Nosso vício em segurança - Revista Oeste

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Nosso vício em segurança
O regime amplo da segurança serve para proteger as pessoas de ter de confrontar ameaças, que são cada vez mais vistas como danos emocionais
26 jun 2020, 08:43

Como sociólogo, fiquei espantado ao descobrir que tantas pessoas ficaram confortáveis com a vida em lockdown. Quando, no decorrer de uma conferência por Zoom, eu disse a uma colega de Nova York que estou enlouquecendo e quero minha liberdade de volta, ela me repreendeu por ter pensamentos irresponsáveis. Houve outras tentativas de garantir que posso fazer muita coisa “para tornar a vida mais confortável” durante o lockdown.

Uma grande pesquisa publicada no Reino Unido indicou que 49% dos participantes concordaram com a afirmação “existem alguns aspectos das medidas de isolamento de que gostei”. Pesquisas também indicam que milhões de pessoas estão preocupadas que o lockdown vá ser atenuado rápido demais.

Sem dúvida as pessoas ambicionam uma subsistência que vá muito além de viver confortavelmente em lockdown. A maioria de nós está frustrada por deixar a vida em compasso de espera e deseja o retorno a uma existência normal. No entanto, o que esta pandemia fez foi ampliar e reforçar um humor cultural preexistente de desorientação moral e obsessão por segurança.

Para se referir às crianças que sofreram algum dano, usa-se “marcadas para o resto da vida”

Em particular no mundo anglo-americano, onde a idealização de um “espaço seguro” obteve ampla circulação, viver em condições de confinamento com muita frequência não é considerado um problema. De fato, diversas organizações e muitos indivíduos interpretam sua existência em casa em lockdown por meio da linguagem de um lugar seguro. Então, de acordo com Jonathan Mayer, professor emérito de geografia e epidemiologia da Universidade de Washington, conforme o perigo, real ou percebido, se aproxima, a ideia de espaço seguro se estreita, e então se estreita mais, “até, na verdade, tornar-se qualquer coisa fora de casa”. Dessa perspectiva, nada fora da nossa casa é seguro, o confinamento é o garantidor de um espaço seguro, e ficar dentro de casa oferece segurança contra um mundo inerentemente perigoso.

Ao longo da história, comunidades deliberaram sobre a relação entre segurança e medo. “O medo é a base da segurança”, comentou o padre da Igreja Católica Tertuliano. Mas o significado atrelado à segurança se transformou radicalmente em tempos recentes. A aspiração por segurança de modo geral se expressa por meio de indivíduos e da comunidade tomando precauções razoáveis para limitar sua exposição ao perigo.

Na era atual, houve dois desenvolvimentos importantes, que se reforçam mutuamente, que mudaram a maneira como a segurança é vista. A definição de perigo se expandiu enormemente, e suas consequências são vistas como muito mais prejudiciais e catastróficas do que se imaginava anteriormente. Na linguagem da vida cotidiana, os danos costumam ser dramatizados com o uso de termos como “existencial”, “incalculável” e “irreversível”. Essas avaliações de ameaças infladas não estão apenas confinadas aos perigos de alta visibilidade ao meio ambiente e do terrorismo global, mas às experiências do dia a dia da sociedade. Então, para se referir às crianças que sofreram algum dano, usa-se “marcadas para o resto da vida” ou “traumatizadas para sempre”. A expansão do significado de dano levou a uma revisão fundamental do sentido que a sociedade atribui a segurança. Segurança se tornou uma obsessão cultural a ponto de muitas instituições e muitos políticos terem adotado o ideal de um mundo harm free — isto é, seguro ou sem causar danos — como um objetivo realista.

O registro clínico do medo é amparado pela suposição de que as pessoas são frágeis demais

A fantasia de construir um mundo livre de danos manifesta-se de maneira mais visível por meio da intolerância em relação a riscos e acidentes. O estabelecimento médico de emergência dos Estados Unidos está na linha de frente para banir o uso da palavra “acidente” e substituí-la pela expressão “ferimento evitável”. O argumento para proibir o termo “acidente” é que os danos que as pessoas sofrem são evitáveis e, assim, é irresponsabilidade do Estado que sejam causados por um acidente.

Desde o começo do século 20, mas em especial desde os anos 1970, revelou-se a regulação do medo por meio de normas morais. Não são os teólogos nem os filósofos que fornecem orientações sobre a relação entre medo e segurança, são os psicólogos. Uma das contribuições mais significativas da psicologia foi dissociar o medo da gramática da moralidade. Na década de 1970, uma versão clínica do medo ganhou hegemonia, e a psicologia ditou que a maioria das pessoas, especialmente as crianças, carecia de recursos para lidar com o medo. A partir dessa perspectiva, a ameaça imposta pela emoção do medo foi de tal magnitude que seu gerenciamento exige a intervenção de especialistas com formação em psicologia.

