Nos encontramos em Marte - Revista Oeste

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Nos encontramos em Marte
Devolver a vida a Marte seria um ato de generosidade de uma espécie que vive em um lugar tão privilegiado. É difícil ficar indiferente a essa perspectiva
9 out 2020, 14:31

Uma pergunta de três milênios nos assombra. Há 3 mil anos, astrônomos/astrólogos da Babilônia prestaram atenção naquele planeta vermelho que se destacava no céu estrelado. Deram a ele o nome de Nergal, o deus da morte e da pestilência.

A pergunta: qual a razão de Marte ser ligado desde os tempos dos babilônios a coisas ruins? O que viram naquele corpo celeste aqueles astrônomos/astrólogos para que o ligassem a um sentimento tão negativo? Os romanos deram ao planeta o nome de Marte, o deus da guerra. O baixo-astral prosseguiu quando suas duas luas, descobertas em 1877, foram batizadas de Phobos (“medo”) e Deimos (“terror”).

A partir do final do século 19, a ficção científica retrata os supostos marcianos como seres malignos, geralmente baixinhos, esverdeados e obcecados em dominar a Terra. Grandes escritores como H. G. Wells, Edgar Rice Burroughs e Ray Bradbury reforçaram o conceito de um planeta povoado por seres hostis e desagradáveis que desintegravam terráqueos com suas pistolas de raios.

Thomas Edison, o inventor da lâmpada, dirigiu um filme mudo em 1910 chamado Uma Viagem para Marte. Depois dele, dúzias de filmes tiveram o planeta como inspiração — quase sempre negativa. A quantidade de marcianos atacando a Terra nas telas foi tal que começaram a surgir produções bizarras como O Homem Lagosta de Marte, Marte Precisa de Mulheres, Papai Noel Conquista os Marcianos e As Garotas Endemoniadas de Marte.

Nos polos, sedimentos de água congelada chegam a 3 quilômetros de profundidade

Qual o problema com Marte? Estamos prestes a saber. Nas próximas décadas é alta a probabilidade de humanos se estabelecerem no planeta vizinho. A “conquista da Lua” não passou de uma série de bate e volta ao nosso satélite entre 1969 e 1972. Uma viagem tripulada a Marte é muito mais complicada. Implica estabelecer uma colônia permanente, transformar o deserto em terra fértil, gerar ar respirável, enfrentar um frio que chega a 63º graus negativos e resistir a tempestades de areia que podem durar meses.

Então, por que se aventurar num planeta tão hostil? Porque ele é o melhor que temos mais ou menos por perto. Vênus está mais próximo, mas é um forno em permanente ebulição. Marte, segundo a Enciclopédia Britânica, tem um dia de aproximadamente 24 horas, quatro estações, nuvens, ventos, calotas polares, desfiladeiros, lagos e vulcões. E a temperatura no auge do verão pode chegar a agradabilíssimos 17º graus positivos.

O planeta virou um imenso deserto cheio de mistérios a ser decifrados. Cerca de 95% de sua atmosfera é composta de dióxido de carbono, o famoso CO₂. A água está presente na atmosfera em forma de vapor, mas aparentemente não ocorre em estado líquido na superfície. Nos polos, sedimentos de água congelada chegam a 3 quilômetros de profundidade. É nesses depósitos de gelo que pode ter restado alguma forma de vida nativa, mesmo que microscópica. E onde os humanos podem estabelecer suas bases iniciais.

Marte já foi muito parecido com a Terra, úmido, quente e fértil — há 4 bilhões de anos. Algumas pesquisas mais recentes mostraram que rochas marcianas são tão idênticas às rochas terrestres que é impossível distinguir umas das outras. Mesmo separadas por 60 milhões de quilômetros.

Os terráqueos estão mandando objetos para Marte desde os anos 1960. Em novembro de 1971, os norte-americanos conseguiram colocar a primeira nave (Mariner 9) em órbita do planeta. No mês seguinte, a então União Soviética realizou o primeiro pouso suave com a cápsula Marte 3 — que conseguiu gerar dados por apenas vinte segundos. Em 1997, os EUA começaram a enviar veículos que rodavam pela superfície empoeirada do planeta transmitindo imagens e realizando pesquisas geológicas. O Opportunity bateu o recorde de durabilidade, percorrendo 45 quilômetros durante 14 anos terrestres. (O ano marciano dura o equivalente a 686 dias dos nossos.)

