Da Paulista à Praça da Sé - Revista Oeste

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Da Paulista à Praça da Sé
O que temos a aprender com a batalha entre comunistas e integralistas em 1934
5 jun 2020, 11:02

Uma caminhada leve, de menos de uma hora, separa a região onde fica a sede da Fiesp, na Avenida Paulista, da Praça da Sé. Coisa de 3, 4 quilômetros. Parece fácil, mas se puder nunca cruze essa linha imaginária, politicamente explosiva e tóxica, entre a Paulista de hoje e o marco zero da maior cidade do Brasil.

É claro que não estou falando de uma visita real à praça da estonteante catedral inaugurada nos anos 1950 que é a sede da Arquidiocese de São Paulo, um passeio que você deve fazer sempre que puder. O que você deve evitar é a viagem imaginária para a Praça da Sé de 7 de outubro de 1934, uma espécie de vórtex mental que a política brasileira parece presa há quase noventa anos e não dá o menor sinal de sair.

A data de 7 de outubro daquele ano marcava o segundo aniversário da publicação do Manifesto que serve de marco fundador do movimento integralista no Brasil, grupo político liderado pelo escritor Plínio Salgado e assumidamente inspirado no fascismo italiano que chegou a ter mais de 1 milhão de simpatizantes no país e ser, durante o início da ditadura Vargas, uma das forças políticas mais influentes do governo; servia de contraponto tanto ao comunismo quanto ao liberalismo, ambos vistos pelo movimento como perversões materialistas, antipatrióticas e divisivas.

Fortemente armados, os “antifascistas” esperaram a chegada dos integralistas

Em 1934, ainda não havia ocorrido a Intentona Comunista de Prestes, que aconteceria no final do ano seguinte, ou o Levante Integralista, que se daria meses depois da decretação do Estado Novo, duas tentativas de golpe de Estado tão mal-ajambradas que fariam o Putsch da Cervejaria nazista de 1923 parecer um primor de ação revolucionária. Mesmo não dando em nada, as duas serviriam de pretexto para o endurecimento da ditadura varguista e as crueldades nunca superadas da polícia de Filinto Muller.

Mesmo com todas as tensões políticas que ocorriam no país desde a década anterior e vivendo num regime de exceção, tanto integralistas quanto comunistas se esbarravam nas praças e na cena política nacional. Tudo muda naquele fatídico 7 de outubro de 1934, quando os simpatizantes da Aliança Nacional Libertadora (ANL), ligada umbilicalmente à Internacional Comunista, prepararam uma tocaia para encurralar e impedir a comemoração dos membros da Ação Integralista do Brasil (AIB) na Praça da Sé.

Fortemente armados, alguns espalhados estrategicamente em prédios perto da praça, os “antifascistas” esperaram a chegada dos integralistas, sempre muito ruidosos e alvos fáceis por serem identificáveis pelas camisas verdes e pelo cumprimento “anauê”, que acompanhava um gesto evidentemente inspirado no sieg heil nazista. Os simpatizantes da AIB vinham de todo o Brasil para um evento comemorativo alegadamente pacífico, com gritos de palavras de ordem e comícios, mas os movimentos de esquerda da época decidiram que era uma oportunidade de partir para o confronto físico e impedir a festa. Com radicais dos dois lados, o que poderia dar errado?

Imagem do topo: Batalha da Praça da Sé / Imagem interna: Integralista ferido na Praça da Sé

Após a aglomeração dos integralistas na praça, começa o tiroteio com balas de todos os lados e o saldo da tocaia foi trágico: sete mortos e aproximadamente trinta feridos. Os integralistas fugiram do local após os disparos e foram chamados depois pelos comunistas de fujões, “galinhas-verdes”, e o episódio até hoje desperta certa nostalgia nos radicais dos dois lados que acham que diferenças políticas entre as visões mais intolerantes da extrema esquerda e dos ultranacionalistas deveriam ser resolvidas à bala.

Abominar ideias políticas de um grupo não dá salvo-conduto para a violência

No último domingo, torcidas organizadas foram convocadas para a Avenida Paulista numa autodeclarada luta “pela democracia” e “antifascista”, o que gerou um confronto com apoiadores do governo e quase terminou, como na Batalha da Praça da Sé, em tragédia. Podemos não ter a mesma sorte da próxima vez, e convém aprendermos um pouco com o que sobra desse tipo de enfrentamento. Abominar ideias políticas de um grupo não dá a ninguém um salvo-conduto para violência, depredação de patrimônio público ou privado ou desculpa para perturbação da ordem pública que cerceie o direito de ir e vir de famílias e cidadãos em locais públicos.

