Não existe impeachment sem povo na rua - Revista Oeste

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Não existe impeachment sem povo na rua
Só aposta no impedimento de Bolsonaro quem acha possível manter a verdade em quarentena
1 Maio 2020, 11:03

No momento em que escrevo esta frase, acumulam-se no gabinete do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, 33 pedidos de abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro. No final deste parágrafo, é provável que a pilha tenha crescido. O que não falta no Brasil é gente capaz de enfrentar esquadrilhas de vírus chineses para conseguir alguns centímetros ou segundos no noticiário político. Os pedintes são congressistas, dirigentes partidários ou sindicais, advogados com tempo de sobra ou dispostos a tudo para escapar do anonimato. As normas que disciplinam o uso do impeachment autorizam qualquer cidadão, com o aval de cinco testemunhas, a requerer o despejo do inquilino do Palácio da Alvorada.

O pedido mais recente foi subscrito por parlamentares do PSB e chegou a Maia no meio da semana. Os signatários atribuem ao presidente da República 11 crimes de responsabilidade, divididos em três categorias. Na primeira figuram os delitos denunciados pelo ex-ministro Sergio Moro. A segunda agrupa os que puseram em perigo a democracia e as instituições. Na terceira estão os crimes relacionados com a pandemia de covid-19. Pela barulheira dos bucaneiros da imprensa que fecharam o cerco em torno do Planalto em 1º de janeiro de 2019, a cada pedido de impeachment Bolsonaro sobe mais um degrau do cadafalso. Ignoram ou fingem ignorar, o que dá na mesma, que basta a aceitação de um único pedido pelo presidente da Câmara para que o processo comece a tramitar no Congresso. Tampouco se rendem aos fatos: Rodrigo Maia não vai aceitar nenhum.

Não porque não queira, mas pela força dos fatos. Aos 49 anos, o morubixaba da Câmara é um dos mais jovens velhos políticos do país. Maiorais dessa tribo jamais embarcam em aventuras de desfecho incerto, e sofrem de uma aversão invencível ao cheiro de derrota. Maia sabe que a aceitação de um pedido é apenas a largada da corrida de longa distância. Em seguida o processo é remetido a uma comissão multipartidária formada por 66 deputados, que decidem se o processo deve ser submetido à votação no plenário. Ultrapassada essa etapa, o pedido de impeachment precisa ser encampado por dois terços dos 513 componentes da Câmara para ser encaminhado ao Senado, que decidirá em duas votações o destino do presidente. A primeira decide por maioria simples se o processo preenche os requisitos legais. O afastamento do chefe de governo será consumado se, na segunda votação, for aprovado por dois terços dos senadores.

Isso é o que diz a lei. Mas é o povo quem dita o ritmo do processo e o destino do acusado. O povo nas ruas impediu que o impeachment interrompesse antes do suicídio o governo constitucional de Getúlio Vargas. A indiferença dos brasileiros apressou o despejo de Carlos Luz e Caffé Filho, presidentes interinos em 1955. No começo dos anos 90, Fernando Collor tentou uma contraofensiva com o apelo patético — “Não me deixem só!” —, e a convocação de manifestações de apoio. Um mar de cabeças pintadas cobriu praças e avenidas exigindo o impeachment do quarentão arrogante, e Collor preferiu a renúncia para escapar da deposição humilhante. A última vítima, Dilma Rousseff, teve a queda desenhada por portentosas manifestações populares que provocaram conversões fulminantes mesmo entre comparsas juramentados do PT.

Ao perderem oficialmente o cargo, Collor e Dilma já haviam perdido o poder e amargavam índices de popularidade siberianos.

Não é o caso de Bolsonaro. Repórteres que contemplam Lula com olho rútilo e lábios trêmulos de admiração, na imagem perfeita de Nelson Rodrigues, enxergam em Bolsonaro o grande Satã que se aproxima do despenhadeiro a cada frase infeliz, a cada derrapagem na curva fechada, a cada manobra de alto risco. Colunistas que erram até previsões sobre o passado capricham nas acrobacias cerebrais para avisar em que dia e hora a cabeça do presidente rolará rumo à planície. Desmentidos por pesquisas de opinião e pelas redes sociais, culpam a desinformação e o primitivismo da plebe pelo cálculo equivocado e tratam de rascunhar a profecia seguinte. Quem se orienta pela imprensa convencional soube que Bolsonaro foi derrotado no segundo turno por qualquer adversário, como preveniram os institutos de pesquisas. E agora vai ter o mandato ceifado pelo impeachment. Parece estranho. Mas é o que dizem os jornais.