Na corrida, além dos EUA, a Europa, a China e até os Emirados Árabes

Em 18 de fevereiro próximo, a nave norte-americana Perseverance deverá pousar em Marte. O projeto inclui um experimento inédito: tentar fazer voar um pequeno helicóptero (chamado Ingenuity) na atmosfera rarefeita do planeta. A nave vai pousar na cratera Jazero. O plano é trazer para a Terra (não se sabe ainda como) algumas amostras de rochas do planeta. Um veículo (o Mars 2020) vai rodar com equipamento para testar a transformação da atmosfera de Marte em oxigênio. Leva também câmeras de alta resolução. Vai passear pela superfície da Jazero com uma novidade: dois microfones. Podemos nos preparar para o momento de arrepio global quando o Mars 2020 transmitir os primeiros sons captados em outro planeta.

A Nasa segue um projeto mais amplo chamado Artemis, nome da deusa grega associada à Lua. A ideia é retornar ao nosso satélite em 2024 com uma tripulação que inclua uma mulher. E — por meio de parcerias com empresas e outros países — montar uma base duradoura, estendendo cada missão por mais tempo que a anterior. Aprenderemos a viver no satélite, aproveitando seus poucos recursos naturais. É o ensaio geral para o próximo passo: Marte.

Não são só os EUA que estão nessa corrida, claro. Em 20 de setembro de 2022, o veículo batizado de ExoMars deverá iniciar sua viagem de 264 dias a Marte. É parte de uma parceria entre a Agência Espacial Europeia e a estatal russa Roscosmos. Se tudo der certo, a ExoMars deverá pousar em 10 de junho de 2023, às 12h39, horário de Brasília.

A maior surpresa veio dos Emirados Árabes Unidos. O país lançou sua nave Hope, que também em fevereiro próximo deve entrar em órbita de grande altitude, dando aos cientistas a primeira visão global da situação meteorológica em Marte. A chefe de operações científicas e gerente-geral do projeto é uma mulher de 33 anos chamada Sarah al-Amiri.

Em julho, a China também lançou (por meio de sua empresa estatal CASTC) uma nave para Marte, chamada Tianwen-1. O nome foi tirado de um poema clássico do século 3 a.C. (“Testemunhe o homem que esbravejou contra a parede/ ao escrever suas perguntas para o céu”). A China decidiu entrar com tudo, agindo em três campos: uma parte do Tianwen-1 vai permanecer em órbita, outra pousará e uma terceira vai explorar o território. Ninguém tentou ainda fazer as três coisas ao mesmo tempo. O veículo chinês deverá transmitir dados sobre a região conhecida como Utopia Planitia (Planície da Utopia). Pesquisas anteriores levantaram a possibilidade de existir no local um depósito de água congelada de 80 a 170 metros de profundidade.

Elon Musk quer passar os últimos dias de vida em Marte. E ser enterrado lá

Membros da comunidade científica norte-americana reclamaram da timidez cautelosa do programa da Nasa. Mas existe a possibilidade de os primeiros humanos chegarem a Marte por meio de uma empresa privada. (Tratamos do assunto em “A privatização do espaço”.) A SpaceX, de Elon Musk, apresentou em maio a gigantesca Starship, uma nave de 117 metros de altura que parece saída de uma história em quadrinhos de Flash Gordon dos anos 1940. Como quase sempre ocorre com uma empresa privada, os prazos apresentados são muito mais curtos. Segundo Musk, “nós poderemos ver pessoas voando [na Starship] no ano que vem” e pousar em Marte “nos próximos anos”. Mas o empresário admitiu que, enquanto não conseguir dinheiro suficiente, a Starship pode ser usada para tarefas mais prosaicas — como ligar New York a Tóquio em 30 minutos.

No entanto, a Starship foi concebida desde o começo para levar pessoas a Marte. O próprio Musk já declarou que pretende passar seus últimos dias no planeta e ser enterrado em seu solo. Ele argumenta que a colonização de Marte é um “seguro” contra a extinção humana. E estabelece um prazo para pousar humanos no planeta — “a próxima década”. (Todos sabem que os prazos de Elon Musk costumam ser meio otimistas demais…) Jeff Bezos, da Amazon, o homem mais rico do mundo, também está trabalhando em foguetes pesados em sua empresa Blue Origin. O objetivo é o mesmo.

Quando Neil Armstrong pisou na Lua, em 1969, a Nasa fez as contas e calculou que em 2033 seus astronautas entrariam em órbita marciana. Novos cálculos (pós-pandemia) empurraram um primeiro pouso em Marte para a década de 2040. Um ex-chefe de tecnologia da Nasa, Donald Rapp (que trabalhou nos projetos de missões para Marte), jogou esse prazo mais longe ainda, para a década de 2060. Ninguém sabe ao certo.