O registro clínico do medo é amparado na suposição de que as pessoas, especialmente as crianças, são frágeis demais para lidar com os males que enfrentam. O regime amplo da segurança serve para proteger as pessoas de ter de confrontar ameaças, que são cada vez mais vistas como danos emocionais. Assim, isso representa uma mudança, de moral para psicológica, na percepção transformada de segurança da sociedade. Aliás, a retórica de um mundo sem dano e sua busca obsessiva por segurança deveriam ser entendidas como uma expressão sublimada dos medos que estão moralmente incontidos.

Valores como coragem, heroísmo, honra e autotranscendência foram esquecidos

Isso também levou à emergência da segurança como a norma fundamental que se sobrepõe a valores morais tradicionais como coragem e prudência.

Infelizmente, quando transformada em uma norma dominante, a segurança tem o hábito de fazer com que as pessoas se sintam inseguras constantemente. A experiência mostra que, quanto mais obcecados os indivíduos se tornam por segurança, mais vivenciam o mundo de modo inseguro.

A deificação da segurança tem uma dimensão expansiva e intrusiva. O adjetivo “seguro”, como em “sexo seguro”, “bebida segura”, “alimento seguro”, “escolas seguras” e “espaço seguro”, sinaliza um comportamento responsável; a exortação “fique em segurança” é uma versão secular de “que o Senhor esteja convosco”.

A idealização da segurança e da sobrevivência como valores em si mesmos adquiriu uma influência preponderante na vida pública. A partir dessa perspectiva, a exaltação do heroísmo e da coragem por gerações anteriores se tornou totalmente incompreensível. “O sobrevivencialismo leva a uma desvalorização do heroísmo”, comentou o crítico social Christopher Lasch, assim como “toda uma gama de ideias supostamente desgastadas — de honra, desafio heroico das circunstâncias e autotranscendência”. Essas virtudes tradicionais foram deslocadas pela busca por segurança. Nessa busca, a segurança adquiriu uma qualidade indeterminada. Para a pergunta “seguro em relação a quê?”, a única resposta lógica é “seguro em relação a qualquer coisa em potencial”.

O vício da sociedade em segurança prejudica a capacidade de lidar com a adversidade

A segurança não pode ser adquirida só pela vontade. Aqueles que propõem que os riscos sejam evitados e a segurança seja obtida vão inevitavelmente descobrir que o que estão adquirindo são obsessões de suas inseguranças. O foco constante dos criadores de políticas públicas e dos políticos na questão da segurança involuntariamente produz ansiedades e inseguranças da população sobre o próprio futuro.

Na pandemia atual, quando todos somos forçados a lidar com uma vida de incerteza, o vício da sociedade em segurança tem o triste efeito de paralisar muitas pessoas e prejudicar a capacidade de lidar com a adversidade. Claro que precisamos tomar medidas de precaução sensatas para proteger a vida humana. Mas também precisamos fazer uso de nossa própria reserva de coragem e do espírito humano da solidariedade para derrotar o inimigo silencioso. Para superar nossa obsessão não saudável pela segurança, precisamos agir como adultos e estar preparados para deixar nossas ilusões sobre espaços seguros para trás.

Leia mais sobre o tema no artigo “Covardes, medrosos e mimados”

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Frank Furedi é professor emérito de Sociologia na Universidade de Kent, na Inglaterra. Colunista da Spiked Magazine, é autor de livros considerados clássicos sobre temas como medo, paranoia e guerra cultural, como How Fear Works (2018) e First World War — Still No End in Sight (2016). Lançará no próximo mês Why Borders Matter: Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Borders (Routledge).

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6 Comentários

  1. Sensacional!

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  2. Muito bom!

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  3. Os que estão gostando do lockdown são principalmente os funcionários públicos, que estão com o salário garantido. Quem precisa trabalhar para garantir o sustento não tem medo de sair à rua.

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  4. Sim, os defensores do “fique em casa”, tem sua sobrevivência garantida, recebem mesmo sem estar trabalhando, e ainda tem todas as facilidades na sua porta, inclusive quem limpe seu lixo!

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  5. Parabéns!
    Texto excelente.
    Leitura necessária.

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  6. Achei sensacional.
    O medo sendo interpretado como segurança em nossa sociedade.

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