Não! A pessoa que dá à luz não é o pai - Revista Oeste

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Não! A pessoa que dá à luz não é o pai
Está em curso um movimento com o propósito de eliminar as distinções biológicas entre homens e mulheres e dessexualizar a gravidez. E o termo “mulher grávida” passa a ser visto como excludente
22 Maio 2020, 10:40

Há alguns dias, sir Andrew McFarlane, presidente da Divisão de Família da Alta Corte Britânica, decidiu que uma pessoa transexual de Kent, que deu à luz com a ajuda de tratamentos de fertilidade, não pode ser registrada na certidão de nascimento como pai da criança.

Devido a uma crescente confusão sobre quem é e quem não é pai ou mãe, o juiz sentiu-se obrigado a fornecer a primeira definição legal de mãe na lei comum inglesa. Para variar, o senso comum prevaleceu, e ele determinou que a maternidade está relacionada à gravidez e ao parto. E decidiu que alguém que dá à luz a um bebê é legalmente a mãe e não pode, depois, insistir em ser registrado como pai.

Bem-vindo a um novo mundo, em que um número cada vez maior de pessoas transexuais insiste que tem o direito de decidir se são a mãe ou o pai de seus filhos! Neste novo mundo, as cortes, os políticos e os ativistas trans muitas vezes conseguem dissociar a ideia de maternidade e paternidade da distinção biológica entre homem e mulher. Na Holanda, por exemplo, “homens trans” que têm sistema reprodutivo e dão à luz podem ser registrados como pais.

Isso pode ser novidade para os brasileiros, mas quase todo o mundo ocidental está sendo assolado por uma cultura de confusão relacionada a gênero e sexo: uma cultura que questiona a biologia. Para o establishment cultural ocidental, a diferenciação tradicional não é apenas antiquada. Ela é discriminatória. Aqueles de nós que ainda acreditam que a distinção tradicional entre homem e mulher não é um costume arbitrário, mas a base da vida humana e familiar, muitas vezes enfrentam a acusação de que suas opiniões perigosas representam uma ameaça para a saúde mental das pessoas trans.

Qualquer um que ouse questionar o consenso trans da elite cultural ocidental se torna alvo de uma cruzada contra a visão tradicional da distinção biológica entre homem e mulher. Na Europa, o governo húngaro é constantemente vilanizado por estar considerando uma lei que revogue o reconhecimento legal de pessoas transgênero. O objetivo do projeto de lei é garantir que, uma vez que o sexo da pessoa seja registrado por um cartório húngaro, não seja possível mudar o gênero legalmente reconhecido. O governo da Hungria está sofrendo forte pressão internacional para abrir mão do plano. Foi acusado de levar pessoas trans ao suicídio. A comissária de Direitos Humanos do Conselho da Europa, Dunja Mijatović, solicitou que o Parlamento húngaro não adote a lei e afirmou que a medida feria a jurisprudência da corte europeia de direitos humanos.

O projeto de eliminar a distinção sexual entre masculino e feminino também voltou suas forças para eliminar a conexão entre mulheres biológicas e o ato de parir.

Em um mundo em que alguém que deu à luz pode afirmar ser o pai não é uma surpresa descobrir que o termo “mulher grávida” com frequência é criticado como excludente. A orientação da Associação Médica Britânica (BMA, na sigla em inglês) sobre “linguagem inclusiva” aconselha que seus leitores evitem o termo estereotipado “mulher grávida”. Por quê? Porque, apesar de “uma vasta maioria de pessoas que engravidam se identificarem como mulheres”, aparentemente existem “homens intersexo e trans que podem engravidar”. A BMA aconselha que, por uma questão de linguagem inclusiva, convém utilizar o termo “pessoas grávidas”. Considerando o fato de que quase todas as gestações envolvem alguém em poder de seu órgão reprodutor feminino, a tentativa de eliminar o termo mulher grávida é amparada pelo imperativo de dissociar as mulheres da maternidade.

Dessexualizar a gravidez constitui o estágio seguinte na campanha para eliminar a distinção entre homens e mulheres. Um artigo recente de David Fontana e Naomi Schoenbaum na Columbia Law Review questiona a “gravidez sexuada”. O texto, “Unsexing Pregnancy”, trata principalmente de dessexualizar o trabalho assistencial. No entanto, ao questionarem a gravidez como uma “experiência sexuada única para as mulheres”, os autores implicitamente reformulam a experiência em termos sexualmente neutros. Outros foram além. Jessica A. Clarke sugere que a “lei pode ver a gestação não como algo que só acontece com o corpo das mulheres, mas também como uma situação corporal vivenciada por pessoas que não se identificam como mulheres”.[i] Eles também gostariam de ver mudanças na terminologia de “mulheres afetadas pela gravidez” ou “mães gestacionais” para “pessoas afetadas pela gravidez” ou “progenitor gestacional”. Mudar a linguagem de vida cotidiana cumpre o objetivo de alterar a cultura. “Mudanças semânticas teriam um expressivo valor ao deixar claro que todas as pessoas grávidas merecem inclusão”, argumenta Clarke.

Infelizmente, essa retórica de inclusão torna a maternidade invisível e insignificante, e a gravidez, um feito técnico realizado por indivíduos neutros binários dessexuados.

A subordinação das diferenças de sexo biológicas ao imperativo da neutralidade binária transforma a concepção e o ato de trazer crianças ao mundo em um melodrama construído socialmente. Como sempre, serão os frutos desse experimento de inclusão que pagarão o preço pela confusão dos mais velhos.