As dificuldades são grandes. E ainda tem a turma do “com tanta gente passando fome qual o sentido de ir para o espaço?”. É uma espécie de “fica em casa” em escala cósmica. Seguindo essa mentalidade, Cristóvão Colombo teria abandonado suas três caravelas no porto de Palos (com placas de “Vende-se”) e ido para casa lamentar as injustiças do mundo.

Os empresários Rick Zucker e Chris Carberry (respectivamente, vice-presidente e CEO da Explore Mars Inc) contestam essa visão pessimista em artigo para o site The Hill: “Enviar humanos a Marte, devolvê-los com segurança e criar uma presença humana sustentável no planeta exigirá muito mais do que apenas veículos de lançamento. Será necessária uma vasta rede de conhecimentos e contribuições de pequenas, médias e grandes empresas e um extraordinário investimento em novas tecnologias (cada uma das quais também será aplicada para melhorar a vida na Terra), normalmente não associadas à exploração espacial”.

Entre as maiores possibilidades de negócios geradas pela colonização de Marte, segundo Zucker e Carberry, estão: controle ambiental, conservação de água, inteligência artificial, medicina remota, impressão 3D, agricultura e alimentação. São cadeias produtivas globais que vão colaborar com o projeto e terão como resposta um nível inédito de evolução tecnológica, a partir das experiências realizadas em Marte.

O YouTube tem vídeos registrados em definição 4K na superfície marciana. São imagens tão detalhadas que quase podemos sentir nossos pés no chão frio do planeta vizinho. Estamos em casa. Nossos olhos já estão lá. No início do ano que vem também estarão nossos ouvidos.

Com tudo o que conquistamos, teremos a capacidade de parar de destruir este mundo em que vivemos e recriar a experiência da vida em outro mundo, a partir do zero? Tornar fértil um planeta desértico não é exatamente tarefa fácil. É questão existencial. O maior desafio já enfrentado pela espécie humana.

Devolver a vida a Marte seria um ato de generosidade de uma espécie que vive em um lugar tão privilegiado. Você pode gostar da ideia, ou não. Mas é difícil ficar indiferente a essa perspectiva. Por ser um passo tão ousado, gera temor e insegurança. Principalmente em se tratando de um planeta que ligamos a guerras, pestilência, medo e terror.

Eventualmente celebraremos o nascimento do primeiro humano em Marte. Teremos transmissões diárias direto da base na cratera Ritchey (com um delay de 3 a 22 minutos por causa da distância). São possibilidades de entortar nossa mente agora — mas que poderão ser consideradas normais em uma ou duas gerações.

Para onde vamos agora? Qual o próximo passo? Vamos nos destruir de vez? Ou duplicar nossa experiência vital naquele enigmático planeta avermelhado? Vamos levar nossas questões aos céus? Ou continuaremos esbravejando contra a parede?

Dicas do autor

Away (Netflix) — Série com Hillary Swank sobre uma comandante a caminho de Marte que tem de enfrentar problemas no lar que deixou para trás. https://www.netflix.com/watch/80223867?trackId=200257859
Mars (Netflix) — Docudrama (mistura de documentário com ficção) sobre uma missão tripulada a Marte em 2033, alternada com entrevistas realizadas em 2016. https://cutt.ly/jgwVUTr
Perdido em Marte (NOW, Locke, Apple TV, Google Play) — Uma excursão a Marte precisa retornar apressadamente à Terra e deixa um dos tripulantes (Matt Damon) para trás. Ele tem de sobreviver enquanto espera o resgate. Direção de Ridley Scott.
A Trip to Mars (YouTube) — O primeiro filme de ficção científica, produzido pelo inventor Thomas Edison em 1910.  https://cutt.ly/jgwVUTr

Guerra dos Mundos (Netflix, Prime Video, Google Play, Microsoft Video, Apple TV, Google Play) — Refilmagem da história clássica de H. G. Wells sobre uma invasão marciana. Com Tom Cruise.


Dagomir Marquezi, nascido em São Paulo, é escritor, roteirista e jornalista. Autor dos livros Auika!, Alma Digital, História Aberta, 50 Pilotos — A Arte de Se Iniciar uma Série e Open Channel D: The Man from U.N.C.L.E. Affair. Prêmio Funarte de dramaturgia com a peça Intervalo. Ligado especialmente a temas relacionados com cultura pop, direito dos animais e tecnologia.

 

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