Alguma coisa deu horrivelmente errado

Vai se tornando comum a noção de que na vida pública não há propostas diferentes – há uma só, a sua, e quem estiver do outro lado é apenas o inimigo
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J.R. Guzzo

Publicado no jornal O Estado de S.Paulo, em 10 de janeiro de 2020

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A invasão do Congresso norte-americano por bandos de militantes inconformados com o resultado das últimas eleições presidenciais é o resultado inevitável do tipo de ação política que faz mais sucesso hoje em dia em certos países. Essa ação se resume numa lei acima de qualquer outra: se o adversário ganha uma eleição, é preciso que ele seja destruído. Não dá para esperar até as próximas eleições e, no meio tempo, fazer apenas oposição e mostrar aos eleitores que as suas ideias para o país são melhores? Não, não dá. Não existem mais ideias; só existe o “nós” contra “eles”, qualquer que seja o tipo de questão, e quem está do outro lado não deve ter o direito de existir.

Vai se tornando cada vez mais comum, e cada vez mais aceitável, a noção de que na vida pública não há propostas diferentes – há uma só, a sua, e quem estiver do outro lado é apenas o inimigo. Não pode ganhar as eleições para presidente. Se ganhar não pode assumir. Se assumir não pode governar. Se governar tem de vencer um pedido de impeachment por dia. Se vencer não pode se reeleger. A coisa não acaba mais.

Que seja assim em países onde as pessoas ainda vivem nas cavernas, até que dá para entender. Mas nos Estados Unidos? Não é lá que se pratica há 235 anos seguidos a melhor democracia do mundo, ou a menos pior? Não é de lá que a mídia, os professores de universidade e o Facebook baixam todo santo dia decretos dizendo o que é certo e o que é errado, ou como você tem de se comportar para levar uma vida virtuosa, civilizada e politicamente correta? Pois é. Alguma coisa deu horrivelmente errado. Badernas como a invasão do Capitólio, na opinião das elites americanas, têm de acontecer na América Latina, ou algum outro fim de mundo. Não lá.

Na verdade eles não sabem direito, nem se importam em saber, o que vem a ser isso – “América Latina”. Acham, vagamente, que América Latina é uma espécie de subúrbio de Puerto Rico, ou algo assim, e que os latino-americanos são um aglomerado de boçais primitivos que usam sombrero, fazem siesta depois do almoço e são incapazes de entender a ideia de democracia. O Brasil, então, é alguma coisa ainda mais lamentável, com a agravante de que vive tocando fogo na Amazônia, caça índio à bala e pratica racismo “estrutural”.

Imaginem o que a imprensa e as classes intelectuais dos Estados Unidos estariam dizendo do Brasil se um negócio desses acontece aqui. A pedida mínima seria uma bomba de hidrogênio, seguida de um boicote comercial até o ano 3.000. É ótimo, sem dúvida, que ninguém tenha invadido coisa nenhuma em Brasília. De qualquer forma, não é um bom sinal o jeito como a política está sendo praticada hoje em dia neste país. Nos Estados Unidos a invasão do Congresso acabou na hora em que chegou a polícia – e, apesar das repetidas manifestações de horror em relação ao episódio, não há a menor preocupação, não à sério, de que possa haver um golpe de Estado em Washington a curto prazo. Aqui já é mais complicado.

A maior parte da sociedade norte-americana, como a de qualquer país bem sucedido economicamente, respeita de modo ativo e consciente, há muito tempo, as chamadas “instituições” – o Congresso, o Poder Judiciário, a Constituição, o império da lei e por aí afora. No Brasil não há respeito praticamente nenhum, porque as instituições não se comportam de maneira a serem respeitadas. Na verdade, seus atos comprovam, o tempo todo, que estão fazendo o exato contrário disso. A estima da população pelo Congresso Nacional é zero; pelo STF, então, periga ser ainda mais baixa. Se fecharem ambos, pouca gente vai perder cinco minutos de sono. É onde estamos.

