanto apoiam esses regimes mas como fazem por aqui, são omissos com o POVO e desprovidos de cognição, apenas, como Maduro, querem PODER pelo PODER.

    Responder
  2. Alguma chance de embarcarmos Gleisi, Nelipe Feto, Kakay, Rosário, Marieta Severo, Chico Buarque e vários outros nos mesmos ônibus para a Venezuela? Comprometo-me a pagar suas passagens de ida sem qualquer problema.

    Responder

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