As tentativas de diminuir as distinções biológicas e dessexualizar a gravidez têm enormes implicações para a identidade humana. Quando as pessoas puderem obter reconhecimento legal para mudar sua certidão de nascimento de modo a refletir o desejo de alterar seu sexo, uma verdade fundamental sobre a vida se perde. Mais importante, ao reescrever uma certidão de nascimento, a importância e o significado desse documento são banalizados. Quando o ato de nascer pode ser reescrito e sujeitado a uma constante reinterpretação, a certidão de nascimento de todo mundo perde sua importância simbólica. A questão aqui não é simplesmente o que as pessoas trans fazem com a própria vida, mas como sua demanda pela dessexualização da gravidez muda nossa vida.

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Frank Furedi é professor emérito de Sociologia na Universidade de Kent, na Inglaterra. Colunista da Spiked Magazine, é autor de livros considerados clássicos sobre temas como medo, paranoia e guerra cultural, como How Fear Works (2018) e First World War — Still No End in Sight (2016). Lançará no próximo mês Why Borders Matter: Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Borders (Routledge).

 

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8 Comentários

  1. Misericórdia!!! Onde esse pessoal está querendo chegar?

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  2. Todo sujeito tem direito a escolher um sistema de crenças, suas próprias “neuroses” particulares para enfrentar a realidade. Mas é preciso um limite à definições humanas que não sejam relevantes à vida. Estamos num mundo onde as pessoas querem ser e parecer tão especiais que, frequentemente, acabam engolidas pelo ressentimento de suas decisões. Às vezes, um pouco de simplicidade já faz uma enorme diferença.

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    • Um grupo ínfimo da sociedade quer impor à maioria seus pensamentos. Para se sentirem bem, coisa que acredito nunca vão conseguir, querem causar vergonha na esmagadora maioria por não concordarem com suas ideias! Respeito suas escolhas mas querer me obrigar a pensar e agir como eles acho que já é demais!

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      • Exatamente, é o rabo balançando o cachorro. Minorias não têm nada que mexer no que a maioria acredita. Que sejam respeitados, sim, mas não que virem os ditadores de regras

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      • Faço minhas suas palavras, Marco Aurélio. Fico indignada que uma minoria queira mudar toda uma sociedade. Absurdo!

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  3. Este tema concentra o cerne da política mundial atual. Toda a problemática econômica e geo-política que está levando o mundo ao caos envolve exatamente a EXACERBAÇÃO da vontade de uma MINORIA em detrimento da gigantesca maioria. Todas as pessoas esclarecidas, bem informadas e que não entendem política como escape emocional ou oportunidade para extravasão de passionalismo admitem a existência de um PODEROSO MOVIMENTO GLOBALISTA MUNDIAL em operação desde o final do Sec. 19, PENSADO, ORGANIZADO, PRATICADO E COMANDADO por uma ELITE MULTI-TRILHARDÁRIA INTERNACIONAL (aética, amoral, sem ideologia politica definida e ateísta) cujo GRANDE OBJETIVO É ASSUMIR O COMANDO DA POLITICA MUNDIAL. Essa Elite Globalista age nos subterrâneos políticos de todas as ideologias – através da infiltração e/ou da corrupção – tem como meio escolhido o enfraquecimento econômico, politico, social e institucional de todas as Nações Soberanas existentes, a destruição de suas ideologias, suas crenças religiosas e seus valores culturais que garantem a sua UNIDADE e capacidade de resistência. Todos os poderes políticos Nacionais/Locais seriam substituídos por um governo mundial global, com uma ideologia hegemônica única, através da ONU e seus órgãos satélite (todos já dominados). Muitos estão se referindo a esse movimento como a NOVA ORDEM MUNDIAL. Como se vê, a ideia é uma NANO-MINORIA MINORIA dominar TODOS OS POVOS. E tudo sob um pretexto PACIFISTA HUMANISTA. Vale dizer, á custa da perda de todas as nossas liberdades individuais, de nossos valores e crenças, alé de nossa Nacionalidade, nos prometem a inexistência de guerras, um mundo de harmonia e sem fome. Pois eles se incumbiriam de gerenciar todos os sistemas de produção e assumiriam o comando de todos os exércitos. Uma verdadeira poesia. Como se no mundo todo só existissem idiotas comunistas que negam até hoje os genocídios de mais de 100 milhões de pessoas.

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  4. Nosso mundo está querendo mudar a biologia. A verdade é que homens e mulheres são ESSENCIALMENTE iguais, mas, acidentalmente (e felizmente), diferentes. A família tradicional é pai, mãe e filhos.

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    • As gerações mais jovens vivem numa espécie de limbo moral causado pela destruição dos seus valores, da sua inteligência e, por fim, da sua sanidade mental e habilidades cognitivas. Discutir com seriedade a estapafúrdia ideologia de gênero e suas derivadas, como essas apresentadas nesse belo texto do Frank Furedi, é tão ridículo que acaba por silenciar boa parte das vozes dissonantes. Pouca gente com juízo, maturidade, lucidez e boa reputação investiria tempo e talento a debater com um bando de desajustados mentais, deformados morais e amputados cognitivos. E é justamente por isso que essa loucura prospera tanto no ocidente. A vergonha mudou de lado pelas mãos do politicamente correto e já passou da hora de a devolvermos a quem é de direito, e de fato.

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