O jornalismo nessa pandemia semeou medo, alerta jornalista

Claudio Odri escreveu um livro sobre o papel da imprensa na cobertura da crise sanitária global
-Publicidade-
O jornalista Claudio Odri | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
O jornalista Claudio Odri | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Durante a pandemia da covid-19, a mídia tradicional se comportou de modo quase uniforme. Nos grandes veículos de comunicação, vacinas foram vendidas como a solução para vencer a guerra contra o vírus que surgiu na China. Já os medicamentos amplamente utilizados para outras doenças foram desacreditados e varridos para debaixo do tapete. Depois de estudar o comportamento da imprensa, o jornalista Claudio Odri escreveu o livro Como a Pandemia Mudou o Jornalismo – Os Bastidores dos Conflitos de Interesse que a Imprensa Não Investiga!, lançado em e-book pela editora CdClip Produções.

Capa | Foto: Reprodução/Andrea Marquezi Odri

Com mais de 25 anos de carreira, Odri afirma que o jornalismo praticado nas grandes redações deixou de lado algumas de suas principais características: a dúvida e a curiosidade. “O jornalismo nessa pandemia semeou medo, cultivou desinformação e agravou a situação, ao trabalhar para dar coerência a eventos e contrariar fatos”, escreveu ele. “Ao abrir mão da dúvida, da curiosidade, das perguntas e da checagem de informações, o jornalismo colocou em risco as bases que definem sua relação com a audiência: credibilidade, cumplicidade e confiança.”

-Publicidade-

O jornalista acredita que a participação das big pharmas e da Organização Mundial da Saúde foi fundamental nesse processo. Segundo o autor, os gigantes da indústria farmacêutica aprenderam o que fazer para dominar a opinião pública com a experiência passada na pandemia de 2009, do vírus H1N1. Odri concedeu uma entrevista sobre seu livro a Oeste. Acompanhe abaixo os melhores momentos.

Por que escrever um livro sobre esse tema?

Começamos o ano de 2020 preocupados com as notícias que vinham da China. Qualquer um que acompanha noticiários sérios sabe que as pandemias deste século tiveram origem na China. Administrar 1 bilhão e meio de pessoas é um problema, independentemente do viés político ideológico. Fizemos o Carnaval no Brasil e, nessa altura, as notícias já eram preocupantes. Em março, começamos o período de lockdown para “achatar a curva” e não colapsar o sistema de saúde. Quando comecei a ver o grau de histeria que tomou conta dos noticiários, comecei a checar as informações. É um velho hábito desde os meus tempos de redação. Toda história tem, pelo menos, dois lados, e, como Nelson Rodrigues, também acho que toda unanimidade é burra. Já estávamos em um ambiente politicamente conflagrado, no Brasil e em boa parte do mundo. Crise de lideranças, disputas ideológicas e uma superficialidade irresponsável em todas as áreas para tratar de temas complexos em meia dúzia de frases ao arrepio da história. A combinação dessas coisas todas me fez despender uma atenção extra ao tema. Quando eu e minha esposa pegamos covid-19 sem colocar os pés para fora de casa, a indignação se transformou numa terapêutica obsessão, com metodologia.

Qual sua avaliação sobre o papel que a mídia tradicional está desempenhando durante a pandemia?

A coisa que mais me chamou a atenção foi a falta de curiosidade elementar. Abrir mão da dúvida e não fazer perguntas relevantes e incômodas aos governantes e autoridades foi da subserviência com os “aliados” à virulência com os “inimigos”. A combinação da política com a ciência foi um fiasco. A imprensa colocou um alvo nas costas do governo e, independentemente da ação, ele estava errado a priori. Faltou responder perguntas elementares como os motivos que levaram a Organização Mundial da Saúde a demorar tanto a declarar a pandemia.

“Quando a mídia, independente da escolha, se nega a dar voz ao outro lado, ela está comprometendo a manutenção do jornalismo, da imprensa”

Como as mídias sociais ganharam espaço na divulgação de informações nesta crise global?

Por razões que a história ainda vai revelar, vimos a imprensa tomar partido e escolher um lado. É importante dizer que não há imprensa, ponto de vista ou opinião isentos. Agora, é preciso um mínimo de bom senso para não comprometer a credibilidade, que é a única coisa que o jornalismo tem para vender. Quando a mídia, independente da escolha, se nega a dar voz ao outro lado, ela está comprometendo a manutenção do jornalismo, da imprensa. As redes sociais e as plataformas oferecem uma série de alternativas. Se a imprensa não informa, a audiência cética vai atrás de outras fontes de informação. A questão das vacinas e o passaporte sanitário são exemplos emblemáticos do fracasso da imprensa no debate de ideias. É uma discussão surreal com os fatos destruindo as narrativas sobre a eficácia das vacinas ou sobre a vacinação em crianças. Apesar disso, a mídia mantém o mantra de que “vacinas salvam”, sem trazer a verdadeira discussão para o debate.

Sua pesquisa mostrou que as big pharmas entram no jogo para influenciar a opinião pública. Como os gigantes da indústria farmacêutica se beneficiam dessa narrativa?

O estudo Lessons from Pandemic Influenza A(H1N1): the Research-Based Vaccine Industry’s Perspective, realizado em fevereiro de 2011, sob a perspectiva da indústria farmacêutica, faz uma análise crítica da pandemia de 2009. O documento mostrou erros, acertos e medidas de correção para uma futura crise sanitária. Entre elas, o estudo ressalta que será preciso utilizar novas abordagens de comunicação sobre as preocupações com relação à segurança das vacinas. Sugere ser preciso ganhar a confiança do público e convencê-lo da importância da vacinação, como se não soubéssemos disso. É um processo de aperfeiçoamento dos mecanismos comerciais das big pharmas, da OMS e de governos mundo afora. Toda vez que a OMS declara pandemia, aciona-se um gatilho de compras de vacinas e antivirais. É um processo automático e silencioso. Foi isto que a União Europeia questionou em 2010. Esse estudo de 2011 fazia sugestões para aprimorar esse processo, principalmente cuidando da comunicação e das redes sociais, porque essas produziram atraso no passado e merecem atenção para evitar problemas agora. Eles fizeram a lição de casa, e o jornalismo, nesse contexto, foi uma decepção.

Quais influenciadores digitais brasileiros e estrangeiros o senhor poderia citar como referência que fizeram um bom trabalho de informação ?

De modo geral, todos aqueles médicos, pesquisadores e cientistas que rejeitaram o conformismo dogmático à espera da vacina mereceram minha atenção. Os sites Front Line COVID-19 Critical Care, o Alliance Prevention & Treatment Protocols for COVID-19 e o Médicos Pela Vida merecem destaque, além de profissionais da saúde, como a médica Nise Yamaguchi, Paulo Zanotto, Francisco Cardoso, Ricardo Zimmerman, Paulo Porto de Melo, Roberto Zeballos, Roberta Lacerda, Raissa Soares, Alessandro Loyola, Didier Raoult, Zelenko, Robert Malone, entre outros, fizeram arejar a conversa sobre a pandemia. Certamente, estou sendo injusto com um monte de gente que desafinou o coro dos contentes, trouxe mais informações e esperança sobre o tema.

-Publicidade-
Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.