E-stônia, o país na nuvem - Revista Oeste

Revista

E-stônia, o país na nuvem
O que podemos aprender com a Estônia, o país que se livrou do comunismo para tornar-se uma república digital
18 set 2020, 08:51

Segundo dados de 2019 divulgados pelo Banco Mundial, a Nova Zelândia é o país com a maior facilidade para fazer negócios. Os Estados Unidos estão em sexto lugar nesse ranking. A Rússia em 28º, a China em 31º. E o Brasil? Em 124º.

Nossa voraz máquina estatal oferece a quem quer investir aqui mais dificuldades do que países como Ruanda, Mongólia, Botswana, Paquistão e Egito. Até os palestinos da Faixa de Gaza enfrentam menos burocracia que nós. Segundo a organização Endeavor, uma empresa demora em média 117 dias para ser aberta no Brasil. A média mundial é 79,5 dias. Na Estônia, você abre sua firma em três. Horas.

Sim, você. E eu. Qualquer pessoa no mundo pode abrir uma empresa na Estônia. Para facilitar isso, foi criado o conceito de e-residence. Algo como “residência eletrônica”. (Que não deve ser confundida com cidadania.)

É difícil ser um e-residente na Estônia? Siga os seguintes passos: 1) tire cópias de seu RG, uma foto tipo passaporte, e preencha um questionário on-line. 2) Pague uma taxa de 100 euros com o cartão de crédito. 3) Espere entre seis e oito semanas até receber um e-mail do governo estoniano dizendo se foi aprovado ou não; 4) Se foi aprovado, você é convidado a comparecer a uma representação diplomática do país para deixar impressões digitais e apanhar sua carteirinha de e-Resident. Parabéns. Agora você pode abrir sua empresa em plena União Europeia e expandir seu negócio, participando de uma rede de e-residentes que soma 70 mil pessoas de 170 países. E pode administrar essa empresa de onde você quiser.

(A grande dificuldade para eventuais candidatos brasileiros é que não existe nenhum posto de entrega do kit de e-Resident em toda a América Latina. O posto mais próximo por enquanto é o de Nova York.)

Um backup da república digital é mantido em servidores em Luxemburgo

Os estonianos viveram a maior parte de sua história dominados por estrangeiros — alemães, poloneses, suecos, dinamarqueses e russos. Em 1940, a Estônia foi anexada juntamente com seus vizinhos bálticos (Letônia e Lituânia) pela antiga União Soviética, numa negociata entre Josef Stalin e Adolf Hitler (que tomou a Polônia). Passou 51 anos sob o domínio de Moscou. Em 1991, a União Soviética deixou de existir e a Estônia voltou a ser independente. Adotou uma política clara e decidida de livre mercado e privatizações. Em 2004, passou a fazer parte da aliança militar Otan e da União Europeia.

Essa adesão às alianças ocidentais e ao mundo capitalista exigiu muita coragem — e coragem nunca faltou aos estonianos. O país tem 294 quilômetros de fronteira com a Rússia. Um quarto de sua população é composta de russos. Em 2007, essa nova Estônia viveu sua maior crise por causa de um devastador ataque de hackers que paralisou o país e o isolou do resto do mundo. O governo da Estônia acusou diretamente o Kremlin pelo ataque. O presidente russo Vladimir Putin negou qualquer envolvimento.

Felizmente o processo de digitalização do país ainda estava bem no começo. Em vez de se sentirem atemorizados pelo ataque de hackers, os estonianos decidiram jogar na ofensiva das novas tecnologias. E se transformaram rapidamente na primeira república digital do mundo. Daí o apelido: “E-stônia”.

O ataque só incentivou o fortalecimento de suas defesas. A Otan instalou no país um centro de excelência contra ataques cibernéticos. Todos os dados coletados passaram a ganhar um backup num servidor localizado em Luxemburgo. Se ocorrer outra invasão russa (que seria a sexta desde o século 11), essa rede reserva se transformará numa espécie de governo virtual no exílio.

Presença física, em apenas três ocasiões: no casamento, no divórcio e na compra de propriedade

A Estônia é um país pequeno, pouco menor que o Estado do Espírito Santo, com 1,3 milhão de habitantes. As Forças Armadas em tempo de paz somam apenas 6 mil soldados. Sua maior defesa está sendo envolver nos negócios locais gente do resto do mundo, mesmo que remotamente, por meio da e-residência. Criaram um país digitalizado como nenhum outro: 99,6% das transações bancárias são realizadas eletronicamente. As escolas estabelecem a tecnologia como prioridade desde o ensino básico.

