Por que tensão entre China e Taiwan reacende temor de novo conflito armado?

Visita da presidente da Câmara dos EUA à ilha jogou mais pólvora em uma bomba que pode explodir a qualquer momento
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A ameaça de invasão oscila de tempos em tempos, mas ganhou mais intensidade recentemente
A ameaça de invasão oscila de tempos em tempos, mas ganhou mais intensidade recentemente | Foto: Tomasz Makowski/Shutterstock

A viagem a Taiwan de Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, ganhou os holofotes na semana passada e elevou a temperatura na região. Desde a visita da democrata, a China impôs sanções econômicas contra o vizinho e iniciou uma série de exercícios militares ao redor do arquipélago.

Em linhas gerais, Pelosi jogou mais pólvora em uma bomba que pode explodir a qualquer momento. Isso porque China e Taiwan têm uma “questão familiar” longe de ser apaziguada. Há anos, os chineses consideram a ilha como parte integrante de sua república comunista. Já os taiwaneses pensam diferente.

Especula-se na imprensa norte-americana que Nancy tem negócios com empresas de semicondutores de Taiwan e passou pela ilha para colher dividendos eleitorais. Em novembro, nas eleições legislativas, os democratas devem perder o controle do Parlamento para o Partido Republicano.

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A presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi (de vestido rosa), desembarca em Taipé, capital de Taiwan, para estreitar laços diplomáticos com a ilha – 02/08/2022 | Foto: Divulgação/Nancy Pelosi/Twitter

Origem da tensão entre China e Taiwan

Taiwan é uma democracia, com liberdade de imprensa. Também tem uma economia própria e pujante: é a 21ª do mundo (razoável para um país de apenas 23 milhões de habitantes). Além disso, sua indústria de tecnologia tem um papel importante: é líder global no fornecimento de chips semicondutores.

A ilha deixou de fazer parte da China em 1949, quando o Partido Nacionalista Chinês (conhecido como Kuomintang) foi derrotado pelo Partido Comunista, de Mao Tsé Tung, explicou Marcus Vinicius de Freitas, especialista em Taiwan. “Os líderes do Kuomintang fugiram do continente e estabeleceram uma nova capital em Taiwan”, disse. “Pelo ponto de vista deles, a ilha agora é a nova China.” O nome oficial de Taiwan é República da China, enquanto sua rival tem uma palavra a mais na certidão: República Popular da China.

Em 1949, a cadeira chinesa na ONU passou a ser ocupada por Taiwan. Naquela época, a China comunista era tida como pária internacional, mas o cenário mudou em 1971, quando o país obteve um reconhecimento internacional abrangente com a visita do então presidente dos EUA, Richard Nixon. Dali em diante, a China continental assumiu o posto da China insular e Taiwan segue fora da ONU. Hoje, apenas 15 países reconhecem Taiwan como nação soberana (o mais relevante entre eles é o Paraguai).

Enquanto isso, o Partido Comunista acredita na tese segundo a qual há uma só China, e que Taiwan faz parte dela. Mesmo assim, a soberania da ilha existe na prática (ela tem suas próprias Forças Armadas, Parlamento, presidente e economia), mas não se sabe por quanto tempo essa liberdade vai durar.

Ucrânia x Rússia

Os chineses têm tolerado a autonomia de Taiwan. A ameaça de invasão, contudo, oscila de tempos em tempos e ganhou mais intensidade recentemente. Não porque os taiwaneses fizeram algo diferente ou mais ousado do comum, mas por causa dos movimentos geopolíticos de outros países.

A invasão russa na Ucrânia pode parecer aos chineses um bom pretexto. Se a Rússia ataca um país reconhecidamente soberano, por que a China não tomaria, com mais de 2 milhões de soldados, uma ilha que até a Organização das Nações Unidas diz que pertence a ela?

Em meio a tudo isso, há o fator de desmoralização dos Estados Unidos perante o mundo em virtude das políticas atabalhoados do presidente Joe Biden. A primeira delas foi a retirada desastrosa das tropas norte-americanas do Afeganistão, no ano passado. Acrescente-se a isso a viagem de Nancy Pelosi.

Possível conflito

Rafael Fontana, jornalista e autor do livro Chinobyl: Uma Jornada pelas Entranhas da Ditadura Comunista, explica que Biden criou “um grande impasse internacional” ao deixar a Ucrânia sozinha no confronto com a Rússia.

Fontana não descarta uma invasão chinesa a Taiwan. Ele avalia, contudo, que isso demoraria mais, sobretudo porque o Partido Comunista da China vai realizar uma convenção em outubro. Nela, o secretário-geral da sigla, Xi Jinping, deve receber um terceiro mandato inédito. Portanto, uma guerra neste momento não seria vantajoso para Xi.

“Uma invasão pode ocorrer a qualquer hora”, constatou Fontana. “Mas, para isso, exige-se um longo processo que demanda tempo, mobilização de soldados, equipamentos e muito dinheiro. Não se invade uma ilha tão facilmente. Não se pode esquecer ainda da possível participação de outros países na defesa de Taiwan, como os próprios Estados Unidos.”

Leia também: “Devagar, malfeito e complicado”, artigo publicado na Edição 102 da Revista Oeste

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