O domador de tempestades - Revista Oeste

Revista

O domador de tempestades
O que faria Tancredo Neves para interromper o Fla-Flu que começou com a chegada das primeiras caravelas?
10 abr 2020, 11:23

Nasci numa cidade dividida entre janistas e ademaristas. Tornei-me adulto e amadureci num país dividido entre partidários do regime militar e militantes da resistência democrática. Envelheço num Brasil que Lula dividiu entre “eles” e “nós” e continua dividido pelo coronavírus entre simpatizantes e inimigos do uso da cloroquina no combate à pandemia. Com a chegada da primeira caravela, muitos séculos antes da invenção do futebol, índios cor de cobre e brancos europeus inauguraram o Fla-Flu que nunca mais terminou. Os períodos de trégua foram tecidos pelos poucos líderes políticos que souberam desde o útero que não há democracia consistente sem o convívio dos contrários. Uma dessas raridades foi Tancredo de Almeida Neves.

O que faria Tancredo?, pergunto-me quando as coisas, sempre difíceis por aqui, ficam especialmente complicadas. Era nesses momentos que os mais ferozes desafetos entendiam que chegara a hora de chamar o doutor Tancredo. “Nunca me convidam para um banquete”, ouço a voz do conciliador vocacional, em dezembro de 1983, na mesa do restaurante em Belo Horizonte. “Só se lembram de mim na hora da tempestade”. Ele enrola e desenrola a gravata azul antes da ressalva:

“A conciliação só pode ser feita em torno de princípios. É por isso que uma vitória eleitoral é mais fácil do que conseguir um acordo entre antigos adversários.”

O domador de tempestades teve um desempenho luminoso na crise provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. Recolhido ao casarão em São João del Rey, onde nasceu, convalescia desde outubro do ano anterior da derrota para Magalhães Pinto na disputa pelo governo de Minas Gerais. E examinava a ideia de encerrar a carreira política quando o destino o encarregou de abortar o temporal em gestação.

Decolou para Brasília a pedido do general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar do governo que, formalmente presidido pelo deputado Ranieri Mazzili, estava sob a tutela dos ministros do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. A trinca, contou-lhe Geisel, não admitia a entrega do gabinete abruptamente desocupado ao vice João Goulart, em viagem oficial à China. Como o governador Leonel Brizola, entrincheirado no Palácio Piratini e apoiado pelas tropas aquarteladas no Rio Grande do Sul, exigia a posse de Jango, as dimensões e a tonalidade das nuvens anunciavam a tempestade que prenuncia a guerra civil.

É coisa para o doutor Tancredo, concordaram os comandantes militares e os aliados de Jango. Era mesmo. Cinco dias e incontáveis sussurros depois, estava costurado o mais improvável dos acordos. O vice tornou-se presidente, mas com poderes reduzidos pela adoção do regime parlamentarista. A escolha do nome do primeiro-ministro foi feita sem disputas, debates ou dúvidas. Só podia ser Tancredo Neves.

Mais de vinte anos depois, de novo só podia ser Tancredo o candidato da mais multifacetada aliança política da história republicana.

Nenhum outro líder juntaria no mesmo balaio todos os “autênticos” e “moderados” do PMDB, todos os partidos de oposição (com a exceção previsível do PT, que optou pela abstenção no Colégio Eleitoral e expulsou três deputados que discordaram da ordem de Lula). Nenhum outro candidato atrairia tantos governistas dissidentes sem tornar inevitável o veto ostensivo de oficiais inconformados. Se não existisse um Tancredo, o Brasil teria de esperar sabe-se lá quanto tempo ainda pela ressurreição da democracia.

Ele está em boa forma, equivoco-me ao ouvi-lo pedir um licor depois da sobremesa. É provável que já estivesse suportando as dores que esconderia até 14 de março, quando o país pronto para festejar a posse do eleito foi abalado pela notícia da primeira cirurgia. Escondeu-as por achar que o presidente João Figueiredo não aceitaria passar a faixa presidencial a José Sarney, vice-presidente eleito, ou ao deputado Ulysses Guimarães, presidente da Câmara.