No país, 98% da população possui uma identidade digital única. Ela é usada em praticamente toda a vida de um cidadão estoniano, do nascimento à morte. Serve para segurança, transporte, educação, emprego, residência, vida bancária, conta de celular, eleições e imposto de renda. Todos os dados de cada habitante são centralizados numa plataforma virtual chamada X-Road.

A Estônia tem um forte caso de amor com a tecnologia digital — lá foi inventado, por exemplo, o Skype. Mas não é uma nação high-tech. Sua capital preserva a arquitetura medieval. Um empresário local, do ramo de casas pré-fabricadas, definiu bem o modo de vida dos estonianos: “Somos um povo introvertido. Não queremos ninguém por perto”. Como metade do território é ocupada por florestas, essa nova geração de empresários se instala em pontos isolados perto das árvores, onde podem trabalhar ultraconectados, mas a distância.

Pela lei, os estonianos só precisam estar fisicamente presentes em três ocasiões: no casamento, no divórcio e na compra de propriedade. O resto é tudo feito por meio de computador e aplicativos de celular. Calcula-se que dessa forma o sistema economize nada menos que 844 anos de trabalho “analógico” e 2% do PIB a cada ano que passa. Com a digitalização, tudo se tornou extremamente ágil, racional e barato.

A identidade digital oferece mais de 4 mil serviços a cada usuário. Um bom exemplo de como funciona está no sistema de saúde do país. Cada cidadão da Estônia tem todos os dados referentes a sua condição física e mental registrados num aplicativo chamado e-Ambulance: consultas, médicos, remédios que toma, medições de pressão e peso, radiografias, exames, vacinas, doenças crônicas, alergias etc. Consultas presenciais são evitadas desde 2011. O fluxo contínuo de dados sobre a condição de uma pessoa permite o monitoramento remoto de sua saúde.

Esse sistema foi posto em teste na crise da covid-19. A princípio, o país sofreu com a pandemia como todo o mundo. A diferença foi a eficiência e a agilidade na resposta à crise. Segundo depoimento do professor Erkii Karo, da Universidade de Tecnologia de Tallinn, à revista Wired, “uma vez que a crise começou, em poucas semanas criou-se uma plataforma específica em que todos os profissionais de saúde e locais de teste adicionavam dados”. Essa plataforma gerava cinco atualizações da situação por dia, permitindo a tomada de decisões detalhadas sobre a pandemia — e não apenas a exigência do generalizado “fique em casa”.

Um “juiz-robô” resolve causas que envolvem valores abaixo de € 7 mil

À primeira vista, o X-Road pode parecer um exemplo de controle social no estilo Big Brother. Não é o caso. “Os estonianos levam a privacidade muito a sério”, escreveu a consultora para transformação digital Anett Numa. “Para construir confiança, a Estônia usa transparência, assinaturas digitais e mensagens pessoais criptografadas. Mas quem é o dono real dos dados recolhidos pelas instituições governamentais? São os próprios cidadãos.” Tornou-se exemplar o caso de um policial que se serviu do sistema para vasculhar o prontuário de sua futura esposa. Ele foi apanhado rapidamente e punido com multa. Provavelmente perdeu a noiva também.

Um dos comandantes desse vasto complexo digital é um rapaz de 29 anos chamado Ott Velsberg. “Nós queremos que o governo seja o mais esbelto possível”, declarou Velsberg. Para isso, estão usando os recursos da inteligência artificial. Subsídios para fazendeiros manterem suas áreas de preservação são definidos pela análise de imagens de satélite, e não por burocratas sujeitos a corrupção. Aplicativos encaminham os desempregados para possíveis novos postos de trabalho. Cada criança que nasce é automaticamente registrada numa escola local para não precisar disputar vaga mais tarde.

O projeto mais ambicioso do governo na área de inteligência artificial é capaz de provocar pesadelos no cabidão de empregos de luxo do sistema judiciário brasileiro. Segundo a revista Wired, o Ministério da Justiça da Estônia pediu a Ott Velsberg que criasse um “juiz-robô”, capaz de resolver pequenas causas que envolvam valores abaixo de € 7 mil.