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23 comentários

  1. Por que será que os eleitores de Trump ficaram tão desapontados com as eleições? Por que será?

    Aconteceu algo suspeito? Se aconteceu, a mídia investigativa foi atrás? Nos anos 70 a mídia foi atrás da invasão da sede dos Democratas -algo relativamente muito menos grave do que a acusação/insinuação de massiva fraude em eleições presidenciais, convenhamos- e deu no caso Watergate, culminando com a renúncia de Nixon em 1974

    No presente caso, a mídia levantou dados, fatos, depoimentos sobre possibilidades da existência de fraude?

    Se nada de suspeito aconteceu, houve alguma resposta satisfatória e conclusiva por parte de quem de direito a quem faz indagações e insinuações tão graves?
    Estou confuso…

    1. Tudo um plano (Globalistas, PCCHINES) bem elaborado! No fundo o ódio a TRUMP é pelo motivo de NÃO ser do ESTABLISCHMENT e não ser servo da agenda!

  2. Mestre Guzzo, gostei deste teu comentário porque demonstra o risco que corremos em 2022. Se conseguiram criar esse clima midiático incendiário no pais mais democrático do mundo, como fosse um atentado de conservadores da direita à democracia, imagina aqui em nosso pais se não tivermos o VOTO IMPRESSO, agora mais do que nunca necessário para impedir qualquer tentativa dos malfeitores poderosos, para impedir eventual reeleição de Bolsonaro ou de seu indicado. Afinal, foram observadas fraudes e ocorrências estranhas nas eleições dos EUA.
    Penso que evitaríamos graves conflitos internos com grandes prejuízos locais e internacionais ao nosso pais. Porque não evitar? Qual o temor do STF, OAB e de muitos poderosos com o VOTO IMPRESSO?
    Estranho também a pouca manifestação do bom jornalismo em defesa da transparência LEGAL das urnas eletrônicas. O VOTO IMPRESSO é a única forma de AUDITAR as urnas eletrônicas e não tem PARTIDO. Servirá também para qualquer concorrente solicitar RECONTAGEM GERAL em disputas acirradas.
    Afinal Guzzo, apoiar o voto impresso é ANTIDEMOCRÁTICO? O voto impresso viola o sigilo e a liberdade do voto, como quer o STF enganar a sociedade, declarando-o inconstitucional?

    1. O Barroso na falta de argumentos claros para inaceitar qq discussão, acaba incluindo em seu colorario de farrapos o alto custo que geraria a adaptação das urnas que aí estão.
      Que fique ckaro: não queremos nem tocar no voto impresso. Apenas ler no visor como lemos nas maquininhas de calcular, e a fita impressa com todos os votos vai se acumulando dentro da urna eletrônica.
      Como é desejo da maioria do povo de bem, isto só conseguiremos juntando com as pautas anticorrupção elencadas nas ruas de todo o Brasil desde 2.013, o fim do foro privilegiado e a prisão em segunda instância.
      Será que teremos de voltar às ruas após a vacinação?
      Quando fomos, em 5 anos acabamos com o conluio entre os 3 poderes, tirando o executivo da trama sórdida combinada pela assembleia que nos impôs a carta genocida de 1.988, que marcou a revolução comunista no Brasil.

  3. Depois do que aconteceu nos Estados Unidos, temo pela eleições no Brasil em 2022. Pq o modus operandi parece ser o mesmo.

  4. A instabilidade nos EUA é resultado da ascenção da esquerda, trabalhando gramscianamente. Esse negócio de invasão obviamente foi liderado pelos grupos de esquerda infiltrados. Eles tem 100 anos de experiência.

  5. Esse raciocínio até que funcionaria se os tempos fossem outros. O problema é que até a Maior Democracia do Mundo está corrompida em suas instituições. As eleições foram fraudulentas. Sei de pessoas que foram obrigadas a votar por correio e nem sequer receberam confirmação de voto válido. Ou seja, votaram mas não votaram. As pessoas devem então ficar caladas?

  6. Isso que o Guzzo escreveu sobre os EUA poderia muito bem ter sido escrito sobre o Brasil, a partir do governo de Bolsonaro. Este ganhou as eleições e desde então querem derrubá-lo. O resultado das urnas não é respeitado. O perfil do governo não é respeitado. Só vale as ideias esquerdo-progressistas. Quanto aos norteamericanos, faltou o Guzzo escrever que se tratou de fortes indícios de fraude. Só isso. Ultimamente, Guzzo está pecando pela análise, mas ele ainda tem crédito e nosso respeito.