Não há nada de “democrático” no incentivo ou na realização de quebra-quebras, especialmente num país em pleno vigor da ordem democrática e com liberdades individuais garantidas em lei e exercidas na prática. O Brasil deu um exemplo de cidadania ao mundo em ocasiões como nas manifestações pelas Diretas Já (1984), pelo impeachment de Collor (1992) e de Dilma Rousseff (2015-16), assim como piscou o olho para o caos ao tentar mimetizar o movimento Occupy Wall Street em junho de 2013, terminando com a morte trágica do cinegrafista Santiago Andrade.

O que ocorreu na Paulista neste domingo foi um péssimo presságio e todos os democratas do país têm a obrigação de impedir que os radicais de todos os lados cruzem a Brigadeiro Luís Antônio e cheguem à Praça da Sé de 1934. O direito de manifestação é constitucional e ninguém discute, mas a reedição de conflitos baseados em ideologias europeias do século passado e que já renderam mortes e golpes de Estado no Brasil é tudo de que o país que enfrenta a maior crise econômica de sua história não precisa.

Leia também nesta edição “A esquerda não conseguiu juntar-se num manifesto só contra Bolsonaro”, do colunista Augusto Nunes

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Alexandre Borges é podcaster e analista político. Seu canal no YouTube Imprensa Livre teve mais de 2 milhões de views no segundo turno da eleição de 2018. É também analista político e colunista da revista Veja, do jornal Gazeta do Povo e autor contratado da Editora Record. Na dio Jovem Pan, foi apresentador do programa 3 em 1, líder de audiência no segmento.

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26 Comentários

  1. Esse comentarista está de brincadeira??? Coloca as manifestações pacíficas favoráveis ao governo no mesmo balaio de canalhas de esquerda que agridem oponentes e provocam baderna e destruição de propriedades privadas????
    Não houve confronto nenhum!! Houve agressão por parte de marginais!!

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    • Pior que não está de brincadeira, não. E não é só ele; parece que essa é a linha editorial desta revista. Viu a matéria de capa desta edição? Parece que a Oeste está batalhando pra ser a nova Carta Capital. Horror!!!

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      • Os Bolsominions com comportamento de nazistas e ninguém falava nada.
        Agora surge o contraditório e os Bolsominions dão chilique!

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        • Quem dá chilique é esquerdopata como você. Lacaio de bandido!

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        • Explique “comportamento de nazistas”. Dê exemplos. Obrigada.

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  2. estou cancelando a minha assinatura.

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    • Tem gente dando chilique por pouca coisa. Se não gostou de um artigo, faça sua crítica. Mas, partir para o cancelamento da assinatura, desconsiderando que o texto de um articulista não é necessariamente a opinião da revista, me parece um exagero. Se não gostou de nenhum dos textos publicados, tudo bem. Se divergiu de apenas um, e considerar que é motivo para o cancelamento, aí é melhor buscar outras paragens mesmo.

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  3. Realmente, fiquei confuso. No artigo ele tentou vincular os Integralistas (facistas) aos cidadãos que hoje vão às ruas de verde amarelo, pacificamente, pedir apenas que a constituição seja cumprida, foi isso?
    Obs: primeira edição que leio da revista e espero que não me arrependa da assinatura.

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    • Verde e amarelo pacíficos?
      E o taco de golfe?

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  4. Existem radicais dos dois lados e é isso que o comentarista aponta. TAlvez vocês devessem ler novamente o artigo para entendê-lo.

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    • Quando houve agressão e depredação do lado da direita??? Diga uma oportunidade pelo menos isentão!

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      • Eu achei que tivessem agredido um repórter do Estadão em Brasília. Mas deve ter sido impressão minha ?

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  5. ???????????

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  6. Entendi. Estamos numa época que se corre riscos até para falar. Nem que a gente tenha boas intenções e fale em Paz. Num pré-caos é que se fica sabendo o percentual de pessoas irracionais.

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  7. Que decepção Revista Oeste! Gostaria que esse idiota do Alexandre Borges mostrasse um único ato de violência dos manifestantes de direita? Quanto conseguir, poderá nivelá-los aos esquerdistas!

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  8. Achei o artigo muito adequado. Apenas compara um fato histórico com o momento atual, alertando para que não permitamos que ideias diferentes justifiquem a violência.

