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República de bananas

"As eleições nos EUA estão sendo abertamente comparadas com as de países da América Central ou de algum fim de mundo da África", afirma J.R. Guzzo
Foto: Gage Skidmore/Flickr
Foto: Gage Skidmore/Flickr | Foto: Gage Skidmore/Flickr

“As eleições nos EUA estão sendo abertamente comparadas com as de países da América Central ou de algum fim de mundo da África”, afirma J. R. Guzzo

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Qualquer sistema de apuração de eleições, naturalmente, está sujeito a fraude, por mais moderno que seja | Foto: Gage Skidmore/Flickr

(J. R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 8 de novembro de 2020)

“A única diferença entre mim e um louco”, disse num de seus melhores momentos o pintor Salvador Dalí, “é que eu não sou louco.” Detalhes assim fazem toda a diferença, não é mesmo? Ainda bem, porque essas espantosas eleições norte-americanas em que todo mundo vota, até por telepatia, mas o resultado não sai nunca, nos levam de volta ao mundo surrealista de Dalí. Os Estados Unidos, com toda a certeza, não estão loucos, pois nenhum país com o seu currículo de realizações fica louco de um governo para outro. Mas estão fazendo o máximo possível para parecer que são.

Imaginem se isso estivesse acontecendo no Brasil — o que as classes intelectuais, a imprensa e as celebridades norte-americanas, além do Facebook, que em matéria de democracia se consideram no mesmo nível de perfeição da Santíssima Trindade, iriam falar de nós? O Brasil, como eles dizem a cada cinco minutos, põe fogo sem parar na floresta amazônica, comete genocídio contra os índios, persegue minorias e está acabando com as baleias — sem falar no derretimento da calota polar e no governo fascista etc. Se, além de todos esses delitos, ainda houvesse por aqui uma eleição presidencial como essa que andam fazendo por lá, iriam rebaixar o Brasil da condição de país irrecuperável para alguma categoria logo abaixo, em que a única solução é socar uma bomba de hidrogênio em cima.

Qualquer sistema de apuração de eleições, naturalmente, está sujeito a fraude, por mais moderno que seja — embora, curiosamente, a gente nunca ouça falar em confusão na Inglaterra, no Japão ou na Nova Zelândia. Alguém sabe de fraude eleitoral na Alemanha, ou no Canadá? Mas deixe-se essa discussão para outra hora; o que importa, no caso atual, é a alarmante situação pela qual as eleições nos Estados Unidos — o país número 1 do mundo, com seu PIB de 20 trilhões de dólares e tantos outros etceteras — estão sendo abertamente comparadas com as de uma republiqueta de bananas da América Central ou de algum fim de mundo da África.

Queriam o quê? O presidente dos Estados Unidos da América, ninguém menos que ele, Donald Trump em pessoa, diz que “as eleições estão sendo roubadas”. Centenas de advogados, dos dois lados, entram com ações judiciais, uns contra os outros — o governo dizendo que a oposição fraudou os resultados, a oposição dizendo que o governo perdeu e quer virar a mesa. A apuração levou mais de quatro dias até que se soubesse quem ganhou — prodígio que não seria aceito nem no Congo Belga. A eleição é uma obra em aberto, na qual se pode votar antes do dia da eleição, no dia seguinte, depois de encerrado o horário de votação, pelo correio, por e-mail. A apuração dos votos é feita no ritmo, no sistema, com as leis e pelos funcionários de cada um dos 50 Estados norte-americanos.

Trump diz que os votos “não presenciais” — pois é, até em eleição existe agora esse negócio —, que vão chegando pouco a pouco e cuja contagem não tem hora para acabar, vão todos para o inimigo Joseph Biden. Os inimigos do presidente dizem que ele quer dar um golpe de Estado. Em suma: deu ruim, como se diz. Talvez a ex-presidente Dilma Rousseff, de quem tanto se ri por causa de seus surtos de esquisitice, não estivesse sendo assim tão exótica quando disse que ninguém ganhou e ninguém perdeu a eleição, pois quem ganhou não perdeu e quem perdeu não ganhou, de modo que todo mundo perdeu e ganhou.

Parece o Brasil dos anos 50, ou de antes, quando se votava a mão, com caneta Bic, e a apuração só começava ao meio-dia do dia seguinte, para se acertarem as coisas durante a noite — inclusive com o roubo físico das urnas. Um dia eles ainda chegam lá.

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