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Três vezes nada

"A catástrofe nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil não rolou — e nem poderia ter rolado, já que nunca existiu", afirmou J.R. Guzzo
Fotomontagen/Revista Oeste
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“A catástrofe nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil não rolou — e nem poderia ter rolado, já que nunca existiu”, afirmou J.R. Guzzo

três vezes nada
Se nem Donald Trump havia reconhecido a vitória de Biden, por que raios o Brasil teria de dar palpite antes do resultado oficial? | Fotomontagen/Revista Oeste

(J.R. Guzzo, publicado no jornal Gazeta do Povo em 25 de dezembro de 2020)

Um dos melhores aspectos das más notícias que a mídia soca dia e noite em cima do público é o fato, bem mais comum do que se poderia imaginar, de que uma parte considerável dessa desgraceira acaba dando em três vezes nada. Ou seja: a coisa nunca foi tão feia assim, ou melhorou com o passar do tempo. Uma das conclusões possíveis desse fato é que o leitor, ouvinte e etc, em geral vai fazer um bom negócio para si mesmo se der menos atenção a esse cataclisma em modo contínuo que lhe é servido no noticiário cotidiano.

O recente episódio do “não cumprimento” a Joe Biden por sua vitória nas eleições presidenciais dos Estados Unidos promete ficar como um dos clássicos do gênero. Na época, foi um escândalo. “Que loucura”, foi dito em nove de dez comentários dos especialistas em questões diplomáticas e conexas. Como o governo brasileiro faz uma coisa dessas? O presidente Biden vai ficar muito bravo com o Brasil, e depois de tomar posse no seu cargo com certeza mandará o governo norte-americano adotar represálias possivelmente fatais contra o Brasil.

Havia vários problemas com essa história. O primeiro era supor que Biden estivesse preocupadíssimo com o Brasil. O segundo é que ele tivesse ficado ofendido com a ausência de felicitações por parte do presidente Jair Bolsonaro — quer dizer, isso no caso de ter realmente sabido que não fora felicitado.

O terceiro é achar que o presidente americano pode fazer o que lhe der na telha em matéria de política externa, ou interna, ou de qualquer tipo. O quarto é que as centenas de bilhões de dólares envolvidos no comércio Brasil-Estados Unidos e nos capitais americanos investidos aqui seriam simplesmente riscados do livro-razão para atender a possível bronca de Biden. E por aí se vai.

Passou o tempo e o que aconteceu? Bolsonaro cumprimentou o seu novo colega no exato momento em que o colégio eleitoral dos Estados Unidos anunciou oficialmente a vitória de Biden. Foi a mesma atitude da Rússia, do México e de outros países essenciais para a diplomacia norte-americana, que também estavam esperando o anúncio oficial para se manifestar a respeito.

Outra coisa: se nem Donald Trump, que é o presidente dos próprios Estados Unidos, havia reconhecido a vitória de Biden, por que raios o Brasil teria de dar palpite antes do resultado oficial?

A catástrofe nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil, no fim das contas, não rolou — e nem poderia ter rolado, já que nunca existiu. No momento, as duas partes fazem discurso sobre a excelência de suas relações mútuas.

Leia também: “A obsessão da imprensa por Donald Trump”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na edição n° 36 da Revista Oeste

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7 comentários

  1. A grande imprensa que já foi o QUARTO PODER é hoje, por méritos próprios, cúmplice ela própria de seu completo descrédito junto à população brasileira formadora de opinião, hoje 70 milhões de brasileiros conservadores.

    Faturamentos deixam de ser mantidos nos mesmos níveis, pois é mais do que lógico que esses consumidores, apenas “espiam” seus noticiários televisivos e jornais, intuindo não preferenciar produtos veiculados nessa imprensa impatriotica.
    O próprio mercado vem mostrando o desastre a que se propuseram esses veículos, simplesmente por questões ideológicas.
    Este bom governo que aí está, perdurará até 2.026 com certeza, e nunca perdoaremos os malfeitores da Pátria, q encamparam uma “resistência” anunciada por ORCRIMS que com incompetência e roubalheira, levaram o PAÍS à lona.

  2. A imprensa como a conhecemos, digamos, quinze ou vinte anos atrás, morreu, se tornou irrelevante. o que temos hoje é militância. Militantes disfarçados de jornalistas. Aliás, aquí mesmo na Oeste encontramos alguns.
    Hoje, básicamente, temos dois tipos de jornalistas: queles que procuram informações fidedignas no imenso universo de sites a disposição na internet e aqueles que seguem o New York Times, Washington Post e The Guardian.
    Esses não servem prá nada.

  3. “Uma das conclusões possíveis desse fato é que o leitor, ouvinte e etc, em geral vai fazer um bom negócio para si mesmo se der menos atenção a esse cataclisma em modo contínuo que lhe é servido no noticiário cotidiano.”
    Nos últimos tempos, tenho usado a chamada “grande imprensa” para dar boas gargalhadas.As contradições são tantas que virou comédia pastelão.

  4. Lamentavelmente sempre foi a grande critica ao governo Bolsonaro, da Globo, CNN, BandNews, Cultura, Folha e Estadão. Esqueci de algum outro meio de DESINFORMAÇÃO?

  5. Mais uma vez um bom texto. Nota 9,55. Sobre os comentários de outros leitores, também são bons.
    O que os bichos aqui do sertão profundo pensam é que parte da imprensa não se deram conta que estão inferno e nem sabem qual a saída.

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