O “cancelamento” contra a arte - Revista Oeste

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O “cancelamento” contra a arte
Caso a sociedade se submeta a essa versão gourmetizada do stalinismo, nossos filhos e netos não terão o que ler, ouvir ou assistir
19 out 2020, 11:37

No fim dos anos 1990, éramos poucos os liberais e conservadores que escreviam na internet. Era a época da internet discada, de sites e blogs independentes. O que nos unia era o interesse pela cultura highbrow, seguindo a orientação do poeta T. S. Eliot. A curiosidade pela política era elemento acessório. Queríamos escrever e dialogar sobre literatura, filosofia, cinema, música, pintura, teatro, arquitetura. Toda e qualquer conversa de cunho político se orientava por esse prisma cultural.

Era dificílimo, para não dizer impossível, que deixássemos de ler algum escritor, de ouvir algum compositor, de assistir a um filme, de ver uma peça de teatro, de apreciar um quadro em razão da posição política de seus criadores.

Ideologia nunca foi critério para rejeitarmos um autor, fosse ele de esquerda ou de direita, nem achávamos que a obra justificaria seu alinhamento ideológico. Eram duas esferas que deveriam ser enfrentadas separadamente.

Por isso mesmo, embora soubéssemos o que cada autor pensava, não deixaríamos de ouvir Wagner por causa de seu antissemitismo, de apreciar a poesia de Ezra Pound por seu encantamento pelo fascismo, de ler Nietzsche por seu anticristianismo, de aprender com George Orwell por sua defesa do socialismo, de nos maravilhar com as peças de Bernard Shaw por seu socialismo fabiano.

Não caíamos no erro de politizar todos os aspectos da vida, algo que a esquerda já fazia — e faz — há décadas e que, hoje, certa direita tem mimetizado com rigor. A cultura do cancelamento, esse método repugnante que deve ser exposto e combatido, é o resultado dessa politização e da tentativa de submeter o indivíduo a uma ideologia.

Quase toda semana uma personalidade histórica é alvo da turba ensandecida e sedenta por sangue. Já tratei aqui dos ataques contra Winston S. Churchill e David Hume. Na mesma Inglaterra, a vítima da vez do Black Lives Matter é o escritor irlandês George Bernard Shaw.

Shaw adorava provocar e pregou o aprimoramento da raça, a abolição da propriedade privada e do casamento

Autor de preciosidades literárias como Pigmaleão, Major Bárbara, Santa Joana, Homem e Super-homem, Candida, César e Cleópatra, Shaw é, inegavelmente, um dos grandes dramaturgos de língua inglesa. Em 1925, conquistou merecidamente o Nobel de Literatura.

Nascido em 1856 em Dublin, Shaw era um elitista cultural, autor de uma obra fabulosa que inclui, além da dramaturgia, ensaios, críticas de música, de arte, de teatro, e prefácios. Seu texto é violento e wit, farto, vasto, com uma galeria de personagens burlescos, picarescos, vulgares ou altamente sofisticados. É exemplo o professor Higgins, de Pigmaleão, peça que ganhou o mundo ao ser adaptada para o cinema com o título My Fair Lady e atuação impecável de Audrey Hepburn.

Para vencer a timidez e se aprofundar nas discussões, começou a participar dos debates que agitavam as noites de Londres. O talento como orador conquistou admiradores. Espirituosidade, persuasão e sedução garantiam seu desempenho intelectual, público e privado. Essa equação levou os ingleses, tempos depois, a transformar seu sobrenome num adjetivo. Shavian passou a designar quem falasse pelos cotovelos de forma espirituosa.

A relação de Shaw com o socialismo começou por volta de 1882 e, no ano seguinte, ele dedicou-se a ler O Capital, de Karl Marx. Em 1884, já um contestador do marxismo, Shaw entrou para a Sociedade Fabiana, think tank criado para defender a implantação gradual de um socialismo reformista sem recorrer à violência revolucionária.

Em 1895, junto com outros membros da Sociedade Fabiana, Shaw ajudou a fundar a London School of Economics (LSE). O propósito de seus fundadores era que a LSE fosse o braço acadêmico dos fabianos. De fato, foi, mas, por uma dessas gratas ironias, um dos grandes nomes da Escola Austríaca, F. Hayek, foi professor na instituição nos anos 1930 e 1940, assim como o filósofo Michael Oakeshott, o maior pensador conservador inglês do século 20, que lecionou ciência política do fim dos anos 1940 até se aposentar, em 1969.

Numa palestra proferida na Eugenics Education Society em março de 1910, Shaw pregou o aprimoramento da raça, a abolição da propriedade privada e do casamento. No artigo “Capital punishment”, publicado em 1948 na revista The Atlantic, ele defendeu a pena de morte como parte do projeto de engenharia social também baseado na eugenia.