A equipe de Velsberg começou com um projeto-piloto focado em disputas contratuais. As duas partes mandam ao “juiz-robô” suas informações e documentos, acusações e defesas. O programa analisa os dados e dá o veredicto. Se uma das partes não o aceitar, pode haver apelação — e o caso vai então para um juiz de carne e osso.

A solução para quase tudo está no celular, no tablet ou no computador. Todo cidadão da Estônia tem acesso a um portal chamado “eesti.ee”, que oferece resposta às questões mais básicas da vida de qualquer um — “Fiquei doente.” “Comecei uma família.” “Nasceu meu filho.” “Estou mudando de residência.” “Quero criar uma empresa.”

Kaspar Korjus, um dos diretores do programa de digitalização do país, revelou ao site TED os planos conceituais da república digital: “O objetivo é ter 10 milhões de e-residentes até 2025, quase oito vezes a população da Estônia”. O país quer criar uma “economia da confiança” para empresários de todo o mundo — “uma bem iluminada antítese à dark web, o inferno digital infestado de traficantes de armas e drogas, pedófilos e criminosos. Queremos ser a Suíça do mundo digital. A Estônia não só está sendo governada na nuvem. Está tentando ser um país na nuvem, uma comunidade do século 21 com pessoas distribuídas mais pela rede de serviços do que pela geografia”.

A Estônia quer esmagar os focos de burocracia e distribuir o poder aos cidadãos

O Brasil poderá um dia se tornar uma república digital? Bem, o Brasil não é a Estônia. Nossa população é 161 vezes maior; nossa realidade, muito mais complexa. Mas temos uma população que se adapta bem a novas tecnologias, mesmo em seus estratos mais pobres. E a necessidade empurra o país para a frente. Manchete do Estadão no domingo dia 13 de setembro: “Com pandemia, digitalização nas empresas [brasileiras] avança cinco anos em cinco meses”. Claro que o aparelho estatal, refém de setores privilegiados, é muito mais lento que o setor privado. Mas também vai ter de mudar. E já está mudando.

A questão levantada pela Estônia não é somente tecnológica. Existe uma filosofia de vida nesse salto dos estonianos para o futuro. Livres do comunismo, recriaram o país para que fosse capaz de resolver os problemas da população da maneira mais prática possível. Simples assim.

Nas palavras do arquiteto-chefe do Departamento do Sistema de Informação do país, Andres Kütt: “A Estônia quer esmagar os focos de burocracia e distribuir o poder aos cidadãos de maneira que o governo chegue a eles ao invés de eles terem de ir ao governo”. O bem-humorado presidente Lennart Meri transmitiu o cargo para o sucessor em 2001 com a seguinte frase: “A Estônia agora é um país normal e tedioso”.

Nos países mais bem-sucedidos, a população mal sabe o nome dos governantes. Neles, os cidadãos são os astros, não o governo. A sociedade é dinâmica. O governo é um tédio.

A propósito, a atual presidente da Estônia é uma mulher de 50 anos chamada Kersti Kaljulaid. Kersti é “de esquerda” ou “de direita”? Ela é digital.

Leia outros artigos sobre tecnologia e inovação assinados por Dagomir Marquezi:
“Cabo X streaming: você já cortou seu cordão?”

“A bolsa de valores e a nova revolução do capitalismo”

TAGS

*O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais à equipe da publicação, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

18 Comentários

  1. Dagomir, parabéns por seu artigo. Fiquei exultante ao le-lo. E este velhote de 80 anos se emocionou ao saber que o comandante desse vasto complexo digital é um rapaz de 29 anos.
    Viva a inteligência e a juventude!!
    É vivas também a Revista Oeste que no meio de uma mídia tão vagabunda como a do nosso país consegue brindar seus leitores com artigos desse naipe.

    Responder
    • Parabéns a tds da Oeste, realmente ao fazer minha assinatura ganhei a felicidade e o prazer de ler excelentes reportagens como essa da Estônia. VCS estão séculos a frente das demais revistas. Em relação a Estônia totalmente digital penso eu que em algum momento deixará as pessoas em tédio nas relações pessoais pois os Estonianos estão ficando robotizados pra Qq resposta ou dúvida como se fosse uma ciência exata o ser humano…. e não é,… perdendo assim a magia do cara a cara, do contato pessoal, etc… não sei tenho dúvidas se isso traria bons resultados pro Brasil se aqui fosse adotado o “ebrasil”….

