Há 66 dias, exportação de carne brasileira aguarda definição da China

Desde setembro, o país asiático suspendeu a compra do produto, afetando toda cadeia produtiva do Brasil
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Atualmente, 60% das exportações de carne bovina brasileira têm como destino a China
Atualmente, 60% das exportações de carne bovina brasileira têm como destino a China | Foto: divulgação

Os frigoríficos brasileiros seguem à espera de uma definição por parte da China de quando as exportações serão autorizadas novamente. Desde o dia 4 de setembro, o país asiático suspendeu a compra do produto brasileiro depois de dois registros atípicos de mal da “vaca louca” — doença cerebral em bovinos adultos que pode ser transmitida aos seres humanos por carne contaminada.

Nos exames laboratoriais realizados posteriormente à detecção dos casos, descobriu-se que a doença identificada não estava na forma transmissível.

De acordo com o sócio-diretor da MB Agro Consultoria, José Carlos Hausknecht, é difícil prever quando as exportações serão retomadas. “Teoricamente, já deveriam ter voltado”, disse.

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A situação chama atenção dos especialistas do setor. Em 2019, quando o Brasil registrou um caso atípico do mal da “vaca louca”, a China autorizou a retomada das exportações depois de 13 dias. Agora, já são 66 dias com as exportações suspensas.

“Ninguém no mercado está entendendo muito por que a China está demorando tanto para voltar a importar carne brasileira”, observou o sócio-diretor da MB Agro Consultoria.

Atualmente, 60% das exportações de carne bovina brasileira têm como destino a China. Do lado de lá, essas importações representam cerca de 38% do total adquirido no mercado internacional.

Em outubro, o Brasil embarcou 108 mil toneladas de carne bovina in natura, queda de 43%, comparado ao mesmo período de 2020. Esse foi o pior volume embarcado desde 2018.

Do total da carne exportada para a China, 80% vão direto para o continente, ficando sob o controle do governo chinês, que pode manipular e fiscalizar os estoques. O restante é exportado por Hong Kong.

Atualmente, há mais de 110 mil toneladas de carne pendentes de liberação das autoridades chinesas paradas nos portos para entrar no país. “Não se sabe o destino, se a China vai aceitar ou não. Então, estamos com mais essa incógnita”, disse o analista da Scot Consultoria Rafael Suzuki.

De acordo com a CEO da consultoria Agrifatto, Lygia Pimentel, novos contêineres que aguardavam em pátios do Porto de Xangai estão recebendo autorização para entrar pontualmente na China, mas foram embarcados antes da suspensão das vendas, em 4 de setembro.

“No Brasil, há cargas que estavam aguardando para ser embarcadas para a China, cerca de 50 mil toneladas, mas devem ser redirecionadas para o mercado doméstico”, disse a CEO a Oeste.

Entre as possíveis razões para a demora, pode estar o aumento do consumo de carne suína e de frango por parte da China — produtos cuja exportação brasileira para o país cresceu em torno de 30% no último mês, comparado ao ano passado.

Com isso, após tanto tempo de suspensão, a queda no preço que a China paga pelo produto brasileiro é dada como certa.

“O que a gente entende é que os chineses estão neste momento fazendo um jogo comercial mesmo, porque não tem justificativa sanitária para eles não comprarem a carne do Brasil”, destacou o vice-presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Corte, Chico da Paulicéia.

Consequências no mercado interno

O bloqueio da China à carne bovina brasileira já levou a uma desvalorização de quase 20% no valor da arroba bovina.

O IPCA-15, a prévia da inflação oficial, registrou uma queda de 0,31% no preço médio das carnes no mercado interno, principalmente de cortes dianteiros — que são os exportados para a China. Foi a primeira redução no valor em 16 meses, segundo o IBGE.

A Associação Paulista de Supermercado (Apas) informou que está acompanhando a desaceleração gradativa no preço de alguns cortes de carnes. “A redução se deu pela maior oferta interna e também pela estabilidade no custo de produção.”

Para o economista da Apas Diego Pereira, o cenário é de novos recuos nos valores finais da carne, caso a suspensão das exportações se mantenha por mais tempo. Porém, ele avalia que outros fatores impedem uma diminuição ainda maior nos preços no varejo.

“As pressões de custos internos, como a alta da energia elétrica, vão contra uma redução mais acentuada nos preços para os consumidores”, observou.

Silêncio na indústria

No Brasil, a indústria se cala quando o assunto envolve as exportações de carne para a China. O setor está aguardando as negociações entre o Ministério da Agricultura (Mapa) e os chineses.

“Estamos evitando falar, pois os chineses acompanham tudo que acontece aqui e, qualquer coisa que comentarmos, pode refletir nas negociações”, disse um representante ligado ao setor.

Os frigoríficos estão com os estoques de carne quase no limite. Desde o veto, o Mapa decidiu autorizar a estocagem temporária de produções anteriores à suspensão das vendas para o país asiático por até 60 dias.

“Os frigoríficos estão segurando a carne, só que não vão conseguir por muito tempo. O problema é que as empresas compraram o gado por um preço mais alto para exportar e, aqui, você não consegue vender pelo mesmo valor”, disse um especialista.

Isso está gerando uma reação em cadeia. No pasto, o pecuarista também está segurando o gado à espera da liberação das exportações. “O problema é que o pecuarista tem custo com ração, que está mais cara. Ele está recebendo menos e fica com o prejuízo. É um complicador para o setor produtivo” explicou Hausknecht, sócio-diretor da MB Agro Consultoria.

Em nota a Oeste, o Ministério da Agricultura informou que tem mantido negociações com as autoridades da China, com a realização de reuniões virtuais.

“O lado brasileiro tem fornecido, com celeridade, informações complementares atendendo às solicitações das autoridades chinesas”, comunicou.

“As discussões têm sido produtivas, mas não há ainda data de retorno das exportações de carne bovina brasileiras para aquele país”, informou o Mapa.

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