O problema é que, goste-se ou não do personagem, os fatos berram o contrário do que dizem os jornais.

Eleito há um ano e meio, o presidente só se arriscará a ter o mandado amputado caso resolva meter-se uma vez por hora nas complicações em que se enfia uma vez por semana. Ou não: as colisões com os ministros Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro não reduziram o território ocupado por bolsonaristas irredutíveis. Admita-se que Rodrigo Maia se arrisque a aceitar um dos mais de 30 pedidos de impeachment. A trajetória do processo poderá ser redesenhada pela aparição de um ministério vago, meia dúzia de cargos federais e um punhado de verbas. Imagine-se ainda que, como ocorreu com Dilma Rousseff, Bolsonaro fosse afastado do Planalto e tivesse de esperar no Palácio da Alvorada os próximos capítulos da novela. A presidente incapaz de dizer coisa com coisa vagava pelos gramados feito alma penada. Os adversários de Bolsonaro se assombrariam com a multidão de seguidores decididos a fazer-lhe companhia.

Tudo somado, é evidente que os jornalistas que odeiam fatos teimam em apostar no impeachment para elevar o ânimo beligerante dos companheiros de luta, tapear os leitores, espectadores ou ouvintes e manter a verdade em quarentena. Nunca aprenderão que não existe jaula que aprisione fatos.

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41 Comentários

  1. Prezado Augusto, seu comentário, brilhante, junta-se ao de JR Guzzo e temos o resultado…. Nítido, claro, objetivo, verdadeiro, realista, imparcial e direto.
    O resto …é o resto !!!

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    • Não sei não Augusto Nunes. Tanto você quanto o Guzzo, figura insuspeita, estão apostando n incolumidade do Bolsonaro. Eu não apostaria.Independentemente dos interesses inconfessáveis das lideranças políticas, se o Sérgio Moro, na próxima semana, apresentar provas de que Jair Bolsonaro mentiu na coletiva do dia da sua saída do ministério e que violou a Lei e ofendeu princípios constitucionais que jurou defender, a coisa muda de figura e querendo ou não, Rodrigo Maia será compelido a colocar o impeachment na pauta da Câmara dos Deputados.

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      • Excelente, como de hábito, Augusto! A menos que ocorra alguma hecatombe imprevisível, esses são os fatos, e fatos, como se sabe, são persistentes, não somem com uma canetada, nem de jornalistas e “especialistas” de olho rútilo e lábios trêmulos. Abraço!

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      • A Deputada Carla Zambelli afirma possuir mensagens do Moro nas quais ele assegura que nao renunciaria se o Bolsonaro mantivesse na chefia da PF seu amigo de 20 anos.
        Ora, quer dizer que ele se manteria no governo – mantida sua exigência – mesmo com todos os “podres” que alega , agora, saber?

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        • Corretíssima a sua avaliação.

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      • Mesmo que isto ocorra, ainda vai faltar o ingrediente mais importante para o impeachment, que é justamente do que tratou o artigo, o povo na rua pedindo a cabeça do Presidente.
        Parte das pessoas que elegeram JB, o enchergar como a opção política mais viável para barrar o fortalecimento e a volta da esquerda ao poder. Não vão entregar os pontos assim tão fácil.

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    • Brilhante artigo! Parabéns Augusto e revista Oeste!

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    • Querem impichar um presidente que ainda não assumiu. A política brasileira é um nojo. Elegemos um presidente que não pode governar, que não pode cumprir suas promessas de campanha… Espero que o PR não desista, e se tiver que criar a maior crise institucional da história deste país, que a faça sem demora. É o preço a ser pago por alimentar um sistema absolutamente corrompido..

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      • Verdade. Há um ano e quatro meses levando porrada de todos os lados. Confesso que achava Bolsonaro apenas um político medíocre, mas tenho que reconhecer, pelo menos até o momento, que alma poderosa…

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      • Concordo muito com vc! Todos os que votaram nele o apoiariam nessa empreitada! Crise institucional já!!! 🙂

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      • Talvez ele pudesse governar, se não tivesse os filhos encrencados e com o rabo preso, já fez acordão antes pra salvá-los, então não lhe resta nenhuma opção que não seja arregar!

