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Eleições 2020: A política resolvida ‘na bala’

Aos menos 15 candidatos foram assassinados desde setembro
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Foto: Canva | eleições 2020 - eleições na bala

Aos menos 16 candidatos foram assassinados desde setembro. Pós-doutor em sociologia reforça histórico de relação da política com a violência

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A Paraíba já foi palco de um histórico crime político. Há 90 anos, o então presidente do Estado (título hoje equivalente a governador), João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, morreu enquanto estava no poder. Ele foi assassinado por um opositor. Ao sair de uma confeitaria no Recife (PE), foi alvejado por tiros disparados pelo advogado João Duarte Dantas.

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Além de ser eternizado com o nome da capital paraibana, o assassinato de João Pessoa ajuda a mostrar que não é de hoje a relação da política com a criminalidade. E mais, ações criminosas por vezes atuam como estopim para mudanças no país. Pós-doutor em sociologia e professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Paulo Gracino Júnior considera esse homicídio no Nordeste como fator determinante para a deflagração da Revolução de 30, movimento responsável pela chegada de Getúlio Vargas à presidência da República — João Pessoa era o candidato a vice na chapa “getuliana” derrotada no voto.

O sociólogo observa que o caso ajuda a comprovar o histórico do processo político brasileiro, por diversas vezes resolvido “na bala”. Décadas depois dos tiros direcionados ao então governador da Paraíba, agentes políticos seguem na mira desse tipo de crime. Principalmente aqueles em busca de cargos no Executivo e no Legislativo. Desde o início do processo eleitoral deste ano, em setembro, ao menos 16 candidatos foram assassinados.

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A lista de candidatos vítimas da violência política foi, inclusive, atualizada a dois dias do primeiro turno. Na noite de sexta-feira, 13, José Cláudio Castro de Souza não resistiu ao ser atingido por oito disparos de arma de fogo. Filiado ao PL, ele era candidato a vereador em Correntina, cidade do oeste da Bahia. Antes dele, um postulante a prefeito e outros 14 candidatos a vereador foram mortos desde o início do período eleitoral, em meados de setembro.

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Essa situação se estende para além da disputa política em si. Para Gracino Júnior, ela é reflexo da sociedade brasileira, pois a “violência armada é uma forma histórica de se resolver impasses”. Fora o histórico de criminalidade no país, o sociólogo credita o avanço de atos contra políticos na proliferação de protestos país afora — mudança iniciada com as manifestações de 2013. “O adversário passou a ser o inimigo”, comenta em entrevista a Oeste. “Com o adversário, posso ter diálogo, mas não com o inimigo. O inimigo eu tenho que eliminar”, analisa.

Fora do período eleitoral

O mapa de crimes entrelaçados a figuras da política brasileira vai além do período eleitoral. Desde janeiro, o país contabiliza 83 assassinatos de militantes partidários, pré-candidatos, candidatos e até pessoas em pleno mandato — conforme o caso de João Pessoa. Os dados são registrados na edição deste ano do mapa da “Violência Políticos no Brasil”. On-line, o material é idealizado e atualizado (ainda sem dados das últimas semanas) por Pablo Nunes, doutor em ciência política e coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC). Além de homicídios, o painel apresenta registros de agressão.

Rio de Janeiro na mira da criminalidade

O Rio de Janeiro é um dos que mais registram crimes no mapa apresentado pelo integrante do CESeC. A violência política em 2020 resultou em sete assassinatos no Estado. O primeiro registro foi em maio contra o pré-candidato a vereador pelo Patriota de Araruama. No decorrer dos meses, a criminalidade atingiu políticos em Magé, Paraty e em três municípios da região conhecida como Baixada Fluminense: Duque de Caxias, São João de Meriti e Nova Iguaçu, onde dois políticos foram mortos em outubro.

