O capitalismo pode salvar o mundo? - Revista Oeste

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O capitalismo pode salvar o mundo?
O sistema não é uma ideologia de laboratório, como o comunismo. É uma força viva, dinâmica, que há milênios se aperfeiçoa na satisfação das necessidades humanas
19 out 2020, 11:30

Era uma vez dois irmãos muito ricos e muito religiosos. Durante um sermão, eles ouviram o padre citar a frase de Jesus Cristo: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus” (Mateus 19:24).

Os irmãos foram preocupados para casa. Para ter mais chances de chegar ao céu, o primeiro irmão decidiu abandonar suas posses e se transformou num mendigo. O segundo contratou um arquiteto, um engenheiro, um mestre de obras, um decorador, uma equipe de operários e construiu uma agulha monumental — grande o suficiente para que um camelo passasse com folga pelo seu buraco.

Não me lembro onde eu vi essa história. Provavelmente num programa humorístico tipo Saturday Night Live ou Monty Python. A piada ilustra bem uma questão que sempre existiu: o capital é a raiz de todos os males? Ou a fonte de todas as soluções?

Somos treinados desde criancinhas a acreditar que a iniciativa privada só se interessa pelo dinheiro que consegue multiplicar, como num fetiche obsessivo. A única solução para o horrível “mal” que o capitalismo produz seriam as “políticas públicas”. O aparelho estatal, sendo altruísta, “cuida dos mais pobres”. Essa é a lenda, martelada diariamente, geração após geração.

É claro que muitos empresários não se importam de fazer o papel de bandido. Existem, sim, capitalistas egoístas, ignorantes, desumanos, exploradores, insensíveis, malandros, predadores, racistas, preconceituosos, poluidores, desonestos. Mas eles não são “o capitalismo”.

A revista Fortune publicou na sua edição de outubro o ranking “Change the World”. Declara o editorial da revista: “A lista é construída com a premissa de que o lucro pode inspirar companhias a resolver as necessidades não resolvidas da sociedade”. Simples assim. Aqui vai uma seleção de casos mais interessantes listados pela Fortune:

Covax Facility

Um pool envolvendo laboratórios de 170 países que planeja produzir 2 bilhões de doses de vacina anti-covid-19 até o fim de 2021. A estratégia desse consórcio é coordenar o mercado de forma que os laboratórios produzam a vacina (seja qual for a aprovada, não importa seu criador) numa escala jamais vista. Giovanni Caforio, CEO do gigante farmacêutico Bristol Myers Squibb, disse que nunca viu um processo de colaboração entre empresas nesse nível. E sugere que o mesmo modelo seja usado para a cura de doenças como o câncer, diabetes, dengue etc.

Zoom

A empresa de teleconferência suspendeu temporariamente a cobrança do seu aplicativo para uso em educação. E assim possibilitou que 100 mil escolas em 25 países permanecessem funcionando remotamente durante a pandemia.

Mondragon

O conglomerado espanhol, fundado por um padre em 1956, mantém como princípio que seus maiores salários sejam no máximo seis vezes mais altos que os menores salários. E não se trata de uma empresa pequena — a Mondragon reúne 260 companhias (construção, finanças, manufatura, agricultura, produção de comida), 81 mil empregados e lucrou € 14,5 bilhões no ano passado.

Grupo Energía Bogotá

Para expandir sua rede de distribuição, a empresa precisa passar por grandes áreas repletas de minas explosivas do tempo da guerrilha das Farc. A Energía Bogotá não esperou o governo — pretende desarmar e limpar por conta própria as minas do país inteiro até o fim de 2025.

Microsoft

Com o projeto 4Afrika, a empresa está patrocinando programas de treinamento digital no continente. “É uma boa ação, mas não é caridade”, observa a matéria da Fortune. “A Microsoft vê a África como um mercado em crescimento, e a 4Afrika está ocupada em registrar novos clientes e descobrir novas ideias de negócios.”

AB InBev

A empresa brasileira, que se tornou a maior produtora de cerveja do mundo, desenvolveu o SmartBarley, um aplicativo que ajuda agricultores a proteger suas plantações de cevada e evita que elas se transformem em uma ameaça ao meio ambiente. A AB InBev obviamente está pensando no fornecimento seguro de matéria-prima para suas cervejas. Mas ao mesmo tempo ajuda os produtores a diminuir eventuais prejuízos. E ainda cria parcerias com agricultores do Nordeste do Brasil.

Google

A empresa usa inteligência artificial no aplicativo Flood Forecasting Iniciative para gerar alertas de inundação a mais de 200 milhões de habitantes da Índia e de Bangladesh. O FFI consegue avisar do perigo de enchente com até 48 horas de antecedência.

Colgate-Palmolive

A dona de 41% do mercado global de cremes dentais conseguiu no ano passado apresentar o primeiro tubo de pasta inteiramente reciclável. O plano é desenvolver a produção total de tubos recicláveis até 2025.

Pearson

A empresa de tecnologia da educação, fundada em Londres em 1844, oferece cursos universitários e diplomas a pessoas pobres de 85 países, com foco em jovens mulheres do Zimbábue, da Tanzânia e de outros países da África.

Cemex

O gigante mexicano do cimento desenvolveu um projeto de montagem de pequenos hospitais para 45 leitos, levantados em 15 dias, com custo 70% mais baixo que o de uma construção convencional. O concreto utilizado é antibactericida, e o sistema de filtragem do ar usa luz ultravioleta para conter a contaminação.

