Não existe cura para o terrorismo - Revista Oeste

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Não existe cura para o terrorismo
Enquanto jovens terroristas locais forem considerados pessoas vulneráveis e psicologicamente desorientadas, a Europa não conseguirá conter a ameaça que representam
20 nov 2020, 05:00

No início do mês, mais uma vez um ato criminoso foi cometido por um terrorista condenado, que só cumpriu parte de sua sentença por “crimes de terrorismo ligados ao islamismo”. As ruas de Viena foram pintadas de sangue porque um jihadista decidiu que o assassinato de civis inocentes mandaria uma mensagem importante ao mundo.

O homicida morto pela polícia era um terrorista que foi preso, condenado a 22 meses, em abril de 2019 depois de tentar chegar à Síria, tomada pela guerra, para se juntar ao Estado Islâmico. O homem, de 20 anos, foi liberado no começo de dezembro passado por causa de um abrandamento da pena destinado aos jovens.

Uma razão para a liberação antecipada foi o fato de ele aparentemente ter concluído com sucesso um programa de desradicalização oferecido para terroristas condenados nas prisões austríacas.

Como alguém que vive no Reino Unido, tenho familiaridade com as consequências devastadoras da crença equivocada de que a maneira de curar o terrorismo é enviar os criminosos para um programa de desradicalização. Sudesh Amman, 20 anos, que foi libertado da prisão no começo de 2020, deve ter rido da ingenuidade do sistema britânico, que acabou facilitando o tumulto violento que ele causou em Streatham. Amman esfaqueou duas pessoas antes de ser baleado pela polícia.

Que as práticas correntes usadas para monitorar e lidar com terroristas condenados são extremamente ineficientes foi demonstrado em novembro de 2019, quando Usman Khan, liberado da prisão numa licença, matou duas pessoas perto da Ponte de Londres.

É amplamente reconhecido que terroristas condenados não são “curados” na prisão. Também é sabido que, quando muito, pessoas que cumprem pena estão muito mais propensas a se sentir atraídas pela perspectiva de detentos jihadistas radicais do que a adotar uma visão democrática e tolerante do mundo. Também é evidente que os programas oficiais de desradicalização são ineficazes. Indivíduos que abraçaram fanaticamente uma visão de mundo jihadista o fizeram em reação ao que consideram uma necessidade real. Participar de oficinas de escrita criativa, teatro ou islamofobia não ajuda a oferecer aos detentos uma alternativa contundente para sua perspectiva escolhida.

Os jihadistas decidiram declarar guerra à comunidade onde vivem

Deveria ser evidente que a maneira como terroristas detentos são tratados precisa ser reformulada. Como primeiro passo, é essencial que os vários programas de desradicalização sejam interrompidos. Como o dr. Simon Cottee, criminologista da Universidade de Kent, explica: “O problema com a desradicalização é que não sabemos se ela funciona. Não sabemos nem se faz sentido reformar ou ‘reprogramar’ jihadistas”. Cottee acrescenta que “esses programas com frequência capacitam uma turma de empreendedores do extremismo de formação questionável”.

O fracasso do sistema existente não é simplesmente o resultado da incompetência e da ingenuidade institucional. Políticos costumam demonstrar uma falta de compreensão peculiar do desafio que enfrentam. Uma razão para sua falta de clareza é o preconceito bastante difundido que retrata terroristas em potencial como jovens adultos equivocados e “vulneráveis” que foram preparados e “radicalizados” por jihadistas cheios de carisma.

Enquanto jovens terroristas locais forem considerados pessoas vulneráveis e psicologicamente desorientadas que são fruto da radicalização, a sociedade não vai conseguir conter a ameaça que representam. É muito mais correto enxergar os terroristas assombrando as ruas de Londres, Paris ou Viena como indivíduos que fizeram uma escolha e decidiram declarar guerra à comunidade onde vivem.

Frequentemente, esses indivíduos tomaram a iniciativa de se familiarizar com o extremismo islâmico por meio de sites e publicações jihadistas. Eles são menos os objetos passivos da radicalização do que sujeitos que escolheram uma nova identidade e uma forma de viver. Quando essa identidade se torna parte de sua personalidade, embarcam em uma jornada que os afasta cada vez mais da sociedade em que cresceram. Deixam de ser jovens à procura de uma causa e se tornam, voluntariamente, inimigos da sociedade.

Precisamos aceitar o fato de que algumas pessoas têm diferenças irreconciliáveis com nosso modo de vida

Em um sentido, a dificuldade que sucessivos governos ocidentais tiveram ao lidar com o terrorismo nacional é compreensível. É difícil aceitar que muitos jovens muçulmanos escolheram odiar a sociedade em que vivem. Muitos governos não estão preparados para enfrentar o fato de que existe um grupo considerável de pessoas que, na verdade, odeia um modo de vida democrático e olha para seus concidadãos com desprezo. É ainda mais difícil reconhecer que alguns atravessaram o limite e foram para o outro lado.

Muitos no Ocidente se recusam a aceitar o fato de que sociedades ocidentais e cristãs se tornaram alvos terroristas. Depois da recente decapitação de um professor em Paris, seções da mídia ocidental — por exemplo, The New York Times e The Washington Post — sugeriram que, ao permitir a publicação de cartuns sobre o profeta Maomé, a França provocou o ataque. O argumento é defendido vigorosamente pelo covarde primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, que criticou os franceses por não entenderem que “a liberdade de expressão tem limites”.

Na verdade, a reação assustada aos ataques ao modo de vida francês não poupa seus proponentes da fúria dos jihadistas. Todos somos alvos! Se até a Áustria, que fez o que pôde para acolher, e chegou a ponto de reconhecer o islamismo como uma de suas religiões oficiais, pode se tornar alvo do terrorismo islamista, está claro que a ameaça se tornou um fenômeno global.

Está na hora de um pouco de realismo maduro prevalecer. Precisamos aceitar o fato de que algumas pessoas têm diferenças irreconciliáveis com nosso modo de vida. Também precisamos entender que algumas dessas pessoas vão fazer o que puderem para nos aterrorizar e que não podem ser salvas, curadas ou desradicalizadas. Precisamos ser pelo menos tão convictos em defender nosso modo de viver quanto eles são em sua tentativa de destruir nosso mundo. Eles precisam ser desativados, não desradicalizados.


Frank Furedi é professor emérito de Sociologia na Universidade de Kent, na Inglaterra. Colunista da Spiked, é autor de livros considerados clássicos sobre temas como medo, paranoia e guerra cultural, como How Fear Works (2018) e First World War — Still No End in Sight (2016). Seu último livro, Why Borders Matter: Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Boundaries, foi lançado em julho pela Routledge.

 

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4 Comentários

  1. Artigo excelente! E corajoso! Muito bom os autores estrangeiros publicados pela Revista Oeste!

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  2. Assino embaixo. Churchill propôs o fim do nazifascismo com “rendição incondicional”. Não há conversa civilizada com terroristas simulados ou declarados, há sim, aplicação da lei e objetividade real de que a grande maioria já se tornou mente criminosa por decisão própria e não tem conserto. Pena de morte aos casos graves, prisão perpétua aos demais, após julgamentos imparciais

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  3. Artigo irretocável! Enfim uma mente lúcida e destemida que escancara a realidade para que todos possam enxergar o óbvio! Será que a sociedade ocidental vai seguir permitindo que extremistas e esquerdistas em geral destruam os valores da nossa civilização clássica e agora – como se fosse algo banal – passem a destroçar pessoas?!

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  4. Simples assim. Irretocável.

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