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    • Augusto Nunes,

      Perfeito o seu comentário, aqui estou por sua causa e de Guzzo, parabéns

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  2. É uma teoria que funciona até certo limite. Esse limite é a exaustão do povo que se dispõe a sair às ruas, agora momentaneamente e convenientemente recolhido às suas residências e impossibilitados de se reunir em grupos. Manietaram o povão, numa boa que antes era controlado pelas polícias e guardas municipais e agora até pelo exército, vou escrever esse último, com “e” minúsculo de propósito. É como o Augusto bem disse, ao fim do dia, estarão mais algumas dezenas de pedidos de impeachment. Até quando o tal “povo nas ruas” irá suportar? Será aí que eles vencerão finalmente.

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  3. A revista OESTE sai na frente, disparada, na prova de revesamento do bastão.Tanto pela qualidade dos colunistas,como pelo deserto e baixíssimo nível dos demais jornais e revistas.Dois fatos ousados e sem medo do Presidente-não é corrupto e em um ano recuperou o país- o colocam ainda como “mito” no sentido do apoio popular.No primeiro demitiu Moro tido como semi-Deus,que hoje vive no ostracismo e anonimato de contínuo (N.R.).No segundo falou grosso e pelo povo, “engasgado”, com um ministro “trapalhão”de um Tribunal sem credibilidade.Parabéns Augusto.

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  4. prezado Augusto, permita-me iniciar e terminar os meus comentários, parafraseando algo que você escreveu quando terminava o seu: os jornalistas da dita grande mídia realmente “odeiam os fatos”.

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  5. Caro Augusto, como sempre, parabéns. O seu texto bate de frente com o do teu colega Diogo Mainardi na coluna desta sexta-feira da revista Crusoé, no qual ele escreve que “ele e a metade do povo brasileiro”” exigem o impeachment do Presidente. Certamente ele deve ter encomendado uma pesquisa com a DataFolha.
    Confesso que me chateia – e por que não dizer aos demais leitores – esse tipo de coorporativismo entre os membros da imprensa em geral, no qual jornalistas não constestam as barbaridades escritas por certos colegas. Uma coisa é nós leitores comentarmos, outra é saber o que você, Guzzo, Fiuza e outros tem a dizer sobre essa maluquice do Diogo.

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  6. Caro Augusto, tomando todas as suas assertivas como 100% corretas, e sei que estão, aproveito para deixar aqui um recadinho meio melancólico aos comunistas de todas as crenças reverberados por este Brasil afora: se com esta pandemia monstruosa jogando a favor, vocês errarem a cesta, desistam de 2022. Façam-nos este favor.

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  7. Lucidez? Quem é este presidente? O mesmo que recebeu 57 mi de votos? Não. Caiu a máscara. Conseguiu derrubar um dos esteios de seu governo e se prepara para o próximo. No meio disto, debocha da população e cria uma força-tarefa de mentiras com os próprios filhos. Seus inimigos são tão podres quanto. É . Vamos aguentar a bronca de novo. É bom Jair se acostumando.

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    • Nilton, tu anda assistindo muito a Globo, ou trabalha em algum sindicato, está descolado da realidade, acreditando em asneiras tipo gabinete do ódio, miliciano, a grande maioria é Bolsonaro e não abre.

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      • Concordo. A imprensa tradicional tao, preocupada com a “rachadinha “ do filho (mas nao com demais deputados que usam esta pratica), ou com alguma palavra do presidente porque nao tem acusações de corrupção

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    • Perdeu a lucidez, “seu” Nilton? De que esteio que o Bolsonaro perdeu? Não me diga que foi o Sérgio Moro, um verdadeiro Cavalo-de-Troia do tucanato nacional, implantado no coração do governo. É esse o esteio a que se refere? Para mim, esse agora, um simples advogado Sérgio Moro, perdeu todo o meu respeito e admiração que algum dia tive por ele. Decepção total.

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      • Decepção para todos nós! O que me consola é que, com esses atos, Moro arruinou a si mesmo. Quem vai querer ao seu lado alguém que não seja digno de confiança? Levar 15 meses de mensagens entre ele e Bolsonaro para o inquérito foi um tiro no pé!

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  8. Maravilhoso, Augusto Nunes! Muito obrigada!

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  9. Prezado Augusto, preciso vosso comentário como também o é o comentário do Guzzo. Gostaria de acrescentar alguns fatos, o povo brasileiro, por tudo o que vem sofrendo pelo menos nos últimos 35 anos, precisa de heróis, foi assim com o Collor, caçador de marajás, com o Lula “defensor dos pobres”, com o Bolsonaro, e com Moro, símbolo da luta contra a corrução. Todos morreram de overdose, de roubos, soberba, e vaidade. O único que restou foi Bolsonaro que se mantém fiel em defesa da população brasileira, lutando contra todos os abutres da República. Espero e acredito que continuará assim enquanto estiver no poder. Forte abraço.