Jordan Ahli Bank

Cerca de 660 mil refugiados sírios estão vivendo em estado de miséria na Jordânia. O Jordan Ahli Bank está entregando a 106 mil famílias sírias cartões de débito pré-pagos para que retirem seus alimentos nos postos de emergência. A distribuição assim se torna mais digna e organizada.

UPS

A empresa de entregas desenvolveu (no programa Flight Foward) um serviço de entrega de remédios e coleta de exames com o uso de drones. Os drones são dez vezes mais rápidos que as vans — e a poluição é zero.

ChenMed

A rede, que já opera em sete estados norte-americanos, cobra o preço (em média) de US$ 30 mensais para atendimento pessoal a idosos, 24 horas por dia, sete dias por semana. O foco no tratamento preventivo faz com que os associados passem de 30% a 50% menos tempo em hospitais e salas de cirurgia, o que derruba os custos do plano de saúde.

A indústria não passou a usar menos alumínio nas latinhas porque Greta Thunberg fez biquinho

Empresas que avisam de enchentes, montam hospitais em 15 dias, cuidam de idosos e livram um país de minas explosivas logo terão altos lucros com essas iniciativas. E com esses lucros poderão atuar melhor para atender mais pessoas. Com mais clientes, vão ampliar o capital, aperfeiçoar o serviço e empregar mais gente. É o círculo virtuoso do mercado. Funciona organicamente, como a natureza. A vegetação cria a chuva que faz a vegetação crescer.

Um dos aspectos em que o capitalismo costuma ser mais criticado é justamente a questão ambiental. É um clichê dizer que “a ganância destrói a natureza”. Infelizmente, em muitos casos, é isso mesmo que acontece. Mas a realidade costuma ser mais sofisticada.

Andrew McAfee, autor do livro More From Less, cita um exemplo: cada latinha de cerveja e refrigerante usava 85 gramas de alumínio em sua composição. Hoje usa apenas 14 gramas — seis vezes menos. Não porque Greta Thunberg fez biquinho exigindo menor exploração do recurso natural. Mas porque usar menos matéria-prima ficava mais barato para as empresas. A própria indústria de reciclagem do alumínio também é criação da livre iniciativa. Foi a famosa “mão invisível do mercado”, citada por Adam Smith, que reuniu num único aparelho (o celular) o que antes vinha separado (câmera, calculadora, relógio, telefone etc.). A mudança diminuiu drasticamente a quantidade de lixo eletrônico.

A economia de mercado funciona segundo uma lógica própria, fora de controle. Nenhum burocrata de nenhum governo conseguiria imaginar conceitos revolucionários como o Uber, o Airbnb, o streaming, o e-commerce, o homeworking etc. Foi o capitalismo que se renovou e se popularizou, com um grande impulso proporcionado por novas tecnologias — também criadas pelo mercado. Essas novidades geraram novas perspectivas de produção e distribuição de renda.

“O capitalismo é maleável”, notou Ross Gittins, editor de economia do Sydney Morning Herald, o mais importante jornal da Austrália. “Transformou-se muito nos últimos 200 anos, quando as circunstâncias mudaram, e poderá mudar muito quando nossas necessidades exigirem. Se você duvida disso, é porque está reagindo a uma definição de capitalismo típica de histórias em quadrinhos.”

Capitalismo não é vilão de HQ. Nem ideologia de laboratório, como o comunismo. É uma força viva, dinâmica, que há milênios se aperfeiçoa na satisfação das necessidades humanas. Formas muito primitivas de mercado existem desde o tempo dos cro-magnons. Chegamos ao mercantilismo no século 17 e ao início do capitalismo industrial no século 19. Passamos ao capitalismo de massas no meio do século 20 e ao capitalismo tecnológico e informal do século 21. E ninguém nunca planejou nada disso. Aconteceu.

O papel do Estado está encolhendo visivelmente no mundo todo. Países (Venezuela, Argentina etc.) que se opõem a esse movimento entram em colapso. Na Estônia, a administração federal tem sido substituída (com vantagem) por uma rede de computadores e pela participação ativa dos cidadãos. O uso da força deve continuar sendo um monopólio estatal. Mas em praticamente todos os outros campos o Estado vem se retirando, impotente, preso ao passado, prisioneiro de uma casta de privilegiados. Enquanto isso, empresas particulares estão preparando naves para Marte.

“Onde há problemas para ser resolvidos, existe dinheiro para ser ganho”, resumiu Matthew Fitzmaurice, CEO da EcoAlpha, empresa de investimento em projetos ambientais. “E, onde há dinheiro para fazer o que é preciso, nós despertamos uma das mais poderosas forças de mudança do mundo: o capitalismo.”


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5 Comentários

  1. O texto é perfeito, esclarecedor, desmistificador – evidencia tudo que a existência demonstrou sobre o assunto. São fatos que se encadeiam há milênios confirmando o capitalismo como a escolha sustentável na ecologia produtiva da espécie humana. Parabéns pelo tema e pela apresentação impecável.

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  2. Análise perfeita. Parabéns

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  3. Excelente artigo !

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  4. Espetacular!

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  5. SCPC. Simples, Claro, Preciso, Conciso. Parabéns!

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