  7. Binden mentiu, enganou, e fraudou as eleições. Este foi o maior ataque à democracia no mundo ocidental que se tem notícia. Uma revolução seria o mínimo depois do que fizeram. Ou seja, não existe mais vontade popular, rasgaram a constituição. Um homem como Binden deveria no mínimo ser preso pelo que fez. Não deve portanto ser reconhecido como presidente.

  8. Artigo estranho de Guzzo, que parece negligenciar o fato ÓBVIO de que os protestos nos EUA ocorreram devido a:

    – Mudanças inconstitucionais de leis eleitorais nos swing States, já que estas só poderiam ser alteradas por suas respectivas Assembleias Legislativas (praticamente TODAS elas controladas por Republicanos).

    – Múltiplas alegações de fraude que até agora NÃO foram investigadas, nem serão;

    – Blackout total da mainstream media em relação a diversas denúncias contra Biden, sua família e as fraudes mencionadas acima;

    – Ações de censura e silenciamento praticadas pela mesma mainstream media e redes sociais contra todo e qualquer pensamento conservador;

    – Hipocrisia absurda ao condenarem uma invasão do capitólio por meia-dúzia de (infiltrados Antifa?) desocupados, mas silenciarem quando os BLM/Antifa estavam destruindo TUDO pela frente em cidades de todo o país.

    É por TUDO isto que esses protestos ocorreram; e eles estão só começando. Prevejo uma Segunda Guerra Civil (ou equivalente) nos EUA em poucos meses, onde conservadores (que são, sim, a maioria do país) lutarão pela sobrevivência da República norte-americana contra o totalitarismo de esquerda.

  9. O Estadão não possui mais qualquer integridade para qualquer análise geopolítica.
    Se perdeu na sua covarde militância atrás de dinheiro público e situações do Governo que beneficiam os seus, seus empregados que se vêm obrigados a terem méritos para continuarem.
    Se especializou como mais um tablóide de esquerda, mentiroso, covarde e prestador de desserviços à seus leitores e ao País!.

    1. Concordo totalmente. O Estadão jogou sua história no lixo e hoje se refestela nas fezes da pocilga em que se tornou. E Mestre Guzzo pisou na bola ao nem citar os indícios de fraude neste artigo.

  10. O título está correto, mas poderia ser ainda mais verossímil se dissesse o seguinte: Várias coisas deram horrivelmente erradas. Pois é o que sempre dizem quando acontece um aci-dente aéreo. Ou seja, de que uma bobagem leva a outra bobagem e assim sucessivamente, até que todas as bobagens juntas assumem proporções incomensuráveis, e aí então acon-teceria o acidente aéreo. Mas por incrível que pareça, não são somente os USA as vítimas desse distúrbio. A China parece estar mais à deriva do que os demais, pois ela conta com a aceitação por parte de todo o planeta das suas prerrogativas previamente planejadas e deli-neadas (autoritarismo ancestral oriental). Acreditam eles que a economia oriental teificada e rigorosamente planejada (baseada majoritariamente na dívida) possa simplesmente engolir a economia individualista desgovernada ocidental (baseada majoritariamente no lucro). O colapso dos USA pouco influenciaria o mundo atualmente, levando pouca gente junto com eles, mas um colapso chinês, ao contrário, destruiria todos aqueles que com eles e sem eles estiverem Agora, um colapso conjunto USA e China já estaria na linha do horizonte. Sugiro que o Brasil se afaste da linha do horizonte, se isso for possível. Não precisamos nos atrelar a ninguém em particular. Basta respeitá-los.

  11. Mestre J.R.Guzzo, espero que fale sobre o voto impresso, como aprovado pelo congresso. Tenho a opnião de que quem não quer ser auditado, é porquê está praticando algo à esconder.

  12. Conservadores americanos são estranhos, nas imagens das selfies dos invasores do Capitólio é possível distinguir tatuagens em mãos e pescoço de foice e martelo, identificar personagens que participam de manifestações de grupos Antifas e BLM, no mínimo são pessoas muito pragmáticas.

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