Ninguém conhece um município mais e melhor que o prefeito - Revista Oeste

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Ninguém conhece um município mais e melhor que o prefeito
O mineiro Romeu Zema vem dando lições de sensatez a velhos vigaristas e velhacos de nascença
22 Maio 2020, 10:41

Nos anos 1950, quando foi prefeito pela primeira vez, meu pai chamava 90% dos eleitores de Taquaritinga (SP) pelo prenome (o chefe da família e sua mulher) ou pelo sobrenome (os filhos; seria demais saber o nome de batismo de toda a prole sempre numerosa). A cidade tinha 10 mil habitantes. Fora cinco ou seis cobertas por paralelepípedos, eram de terra as ruas que os fundadores haviam riscado, 70 anos antes, com a mesmíssima extensão e largura, de modo que reproduzissem um tabuleiro de xadrez irretocavelmente simétrico. Por falta de gente rica, também havia poucos carros, e assim andavam a pé tanto votantes quanto votados. O prefeito, por exemplo, usava as próprias pernas para zanzar pela cidade e saber como andavam as coisas.

Ao morrer em 1986, dois anos antes de concluir o quarto e último mandato, ele administrava uma cidade com 40 mil habitantes. Quando a população superou os limites da memória, passou a chamar os eleitores de “Negão” e de “minha namorada” as eleitoras. Enquanto Taquaritinga crescia, o prefeito tratou de familiarizar-se com as consequências da veloz metamorfose. O asfalto cobriu as ruas que engoliram metros de calçadas, industriais forasteiros ordenaram a troca da cana pelo tomate que os laranjais não demorariam a engolir, o amarelo tristonho das lâmpadas penduradas em postes de madeira foi demitido pelas três cores fortes dos sinais que botaram ordem no trânsito. Meu pai continuou administrando o aglomerado urbano expandido com a mesma intimidade que marcara sua relação com o tabuleiro de xadrez dos anos 50. Ele dizia que ninguém conhece uma cidade mais e melhor que o seu prefeito.

“Quem sabe o que deve ser feito numa cidade é o prefeito”, repete o mineiro Romeu Zema ao explicar o protagonismo dos administradores municipais na guerra contra o coronavírus. Pelo desempenho da turma no combate à pandemia da covid-19, Zema é o único dos 27 governadores a endossar essa velha verdade. Os demais ignoram que, da mesma forma que a União, também as unidades federativas são uma abstração. Todo brasileiro mora numa rua, num bairro e numa cidade — nessa ordem. Depois é que vêm o país e, por último, o Estado. Fronteiras estaduais, aliás, são frequentemente volúveis. Milhares de filhos do norte de Goiás, por exemplo, foram goianos até 1988. Então, sem terem mudado de endereço, acabaram anexados à população do recém-nascido Tocantins.

Diferenças regionais são escancaradas pelo sotaque, pela culinária, pela cultura e por tantos outros quesitos. Mas convém relativizá-las.

Um exemplo tomado ao acaso: entre um baiano e um gaúcho as diferenças são maiores e mais numerosas do que as que permitem distinguir um boliviano de um paraguaio. Mas a dissonância entre essas duas porções do Brasil talvez seja inferior à existente entre os baianos do litoral e os nativos do sertão. Ou entre um filho da fronteira e o descendente dos imigrantes nascido na Serra Gaúcha.

“Mais Brasil e menos Brasília”, recitam de meia em meia hora dez em cada dez governadores, convencidos de que nem o mais iluminado presidente da República pode conhecer os Estados tão bem quanto os eleitos para administrá-los. Verdade. Também é verdade que tal linha de raciocínio informa que nenhum governador saberá sobre alguma cidade o tanto que sabe quem foi escolhido pelo povo para dela cuidar. Só Romeu Zema compreendeu que quem contesta a sufocante onipresença do Palácio do Planalto não pode submeter regiões tão claramente distintas às convicções e vontades do governador. Mais prefeitura e menos palácio na capital, estariam bradando os prefeitos se não os silenciasse a ameaça de retaliações. Pior para os autoritários: no quarto mês do ano do coronavírus, o candidato do Partido Novo que estreou em campanhas eleitorais há menos de dois anos segue dando aulas de sensatez e astúcia a velhos vigaristas e velhacos de berço.