— Vejo o senhor em Brasília — despeço-me na calçada em Belo Horizonte.

É um sorriso cansado, noto enquanto me deseja boa viagem.

— Vejo o senhor no Palácio do Planalto — ainda me ouço dizendo em 15 de janeiro, depois de emocionar-me com o discurso retocado pela caneta que o jovem ministro da Justiça de Getúlio Vargas ganhou do presidente suicida. “Com o êxtase e o terror de haver sido o escolhido, como diria Verlaine, entrego-me hoje ao serviço da nação”, dissera o presidente eleito.

Achei ainda mais cansado o sorriso de Tancredo ao reiterar a data do reencontro:

— Até o dia da posse — despedi-me.

Não voltei a vê-lo vivo.

O Brasil que foi dormir com Tancredo Neves acordou dividido por José Sarney.

TAGS

29 Comentários

  1. Como sempre, genial e irretocável.

    Responder
    • VERDADE

      Responder
    • Augusto Nunes, como é bom ainda poder contar com jornalistas como você. Inteligência sem arrogância. Obrigada

      Responder
      • Excelente

        Responder
  2. Augusto Nunes, uma tempestade de inteligência no deserto de aridez do jornalismo.

    Responder
    • “militantes da resistência democrática”?
      Em q país estavas ?

      Responder
    • Ah! Augusto! Quanta ingenuidade. Ele comprava e vendia apoios. Simples assim. Talvez com mais “elegância”, se é que porcos podem ter elegância.

      Responder
    • Autêntico,cirúrgico, parabéns

      Responder
    • Excelente, por isso PINGOS NOS IIS SEMPRE

      Responder
  3. O JOVEM DE TAQUARITINGA-SP É MUITO BOM.

    Responder
  4. Tá bom… algumas divergências, mas plausíveis de negociação. Agora é vc nas mídias que atua pedir para entrevistarem um especialista em investimentos. Por favor! Minha mulher vende Avon e juntou 5 mil reais e está querendo saber se CDB é bom investimento, ou só é possível para quem 250 milhões? Acho que o pessoal aqui de baixo merece algumas análise do que é CDB, título público, rendimento, etc.

    Responder
    • E daí?!!!

      Responder
  5. Eu lembrei daqueles dias e me emocionei.

    Responder
  6. Boa história para os jovens que não viveram aquela época.Sempre é bom ouvir os comentários do Augusto no Jornal da Record.Por sinal,hoje, único possível de assistir.Isento e com apresentação alegre da Adriane e Sérgio.É outro patamar.Augusto,é fake ou verdade que o Supremo “decidiu”impedir a devolução dos bilhões do Fundo Partidário e Eleitoral do Congresso para combate ao coronavírus?Eis o que queria dizer:OESTE tem o melhor “frasista”de humor e ironia,na imprensa hoje.Parabéns.

    Responder
  7. Foi um péssimo governador ..era bom apenas para fazer política.

    Responder
  8. Augusto Nunes, queria parabenizar vc por ser fundador da Oeste. Por sua astúcia, comentários com um senso de humor fino e inteligência.
    Estou feliz em fazer parte do grupo de assinantes da Revista Oeste.

    Responder
  9. Entendo que é hora de ruptura e não de conciliação. A mudança iniciada no sistema político e de administração da coisa pública precisa continuar.
    Sugeriria uma BOA ALIANÇA POLÍTICA, sob o Presidente, que parece estar sobrevivendo ao covarde ataque golpista dos que não aceitam o resultado das urnas e o temem, como o diabo a cruz.

    Responder
  10. Caro Augusto, sou seu fã de carteirinha. Mas no caso do Tancredo sinto-me na obrigação de dizer: há controvérsias.
    No que diz respeito ao momento atual não existe concicliação. Só há uma saída para acabar com o estado de coisas que o Guzzo nos mostra em seu brilhante texto. O povo brasileiro precisa se concientizar da gravidade que vivemos. Vamos todos, não pra Avenida Paulista, mas sim pra porta dos quartéis.