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  10. Sem governabilidade! Um desastre!
    Perante a justiça será que vai falar: E daì?!

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    • De qual justiça você está falando, alienado?

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  11. Mais um excelente artigo de opinião do Augusto Nunes. Os tais jornais “especialistas” apontaram, um dia antes da votação da previdência, que o quórum era apenas de 200 e poucos deputados a favor, ou seja, sem chances. Resultado: previdência aprovada em 1º turno com 379 votos, e com 370 no 2º turno. Esse é só UM dos inúmeros exemplos que posso citar aqui de erros astronômicos da grande imprensa, que resolveu não fazer mais jornalismo, mas atuar como braço militante de suas preferências político/ideológicas. Parabenizo a Oeste por demonstrar os fatos como eles são, de forma cristalina. Não é preciso fazer malabarismo para fazer bom jornalismo.

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  12. A aceitação – ou melhor, a servidão voluntária – a que se sujeitam editores e repórteres da apelidada “grande imprensa” de serem transformados em mensageiros do caos, da morte e da canalhice passará para a história como um dos efeitos colaterais mais humilhantes do vírus chinês. Foi Augusto Nunes quem alertou para o fato de até mesmo o ministro Mandetta fazia questão de esconder o número de contaminados e curados. A ordem era tocar terror. Por isso mesmo virou a vedete da rapaziada que parecia sentir um gosto sangue na boca ao reproduzir os dados do ministro lobista da grande índustria farmacêutica. Tudo será diferente após esta hecatombe produzida pelo Partido Comunista Chinês, mas com certeza, a credibilidade do jornalismo, que nunca foi lá essas coisas, irá ao fundo do poço.

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  13. Parabéns, grande Augusto Nunes!

    Deixo aqui apenas uma colocação que pode mudar o quadro: Sergio Moro irá depor hoje na PF e caso apresente realmente provas contundentes, uma ala pode realmente apertar o cerco para que o processo ande.

    Eu particularmente, sou contra o Impedimento. Mesmo sabendo que perdemos um de nossos 2 alicerces deste governo.

    Que Deus abençoe nossa nação!

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    • Prezado Augusto Nunes, admiro o seu trabalho e a sua imparcialidade como jornalista!!! Gostaria que você comentasse sobre o possível golpe que está sendo armado contra o presidente Bolsonaro pelo STF. Obrigado.

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  14. Ter a oportunidade de ler seus textos realmente me deixa muito satisfeito. Uma luz nessa escuridão chamada “imprensa” no Brasil. Concordo humildemente com seu ponto de vista mestre Augusto. Se saída de Moro + Covid19 juntos não derrubarem o presidente, com tanta fanfarrice na imprensa, é porque ele tem apoio real de parte da sociedade. Claro que o segundo round é a economia destruída após a pandemia mas, como político experiente que é, Bolsonaro já está colocando a conta nas costas dos prefeitos e governadores.

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    • E Bolsonaro tem que colocar a conta nesses párias, sim! Arruinaram o país propositalmente. Merecem prisão!

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  15. Repórteres que contemplam Lula com olho rútilo e lábios trêmulos de admiração, na imagem perfeita de Nelson Rodrigues… Esse texto é um gol de placa. Mais um.

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  16. Caro Augusto
    Como sempre afirmei , sou seu leitor e telespectador desde sempre.
    Concordo plenamente que ‘impedimento” (prefiro falar português)
    e apenas mais um vírus em nossa escabrosa democracia , mas você concorda com as atitudes que o PR tem demonstrado em criar inimigos todos os dias?
    O Presidente não e o candidato que se apresentou `as urnas.
    Meu Ministro , meu poder , meu veto , minha caneta , minha decisão não
    estão muito alinhados com uma boa conduta. E dai????

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  17. É Augusto. Você representa o equilíbrio e o bom senso, quando comparado com os “jornalistas” da mídia “tradicional”.

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  18. “Não haverá impeachment sem povo nas ruas”, infelizmente não tem clima devido a pandemia, mas terminada essa fase as coisas mudarão, e eu não tenho político de estimação.

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  19. Augusto, você é simplesmente sensacional em suas análises!!!! Parabéns! Sou muito grata à oeste!!

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Revista Oeste — Edição 10 — 29/05/2020

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