Em um vídeo famoso disponível no YouTube, que foi usado contra Shaw no documentário The Soviet Story, o escritor dizia num tom teatral e debochado que, de tempos em tempos, cada indivíduo deveria justificar a própria existência perante o funcionário da Receita Federal. Se não conseguisse provar que estava produzindo mais do que consumindo, ouviria do servidor que o Estado não poderia protegê-lo e mantê-lo vivo em razão de sua baixa utilidade social.

E aí vem a frase que, citada fora de contexto, causa espanto: “Apelo aos químicos para descobrirem um gás humano que mate instantaneamente e não provoque dor. Em suma, um gás cavalheiresco — certamente mortal, mas humano, de forma alguma cruel”. Vendo o vídeo, a coisa é tão absurda que é difícil acreditar que seja verdade e não uma encenação. De qualquer modo, não foram poucos os que estabeleceram uma relação da fala com o posterior uso do gás Zyklon B nos campos de concentração da Alemanha nazista.

A obra literária que Shaw deixou é maior do que a utopia que defendeu e os infames que elogiou

Como Shaw adorava provocar, causar escândalo, sobretudo se a ele coubesse o papel principal, não se sabe exatamente sobre qual assunto aquilo que escreveu ou disse era rigorosamente o que pensava, se era verdade, meia verdade ou galhofa, tudo escrito e dito numa época em que teorias eugenistas, racialistas, darwinismo social encantavam elites políticas, econômicas e intelectuais.

Por sua obra dramatúrgica, o escritor também foi homenageado pela Royal Academy of Dramatic Art (RADA), que batizou um de seus teatros com o nome do escritor. Mas, agora, em razão dessa histeria ideológica internacional, alunos da escola querem que o nome de Shaw seja substituído por causa do apoio do escritor à eugenia e ao fascismo. A direção da academia, da qual Shaw foi conselheiro, já capitulou e anunciou que também vai retirar do currículo as peças que estão supostamente alinhadas com o imperialismo britânico e com o racismo.

Curiosamente, a capitulação da direção vem no mesmo ano em que um terço de todo o dinheiro dos direitos autorais das obras de Shaw deixará de financiar o trabalho da academia porque elas entrarão em domínio público. Essa doação fez com que, desde sua morte, em 1950, o escritor fosse um dos maiores benfeitores da instituição. Existe até um fundo com o nome do dramaturgo para apoiar novos talentos da escrita.

Diante do que se apresenta e se não houver reação, provavelmente, a RADA será protagonista de uma triste peça cujo roteiro dá conta de uma instituição que apagou de sua história o nome de um dos maiores dramaturgos da Grã-Bretanha e um de seus maiores doadores. Que esses cancelamentos estejam acontecendo na Inglaterra só torna o roteiro ainda mais soturno.

As posições e opiniões políticas de Bernard Shaw eram execráveis, o mundo que ele defendia era indefensável. Ele teceu loas ao que de pior emergiu no século 20: Lenin, Stalin, Hitler, Mussolini. Se o escritor fosse vivo e mantivesse a posição, suas ideias deveriam ser condenadas e combatidas. Mas a obra literária que ele deixou é maior do que a utopia que defendeu e os infames que elogiou.

Winston Churchill, que tinha com Shaw uma excêntrica relação, escreveu um perfil acurado do dramaturgo no livro Grandes Homens do Meu Tempo (Nova Fronteira, 2019). O texto, escrito nos anos 1930, termina com um elogio grandioso: “O maior mestre vivo da literatura no mundo de língua inglesa”.

Sendo Shaw um socialista e um dos criadores da Sociedade Fabiana, seria muito fácil apoiar seu cancelamento. Mas uma tentação a que um conservador jamais deve ceder é a de mimetizar um comportamento anticonservador para rechaçar um antagonista. Pelo contrário, deve apontar o mal e agir orientado pelo bem.

Não vou cansar de dizer que cancel culture is a cancer culture. Se não denunciarmos e impedirmos essa loucura de cancelamento, uma versão gourmetizada do stalinismo, nossos filhos e netos não terão o que ler, ouvir, assistir porque não restará mais nada a não ser — e volto a citar T. S. Eliot — os escombros de uma terra devastada pela legião de homens ocos.

Sobre cancelamento cultural, leia também outros três artigos de Bruno Garschagen

David Hume cancelado

O método de cancelamento não pode prosperar

Os ataques a Churchill e o que temos a ensinar aos ingleses


Bruno Garschagen é cientista político, mestre e doutorando em Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).


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2 Comentários

  1. Excelente artigo com primazia do último parágrafo. A literatura, artes cênicas, música e artes plásticas não podem ficar atreladas ao Estado dominado por homens ocos. Cada vez patinamos mais no mesmo atoleiro de perseguições, ideologias e proselitismo que apenas corroem a criatividade de quem poderia contribuir para uma renovação.

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  2. Parabéns, excelente texto. Uma bofetada nos hipócritas.

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