O primeiro vírus chinês a pousar no Brasil ainda taxiava na pista de um aeroporto paulista quando Zema resolveu dividir com os prefeitos a condução da guerra na frente mineira. Enquanto vigorou o isolamento social inevitável na primeira etapa do combate à covid-19, o governo estadual valeu-se da redução da velocidade do inimigo para fortalecer o sistema de saúde e eliminar carências que tornavam perigosamente vulnerável a rede hospitalar. Outros governadores seguiam absorvidos pela contagem de mortos e infectados enquanto Zema também contava respiradores e leitos de UTI adquiridos sem estardalhaço nem esbanjamento. Outros governadores continuavam eternizando a quarentena com sucessivas prorrogações no momento em que o quartel-general mineiro começou a planejar a retomada gradual das atividades econômicas.

Ficou estabelecido que cada prefeito decidiria quando começaria e como se consumaria a ressurreição da vida como ela é.

Nesta quinta-feira, o balanço da pandemia reafirmou o acerto da fórmula mineira. O total de óbitos (191) contrasta com a alta letalidade alcançada pela covid-19 no vizinho Estado de São Paulo. A curva desenhada pelos casos confirmados está longe de inquietar a Secretaria da Saúde. O índice de ocupação de leitos de UTI segue distante do ponto de saturação, o volume de pacientes recuperados é animador, a quantidade de testes é elogiável e os focos de infecção permanecem sob o cerco de restrições sanitárias mais rígidas. Paralelamente à luta pela preservação de vidas, municípios excluídos da rota do coronavírus vão cumprindo o cronograma da reabertura. É claro que a batalha pela sobrevivência da economia pode eventualmente inflar as cifras e taxas que exibem a trajetória do coronavírus. Até agora, contudo, não ocorreram flutuações inquietantes.

“Outros Estados estão percorrendo o mesmo caminho traçado por Minas”, anima-se o governador. Em Santa Catarina, no Paraná, em Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul, cresce diariamente o universo de municípios revigorados pelo fim da quarentena imposta a lojas, shoppings, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais. “Estamos ganhando essa briga”, avisa Romeu Zema. O sorriso sereno informa que, em Minas Gerais, um segundo flagelo já foi derrotado: a epidemia do medo. Os principais sintomas são a insegurança arrogante e o pavor de experimentar alternativas. Esse filhote da pandemia de coronavírus contaminou a maioria dos governadores. Para sorte deles, não é mortal. O medo, infelizmente para os governados, é só paralisante.

 

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19 Comentários

  1. Isso, Augusto. O cara é bom mesmo, está dando um “banho” em todos os outros governadores, esses velhacos, espertos e desonestos, que sempre “quebram” os estados que governam, com a velha politicagem praticada em todos os sentidos. Em 2018, votei no Zema, que era a favor do Bolsonaro e contra o PT. Em 2022, vou votar de novo nele, porque ele é o Zema, o melhor governador que Minas já teve.

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    • Não sei porque associar o governador de MG, com o Presidente.
      O grande acerto foi deixar as decisões nas mãos das prefeituras. Belo Horizonte mesmo teve regras bastantes duras.
      O Zema fez o que tinha quer ser feito, dar infraestrutura para os municípios.

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      • A associação entre Zema e Bolsonaro é nítida, visto que ambos defendem a descentralização do poder.

