EUA — O que está em jogo - Revista Oeste

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EUA — O que está em jogo
Em confronto, duas visões antagônicas sobre temas como geopolítica e comércio internacional, impostos e saúde, clima e energia, China e Oriente Médio
30 out 2020, 09:14

Há exatos 40 anos, o mundo assistia ao debate da eleição presidencial nos Estados Unidos que mudaria para sempre o rumo da nação. O confronto entre Jimmy Carter e Ronald Reagan em Cleveland, Ohio, no dia 28 de outubro de 1980, foi o segundo debate mais visto na história.

Como Donald Trump, Carter foi um presidente em primeiro mandato cujo caminho para a reeleição se mostrou desafiador, para dizer o mínimo. É difícil imaginar dois homens mais diferentes do que Jimmy Carter, o fazendeiro da Geórgia, e Donald Trump, o magnata do mercado imobiliário, mas há alguns paralelos que podemos fazer entre eles.

Obviamente, os tempos são outros. O cenário político norte-americano é bem diverso daquele em 1980. No entanto, no último ano de seus primeiros mandatos, Jimmy Carter e Donald Trump enfrentaram crises para as quais eles e o país que lideravam não estavam preparados. Para Trump, foi a pandemia de covid-19 e suas consequências políticas. Para Carter, o desafio foi a crise dos reféns de 1979, quando 52 norte-americanos foram mantidos na embaixada norte-americana em Teerã por 444 dias. Aquela veio a ser a primeira grande experiência dos Estados Unidos com radicais islâmicos, e as tentativas de Carter de negociar não prosperaram, já que o governo formal no poder no Irã tinha pouco controle sobre os estudantes que controlavam os reféns. Em abril de 1980, Carter recorreu a uma ousada operação de resgate militar que falhou espetacularmente, matando militares norte-americanos quando uma aeronave caiu no deserto antes mesmo de chegar à capital iraniana.

Para Trump, o vírus chinês acabou com sua maior vantagem: uma economia pulsante com baixa inflação e com os mais baixos índices de desemprego da história. À medida que o país se fechava em lockdowns severos, principalmente nos Estados democratas, o desemprego disparou e milhões de trabalhadores demitidos começaram a temer nunca mais voltar a trabalhar. O ano eleitoral de Carter também foi marcado por problemas econômicos. Em janeiro de 1980, o país estava em recessão. Sob sua supervisão, a taxa de inflação disparou para dois dígitos e o desemprego aumentou, uma ocorrência incomum na economia dos EUA.

De lá para cá, os partidos também mudaram. O Partido Democrata de John F. Kennedy, ícone da política norte-americana, não existe mais. A social-democracia de Bill Clinton ficou no passado. Hoje os democratas estão mais perto do Psol do que do PSDB e não apenas aplaudem mas tentam implementar políticas tão progressistas que beiram o socialismo “tradicional”.

O Partido Republicano também mudou. O partido de Reagan que duelou com Carter em 1980 há tempos não existe. Os republicanos que não gostam de Trump querem “voltar ao normal”, mas o fato é que está morto o velho GOP, o Great Old Party. A grande virada se deu em 2016, quando Trump “sequestrou” o partido e, embora fosse considerado um republicano, o apoio que o impulsionou à vitória veio de uma nova configuração do eleitorado. Muitos republicanos convencionais ainda não entendem isso, mas provavelmente nenhum outro candidato teria vencido naquele ano.

O que fica cada dia mais óbvio é que ambos os partidos estão travando guerras civis internas. A extrema esquerda do Partido Democrata está se lançando ao socialismo e à destruição não só de estátuas, mas dos valores norte-americanos e dos princípios fundamentais da nação mais livre do mundo. Na verdade, a retórica crescente atualmente empregada pela esquerda não apenas silencia os dissidentes, busca também eliminá-los e forçar, até com o uso da violência, a matriz de suas ideias marxistas. A América está lutando não apenas pela própria identidade, mas por sua vida.

E, com o pêndulo ideológico tão volátil, o que está em jogo na eleição mais importante das últimas décadas? Muito se fala da postura de Donald Trump e Joe Biden, que poderiam estar em lados completamente opostos em um concurso de personalidade, mas o que eles trazem de concreto em suas plataformas que pode afetar não apenas o país, mas o mundo todo?