      Responder
  2. Nossos ministrecos do stf não se interessam por processos inferiores a € 7 mil. Brincadeiras à parte, obrigado pelo texto, Dagomir.

    Responder
  3. Parabéns. Artigo com informação consistente: é isso que importa aos leitores. Show!

    Responder
  4. Essa reportagem mostra exatamente o que deve ser feito no Brasil. Facilidade para os empreendedores criarem e, também, manter as empresas funcionando. Imposto único, facilidade de pagamento e prestação de contas. Tudo fácil e eletrônico e, assim, este país decolará. Do contrario o chão será nosso destino.

    Responder
  5. Senhor Dagomir, onde o senhor aprende tanta coisa interessante para nos ensinar? Já deu pra ver que o Sua Excelência não é daqueles intelectuais de m**** que só sabem repetir Marx e confraria o tempo todo, muitos dos quais não sabem nem onde fica a Terra do Fogo. Desse jeito o senhor vai longe.

    Responder
  6. No ano 3000, o mundo será 100% digital. O Brasil também, exceto pelo abandono dos carimbos. Nada é válido ou verdadeiro sem aquela carimbada ritual do funcionário, que nesse rápido ato sente um prazer orgástico. Carimbo é poder!

    Responder
  7. Não são só os procedimentos cartoriais que atrasam o empreendedorismo. Regras não escritas tb. Ex.: proibição de entrar em órgãos públicos de bermuda. Outra: obrigatoriedade de preenchimento de formulário a máquina ( a quantas décadas vc não vê uma?). Mas o brasileiro é empreendedor: um sujeito alugava calças na porta de Detran-RJ, e outro datilografava pedidos de certidão na porta de um cartório federal à jato. Tudo por R$ 1,00.

    Responder
  8. Parece muito interessante, mas vejo ressalvas. Por exemplo, a criança já é direcionada para uma escola logo ao nascer? Tudo bem, mas desde que a escola possa ser escolhida pelos pais, e não imposta pelo Estado…

    Responder
    • Concordo!
      Há um cheirinho de estratégia gramscista no artigo, com mensagens subliminares para que aceitemos o controle estatal e para que negligenciemos a diferença entre a esquerda e a direita.
      Estamos de olho em Dagomir Marquezi…

      Responder
      • Desconfiado de tudo, hein! Pareceu-me bem claro no texto que na Estônia o que menos há é controle estatal. Preocupam-se, sim, com um Estado mínimo. Se a burocracia é reduzida, onde está o controle estatal? Acho melhor ler o artigo novamente.

        Responder
  9. Muito bacana o artigo e a coragem consciente da Estônia

    Responder
  10. Artigo informativo. Não sabia o que acontecia na fria e distante Estônia. Vou contrabandear o artigo no final da próxima semana (para não prejudicar a edição de final de semana) e copiar e colar no meu facebook. Os amigos e amigas devem entrar em contato com bons colunistas, embora não sejam assinantes da revista.
    Os meus trabalhos só foram mais divulgados quando surgiu a internet e as redes sociais.

    Responder
  11. Incrível! E inimaginável para nós, brasileiros. No Brasil a burocracia é uma praga. A dificuldade não é apenas criar uma empresa, mas mantê-la de pé também.

    Responder
  12. Ótimo texto, super interessante. O robô juiz tem 60 dias de férias?

    Responder
    • O Juiz Robô trabalha em tempo integral, não tem salários e penduricalhos como aqui, não está sujeito a embargo$ auriculare$, não decide em favor de bandidos de estimação, não tem uma infinidade de aspones, não consome lagostas e vinhos caros, não precisa de holofotes, não manda prender inimigos imaginários, não tem filhos e esposa aninhados em certos covis de advogados, não recebe paparicos em dinheiro vivo, não precisa se esconder dos cidadãos, não tem motoristas com carros blindados.

      Responder
  13. Se alguém tiver a brilhante ideia de um “juiz robô” aqui no Brasil corre o sério risco de ser taxado de louco e internado!!! A oposição a tal proposta começando pelo Poder Judiciário!!!

    Responder
  14. Dagomir e seus ótimos artigos.

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OESTE NOTÍCIAS

R$ 19,90 por mês