Especificamente sobre o Rio de Janeiro, Paulo Gracino Júnior põe a conta nas instituições, pois acabaram por permitir o avanço das milícias. Com histórico recente de governadores e ex-governadores enrolados com a Justiça, criou-se vácuo de poder, acredita. “E isso tudo resulta na penetração ainda maior desses grupos que dominam faixas inteiras. De municípios da Baixada Fluminense a partes da Zona Oeste e Zona Norte da própria cidade do Rio de Janeiro”, afirma o sociólogo.

Os problemas na política fluminense não se resumem a este ano. Levantamento divulgado pelo jornal O Globo indicou 25 assassinatos de políticos no Estado do Rio de Janeiro de 2015 a 2019. Mesmo sem eleição, o ano passado contou com nove casos fatais de violência política. O número é digno de se rivalizar com o grupo terrorista Talibã, responsável pelo atentado no Afeganistão em setembro de 2019, onde 16 pessoas acabaram mortas. 

Sobreviventes, mas alvos de atentados

No Rio de Janeiro, há quem escape de tentativa de homicídio em meio à campanha eleitoral. Vereador da capital fluminense e candidato à reeleição, Zico Bacana (Podemos) saiu com leve ferimento na cabeça após o carro onde estava ser atingido por disparos de fuzil. Contudo, ele não é o único sobrevivente desse tipo de ação criminosa. Há outros registos, como o caso de Solange Freitas (PSDB). Candidata à prefeitura de São Vicente pelo (SP), ela foi alvo de atentado nesta semana — e chamou a atenção até do governador João Doria, seu colega de partido.

Àqueles que conseguiram escapar de atentados, como o candidato a vereador por Guarulhos (SP) baleado no braço enquanto realizava live para apurar denúncia, Paulo Gracino Júnior faz recomendações em prol da segurança desses candidatos. Segundo o sociólogo, é preciso solicitar aporte por parte do Estado e, dependendo do caso, evitar circular, fazer campanha por áreas onde há dominância de grupos criminosos antipáticos ao político em questão.

Desde o início do período de campanha eleitoral, esses foram alguns casos de candidatos sobreviventes a atentados:

  • Zico Bacana (Podemos) | Vereador – Rio de Janeiro/RJ
  • Júlio César (PRTB) | Vice-prefeito – Parauapebas/PA
  • Patrícia Queiroz (PSC) | Vice-prefeita – Belém/PA
  • Ricardo de Moura (PL) | Vereador – Guarulhos/SP
  • Klaus Lima (PSB) | Prefeito – Escada/PE
  • Solange Freitas (PSDB) | Prefeita – São Vicente/SP
  • Rafael da Hípica (MDB) | Prefeito – Mairinque/SP
  • Kleison Gatão (PSL) | Vereador – Magé/RJ
  • Fabio Barbosa (Patriota) | Vice-prefeito – Piraúba/MG
  • Rennan Arrighi (PSDB) | Prefeito – Piraúba/MG 

Há como acabar com a violência política?

Diante da onda de criminalidade contra políticos, o sociólogo entrevistado por Oeste descarta soluções mirabolantes do dia para a noite. Gracino Júnior fala em tentativa de “reconstrução de longo prazo”. Mas o procedimento deve ser guiado com muito cuidado, alerta. Afinal, segundo ele, há membros de grupos criminosos, como as milícias, presentes em esferas do Legislativo, do Judiciário e também em delegacias e quartéis, por exemplo. “É uma coisa muito complicada, pois de qualquer forma [o governante] terá que se dialogar com esses grupos.”

“Mas terá de ser tudo a longo prazo”, garante o pós-doutor em sociologia. “A institucionalização da política, ou a reinstitucionalização dela, precisa ocorrer. Esse tipo de crime vai acabar? Não, não vai acabar, mas provavelmente, com mudança na estrutura do Estado, pode ser que as ocorrências diminuam”, complementa Paulo Gracino Júnior.

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7 comentários

  1. Política (principalmente municipal), milícias, milícias virtuais e tráfico de drogas estão todos entregues ao crime organizado e aos partidos.

  2. Inexiste violência política por parte do narcotraficante?
    Talvez se o autor identificasse o que entende pelo termo milícia o texto seria mais elucidativo.

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