Política tributária

Há um enorme abismo entre os candidatos presidenciais quando o assunto é política tributária — e estamos falando de trilhões de dólares na próxima década. O presidente Trump está em campanha para dar continuidade à maior conquista legislativa de seu governo, a Reforma Tributária de 2017, que reduziu impostos sobre empresas e indivíduos, trazendo uma série de benefícios para o país, inclusive a repatriação de grandes empresas. Joe Biden, por outro lado, propõe forte aumento de impostos sobre empresas para pagar por programas sociais e ambientalistas, além da taxação de grandes fortunas. Até agora, sua proposta de impostos mais altos não faz parte de nenhum plano de redução do déficit — que também cresceu no governo Trump, verdade seja dita. A agenda tributária democrata inclui impostos mais elevados que financiarão novas agendas verdes malucas de trilhões de dólares, planos de saúde e assistência médica “gratuita” para imigrantes ilegais.

Política externa

Donald Trump e Joe Biden mostram profundas diferenças nas principais áreas da política externa dos EUA, e apenas esse tópico daria um artigo inteiro. Isso inclui alianças, relações com Arábia Saudita, Irã e União Europeia. No entanto, o republicano e o democrata têm opiniões semelhantes sobre alguns objetivos importantes, como o limite de envio de tropas para o Oriente Médio e o Afeganistão.

China

O presidente Trump traçou uma política de confronto com a China mais intensa do que seus antecessores republicanos e democratas adotaram nas quatro décadas desde que Washington e Pequim estabeleceram relações diplomáticas plenas. Essa linha dura provavelmente continuará com uma vitória de Trump, com a guerra tarifária e a proteção à propriedade intelectual norte-americana. Se o democrata levar a eleição de 2020, há indícios suficientes de que os EUA amolecerão com o Partido Comunista Chinês, uma vez que durante a última semana documentos apresentados ao FBI por um ex-parceiro de negócios de Hunter Biden, filho de Joe Biden, mostram laços comerciais fortes da família Biden com empresários chineses desde a época em que o agora candidato era vice de Barack Obama.

Imigração, muro e fronteiras

A imigração foi o tema central da campanha do presidente Trump em 2016 e, desde que assumiu o cargo, ele buscou reduzir quase todas as formas de imigração para os EUA. Entre as mudanças de Trump: construção de muro de fronteira, proibição de viagens provenientes de vários países e fechamento temporário da fronteira sul para requerentes de asilo durante a pandemia do coronavírus. Biden formulou sua própria política de imigração como uma refutação dos termos de Trump, prometendo desfazer quase todas as mudanças implementadas pelo governo republicano.

Polícia, crime e injustiça racial

Policiamento, crime e injustiça racial tornaram-se temas importantes na eleição presidencial deste ano, alimentados em parte por uma série de encontros fatais entre policiais e negros. O presidente Trump e o ex-vice-presidente Joe Biden ofereceram respostas diferentes a essas questões. O democrata dá sinais de seguir a linha da ala radical do partido que quer diminuir com robustez o orçamento para as corporações policiais em todo o país. Já o republicano promete o caminho inverso, aumentar o orçamento e melhorar as condições de treinamento dos policiais.

Comércio

A eleição de Donald Trump em 2016 levou à maior transformação na política comercial dos EUA desde a 2ª Guerra Mundial. Enquanto ele propõe seguir a estratégia de renegociar acordos desfavoráveis aos Estados Unidos, uma vitória de Joe Biden pode mudar de direção novamente. O democrata diz que vai cortejar os aliados atingidos pelas sanções comerciais de Trump, repensar o uso de tarifas e tentar criar uma frente única para enfrentar a hegemonia da China em alguns importantes setores.

Clima e energia

A eleição presidencial de 2020 coloca um candidato que considera a mudança climática como parte de sua plataforma, contra outro que rejeita seu protagonismo e promete continuar promovendo uma agenda de energia sustentável sem acabar com os combustíveis fósseis. A política ambiental é um dos maiores contrastes entre o presidente Trump e Joe Biden. Empresas de energia, montadoras e sindicatos poderão ver grandes mudanças se houver rotatividade na Casa Branca.

Biden tem se atrapalhado com o debate relacionado aos combustíveis fósseis, tema de extrema importância para Estados que podem decidir as eleições como, por exemplo, a Pensilvânia. O democrata adapta sua retórica dependendo do público desde as primárias, segundo os números das pesquisas. Ele não admite publicamente que o fracking (extração de gás e petróleo do solo) tenha libertado os EUA da dependência de meio século do Oriente Médio e reduzido as contas de gás do consumidor. Biden promete implementar o Green New Deal, proposta absurda da ala radical do partido que, além de vários pontos utópicos, pretende acabar com o uso dos combustíveis fósseis em dez anos.