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    • Zema se mostra a cada dia um um grande governante. Lúcido,bom administrador e humilde como tem que ser um bom político. Acho que caminha a passos largos para ser reeleito;

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      • O Zema pelo andar da carruagem tem sido o andarilho solitário na caminhada da honestidade ,
        Na caminhada da lucidez financeira !
        Nesse mar de corrupção de norte ao sul,por parte dos outros governadores !
        Fico feliz pelos mineiros ,que hoje tem um governador simples ,humilde e zero por cento arrogante !

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  2. Que texto bem escrito!! É um alento encontrar tanto talento no deserto da imprensa brasileira! O primeiro parágrafo é uma aula de estilo e redação!! Parabéns!!

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  3. Pois é, um empresário capaz é mil vezes melhor que um político de carreira. Enxerga muito longe ao invés da miopia corrupta da grande maioria de incapazes que abundam as Câmaras municipais, Assembléias legislativas , prefeitos , governadores e congresso Nacional. Poucos ali se salvam.

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  4. Vale lembrar que MG é o segundo estado mais populoso do Brasil e está conseguindo passar bem por esta pandemia

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  5. O Estado de Minas está em pior situação financeira que o RJ e mesmo assim consegue fazer uma administração séria e com resultados bastante satisfatórios. Parabéns ao Zema.

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  6. Ótimo exemplo dado por Romeu Zema. É uma pena que o vírus se tornou uma arma política na mão de poderosos inescrupulosos. Lamentavelmente, falta conhecimento e preparo ao povo para entender o que está acontecendo. Precisamos de políticos melhores, com mais pinta de prefeitos, destes a que Augusto Nunes se refere, com mais pé no chão, mais humanos, mais Zemas, menos pavão.

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  7. Enquanto governadores e prefeitos acharem que o que a grande mídia fala é o que pensa o povo, estarão a milhares de quilômetros de distância da realidade popular. Excelente artigo, Augusto!

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  8. Um grande Jornalista se destaca por seu estilo . Augusto , primus inter pares , consegue sempre ir ao cerne do assunto que trata – portanto definindo sua importancia – com uma prosa elegante e ao mesmo tempo agil.
    ¨Non in pane solo vivet homo¨! Por isso e´um prazer poder ler semanalmente seus artigos, alem de escutalo diariamente nos Pingos.

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  9. É isso mesmo, Augusto !
    Zema deu uma lição em Doria, Witzel e seus seguidores.

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    • Um exemplo a ser seguido.

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  10. Parabéns Augusto. Ótimo texto
    O Zema está fazendo um ótimo trabalho, pois está sendo gestor e não político. Pode ser que ele tenha tido a “vantagem” de o vírus ter infectado menos pessoas no Estado de Minas no início, mesmo que seja isso, conduzir o Estado com serenidade, trouxe responsabilidade a população. E com isso está colhendo os resultados.
    Já em São Paulo, estamos vendo os erros sequenciais de Dória, que se juntou ao capacho do Bruno Covas, e só tomam decisões sem muita lógica.

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  11. Augusto,

    Foi uma pena que você utilizou como exemplo, para esse artigo, apenas Romeu Zema. Nesse tema, Jair Bolsonaro defende as mesmas bandeiras da descentralização do poder defendidas pelo governador de Minas Gerais.

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  12. Só me resta aplaudir

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  13. Sou mineiro e concordo plenamente com o autor. De fato, tem sido até agora um governador diferenciado. Não tem pinta de político, mas tem se esforçado. A imprensa brasileira em geral parece avessa a mostrar o que dá certo no Brasil, mas quem sabe, após este período, a Oeste inaugure um novo segmento: o Brasil que dá certo. Precisamos voltar a ter orgulho de nosso país. Orgulho do que temos de melhor. E nesse melhor encontraremos não apenas lugares e coisas fantásticas, que desconhecemos, mas principalmente pessoas. Figurativamente, cidades são todas iguais, pessoas não.

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  14. Excelente artigo. De fato, este governador tem-se revelado de forma coerente neste contexto no qual o medo vem prevalecendo em outros estados. Espero que os mineiros não esqueçam disso.

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