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O crime e o juiz das garantias

"Inventaram-se novas aberrações legais para proteger e deixar sem punição os bandidos", afirmou J.R. Guzzo
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“Inventaram-se novas aberrações legais para proteger e deixar sem punição os bandidos”, afirmou J. R. Guzzo

juiz das garantias
Com essa figura, fica aberto o caminho para que sejam soltos todos os criminosos que não passaram pelo segundo magistrado 24 horas depois da sua prisão | Foto: Divulgação/Internet

(J. R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 30 de dezembro de 2019)

Um dos maiores projetos do governo do presidente Jair Bolsonaro, exposto em volume máximo durante toda a sua campanha eleitoral, era o combate ao crime — um dos piores inimigos da população brasileira nas últimas décadas, em razão da impunidade dos criminosos, da baixa eficiência do aparelho policial e judiciário e da aberta submissão da lei aos interesses dos escritórios de advocacia penal mais prósperos deste país. Passam dois anos e o que se tem hoje? Uma situação em que o poder público incentiva ainda mais a atividade criminosa no Brasil.

Não apenas não foi feito o prometido. Inventaram-se, com a cumplicidade objetiva do governo federal, novas aberrações legais para proteger o crime e deixar sem punição os criminosos. Uma das mais perversas foi a criação do “juiz de garantias”, pela qual todo processo penal no Brasil passa a ter dois juízes — isso mesmo, dois juízes diferentes —, um para cuidar da papelada e o outro para encontrar motivos que possam ser utilizados para soltar bandidos presos em flagrante.

Com a desculpa de que esse tipo de juiz existe “em outros países”, e como se o Brasil fosse um exemplo mundial em matéria de criminalidade baixa, deputados e advogados espertos enfiaram num “pacote anticrime” apresentado pelo governo — justo aí — o contrabando desse segundo juiz. O presidente da República poderia vetar o texto de lei, aprovado no final de 2019. Não vetou. Também poderia vetar, e não vetou, outro presentaço para os criminosos e seus advogados: a soltura de réus que estejam presos há mais de 90 dias sem terem “condenação definitiva”. Em nenhum governo anterior o crime conquistou duas vitórias como essas.

Sabe-se muito bem o uso que já se fez dessa história dos 90 dias: o ministro Marco Aurélio mandou soltar um traficante de drogas milionário que teve como advogado um ex-assessor dele mesmo, Marco Aurélio. O homem estava condenado, em duas sentenças, a 25 anos de cadeia, e obviamente desapareceu assim que saiu do xadrez. Agora, um grupo de advogados que costumam cobrar honorários de milhões entrou com um habeas corpus coletivo contra a liminar do presidente do STF, Luiz Fux, que suspendeu em janeiro último a existência do “juiz de garantias”. É o “pacote pró-crime” do governo de novo em ação.

É abusivo e ilegal: não cabe a apresentação de habeas corpus contra decisão do presidente do STF. E daí? A ala do tribunal que está o tempo todo ao lado da impunidade quer dar um troco no presidente Fux, que já há tempo se tornou um dos seus desafetos — e vai jogar tudo para recuperar os benefícios que o crime espera obter com o “juiz de garantias”. Fica aberto, tecnicamente, o caminho para que sejam soltos todos os criminosos que não passaram pelo segundo juiz 24 horas depois da sua prisão.

O “processo civilizatório” do Brasil é isso aí.

Leia também: “Faroeste 2.0”, artigo de Guilherme Fiuza publicado na Edição 41 da Revista Oeste

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4 comentários

  1. J. R. Guzzo sempre acerta o alvo em suas análises. Se os brasileiros querem um país decente, em todos os sentido, terão que ir às armas. A história registra que mudanças significativas somente ocorrem com o povo guerreando resolutamente para derrubar os inúteis vagabundos e assim atingir seus ideais de decência e prosperidade.

  2. Político H-O-N-E-S-T-O, nesta republiqueta bananeira, ainda está por nascer. Esses crápulas só visam aos próprios interesses. A população, que os sustenta, que se f@d#.

  3. 👏👏👀 Excelente texto, como nunca poderia deixar de ser, partindo do grande mestre que o escreveu. Tudo o que eu mais queria nesse momento é que os brasileiros enxergassem as coisas com essa clareza de ideias.

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