Saúde

A maioria das diferenças entre o presidente Trump e Biden tem a ver com uma disputa central: Trump quer reduzir o papel do governo federal na saúde dos americanos, enquanto Biden quer expandi-lo. Trump prefere conceder autonomia a Estados e cidadãos, de modo que possam escolher o tipo de plano de saúde. Biden quer um sistema integrado.

Oriente Médio

O atual presidente tem pressionado mais países árabes para normalizar as relações com Israel. Três importantes acordos de paz foram assinados, negociados por Trump, e isso faz com que os EUA tenham mais aliados na região. Se Biden vencer, existe a dúvida se ele faria esforços para reviver o acordo nuclear de 2015 com o Irã, assinado por Barack Obama, e com isso perturbaria Israel e os países árabes.

Quando Ronald Reagan subiu ao palco na noite de 28 de outubro de 1980, a América não imaginava como o ex-governador da Califórnia terminaria aquele debate com uma série de perguntas que são levantadas até hoje em época de eleições presidenciais. Em suas considerações finais, o ex-ator olhou firmemente para a câmera e perguntou à nação: “Você está melhor do que há quatro anos? É mais fácil sair e comprar coisas nas lojas do que há quatro anos? Existe mais ou menos desemprego no país do que há quatro anos? A América é respeitada em todo o mundo como era? Você acha que estamos seguros e fortes quanto éramos há quatro anos?”.

Saberemos em breve se Trump sairá como Carter, ou se colherá os frutos das políticas domésticas e internacionais do livro de Reagan.

 

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12 Comentários

  1. Parabéns, Ana Paula. Conheço suas preferências políticas porque a acompanho há algum tempo. Mas a admiro pela análise isenta que você busca fazer sempre embasada em fatos concretos, o que dá muita credibilidade a sua análise. Parabéns.

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  2. Onde existir a palavra “marxista” apadrinhando alguma coisa, pode deixar que eu tô fora. Não contem comigo para nada. Fui!

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  3. Excelente análise, Ana Paula!

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    • Ana Paula coloca para os leitores didaticamente os fatos reais nos EUA e a atual disputa apertada entre Biden e Trump.Infelizmente voto no Brasil,mas meu voto seria de Trump,para resumir: é extremamente importante para o equilíbrio mundial a vitória do candidato do partido republicano.Nao temos outra saída,essa é a melhor escolha.Biden está senil(acompanhei os debates) e dita cartilha de esquerda.Parece remeter a linguagem de Dilma.

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  4. Agora é torcer pelo Tramp.

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  5. O Partido Democrata está sendo cínico, pisando com os pés sujos de lama o suntuoso tapete que sempre foram os EUA. Isso não vai acabar bem.

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  6. Existem plataformas com estudos de possibilidades que apontam que entraremos num ciclo muito conturbado e mais difícil do que aquele encerrado com o término da guerra fria. Teremos problemas planetários não só com vírus, mas com mais violência e mais insanidades.
    Quem irá administrar e liderar momentos complicados com sabedoria e inteligência?
    Independentemente de quem ganhar as eleições nos EUA a polaridade continuará com movimentos sociais de peso. Não imagino um ciclo tranquilo nem para Joe nem para Trump. E…. a mesma coisa com o mundo inteiro incluindo o Brasil.

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    • Deixou de falar sobre política americana para a América Latina que diz respeito aos interesses brasileiros, maior economia do continente.

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  7. muito bom

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  8. Como sempre ÓTIMA!

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  9. Exímia como no vôlei, é como vc está se mostrando em seu jornalismo crítico e consistente. Pelo jeito, gosta de fazer sempre muito bem tudo o que faz. Excelente artigo! Igualmente excelente no JP! Parabéns!

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  10. Excepcionalmente Ana estou tendo i prazer de ler seu artigo somente agora… sábado, dia 07, quando já se tem, infelizmente, bem próximo, o anúncio da vitória daquele bastardo de Delawre!
    Seu texto é impecável, imparcial…mas, eu não sou!
    A não ser que se confirmem as grandes dificuldades, que o amiguinho dos “chinos”, terá com a Câmara e o Senado, se não obtiver maioria em nenhuma delas…Mas do contrário, a América viverá dias difíceis! E o resto do mundo também!

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