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    • Concordo com o Luiz Fernando Carvalho e a Rosi Diamo. O ódio está cegando até as pessoas de bem que lutam contra o mal. O artigo não está comparando os Integralistas de 1934 aos Bolsonaristas de 2020, está apenas alertando quanto ao que pode acontecer se UM dos lados partir pra ignorância (como já estamos vendo com esses antifas fake desde domingo 31/05)

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  9. Alexandre Borges falou besteira – comparar de forma rasa o Integralismo brasileiro ao Fascismo italiano é leviandade, se não for ignorância. Na verdade o Integralismo foi praticamente o PRIMEIRO movimento político brasileiro que rejeitava de forma enfática o racismo, aceitando em suas fileiras gente de todas as origens. Para não dizer que o grito “Anauê” originou de uma tentativa de se usar uma expressão linguística de origem exclusivamente brasileira. E não: o Integralismo não era estatista/totalitário como o fascismo italiano; ele estava MUITO mais próximo do conservadorismo que buscamos hoje, onde divisões artificiais internas são jogadas no lixo e a valorização de tudo o que é nacional é defendida. E para terminar: o próprio artigo acima confirma: QUEM começou os ataques? Os esquerdopatas, claro!

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  10. Artigo infeliz, comparando coisas não-comparáveis. O Alexandre já teve seus bons momentos, hoje tem dificuldade de fazer a leitura dos fatos sem uma visão a lá Vera Magalhães.

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  11. O erro é comparar o atual momento das forças em jogo:uma claramente majoritária e no poder outra minoritária alijada do poder e sem chances de voltar tão cedo;uma honesta e liberal-conservadora democrática e outra desmoralizada em crimes e corrupção,sem liderança,com participantes alugados de “torcidas” violentas ou comunista.A força conservadora tem uma liderança NOVA,que ALIJOU do jogo político em ELEIÇÕES LIVRES a velha e tradicional “DEMOCRACIA”de uma “minoria” que se perpetuava no poder por uma “elite”intelectual cultural e econômica, ricas que se sustentava do dinheiro público e “esquecia”o povo. Bolsonaro traz “a democracia direta” “focada” no povo através da mídia social.ELE ESTÁ CORRIGINDO UM DEFEITO DA DEMOCRACIA.Os eleitores do Bolsonaro querem uma democracia que esteja na mão deles,nos celulares deles,que conversem com seus representantes e vice-versa e não fazendo “jogadas” em que ele não existe.O eleitor de Bolsonaro é aquele em que o Estado o esqueceu,a “sociedade” o esqueceu,a IMPRENSA o esqueceu e ele fala numa linguagem em que todo mundo o entende.O autor é mais um que não se toca, cometeu um erro,histórico,filosófico e político.O eleitor de Bolsonaro acha que ele está salvando a democracia inclusive dessa gente que pensa assim.Por isso o “fenômeno” Bolsonaro traz o povo às ruas.E só ele!

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    • Quando você admira um escritor/analista político e faz um comentário no seu Twitter questionando sua opinião e ele te bloqueia, esse sujeito é o que? Comunista ou integralista? Antifa ou apoiador do governo Bolsonaro?
      Pelo que aconteceu entre mim e o Alexandre Borges e comparando a esse artigo entendo que ele está mais para comunista e antifa do que para integralista e apoiador do Bolsonaro. O que vocês acham?

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  12. Borges erra quando coloca todas as manifestações ocorridas no mesmo saco. Ele propositalmente esta juntando democracia com anarquia e quebra quebra. Ele só serve de contraponto, demonstrando como a esquerda não evolui.

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  13. Isentão nunca surpreende. Sempre decepciona. Querer comparar manifestações da direita (pacíficas) com as da esquerda (violentas) é o fim da picada.

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  14. Alexandre Borges poderia aprender com um pouco de humildade com o mestre Augusto Nunes como fazer um parâmetro histórico de fatos da história do Brasil, com a realidade atual. Como o artigo se reduz a contar o que aconteceu em 1934 em 90% do texto, e no final comparar as manifestações democráticas das famílias de Brasileiros com um bando de baderneiros, vândalos e elementos agitadores, ele faz com que os leitores perguntem aonde que ele quer chegar… Só faltou terminar com a célebre frase dos juristas: “Cuidado! As consequências virão depois!”
    Muito ruim.

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  15. Um bom resumo da história brasileira sobre o tema e, em seu último parágrafo, um preste atenção em boa hora aos vivos de hoje. Parabéns !

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  16. “(…) radicais de todos os lados (…)?
    Só havia radicais de um lado: os Antifas.
    Já pedi várias vezes: tirem o Alexandre Borges da revista. Se ele não sair, saio eu!

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