    Responder
  11. Precisamos de oito anos de Bolsonaro, mais oito de Moro ou um outro semelhante. Do contrário iremos amargar uma ditadura comunista daquelas. O Corona já nos deu uma amostra.

    Responder
  12. Parabens Augusto. Como é gratificante ler um texto claro, conciso, resgatando fatos históricos com precisão e isenção absolutas. Nossa juventude precisa conhecer tais realidades vivenciadas pelos cabeças brancas atuais. Bravo!!! Bravíssimo!!!!

    Responder
  13. A água pura não se mistura com óleo, ainda mais, quando de qualidade duvidosa. Assim sendo, está difícil colocar um remendo novo numa vestimenta contaminada, onde nem a linha aceita tal agravo.

    Responder
  14. Triste constatar que um país que já teve homens públicos do calibre de Tancredo Neves, esteja sob a tutela de Maias, Alcolumbres e Toffolis.

    Mesmo sem o mesmo verniz e erudição, o espírito patriota e republicano reside no Presidente Bolsonaro. Talvez o último de sua espécie.

    Responder
  15. Augusto assinei a revista por sua causa. Inteligência, integridade e competência!! Parabéns pela revista.
    Já cancelei a outra

    Responder
  16. Parabéns Augusto, grande matéria e a revista Oeste está de parabéns pelo excelente time que montou.

    Responder
  17. Tancredo era tão sábio e articulado que dizia: “telefone somente serve para marcar encontros ou reuniões”.
    Ou seja, a coisa era feita ao vivo…
    Bela matéria!

    Responder
  18. Belo texto. Como sempre.

    Responder
  19. Verdade. Não temos homens de estatura para enfrentar as crises. Mas se você fizer uma volta na história, todos eles estavam lá no poder antes de 1963 e continuaram no poder e não largaram do poder. Além do mais, redigiram a constituição dos vencedores. E o Brasil continua o mesmo, entregue aos políticos profissionais que não possuem estatura para dirigir um país tão imenso e multicolorido. Pena, vamos continuar reféns da bandidagem que se instalou nos Executivos e Legislativos e que governa de bisavô para neto desde 1889.

    Responder
  20. PARABÉNS PELO EXCELENTE TEXTO!
    PENA QUE TENHAMOS TÃO POUCOS JORNALISTAS COMO VOCÊ AUGUSTO.

    Responder
  21. Augusto boA noite ouço vc todos os dias nos pingos nos is, compartilho das suas ideias , por isso escrevi esse comentário: tudo de ruim que acontece no Brasil hoje é devido a Constituição de 1988. Foi uma constituição feita para beneficiar quem está dentro dos três poderes, executivo, legislativo e judiciário. O povo esse coitado, que não tem educação,muitos não sabem ler e nem escrever, só sao lembrados quanto tem eleição. Essas castas vem pilhando a riqueza que o país produz, corromperam a grande mídia, o supremo tribunal e muitos empresarios. Por um a caso do destino aconteceu o Lava Jato, que denunciou toda a roubalheira que os três poderes juntos vinham praticando. Depois sem apoio do establishement é eleito presidente um deputado sem prestígio algum, mas com propostas de acabar com a roubalheira, reduzir a criminalidade etc,, Ao assumir o poder e administrar o país , sem a política da cooptação, vem enfrentando os políticos que só pensam neles, o corporativismo que não aceita perder os privilégios, a grande mídia, que vivia à custa do governo e não tem mais as verbas de propaganda, enfim todos os grupos que vinham se beneficiando da roubalheira e que acabou. Agora eu não sei se você concorda, sem uma mudança profunda da política do Brasil, tais como mudança no sistema de representatividade dos deputados dos estados na câmera federal, o voto distrital para diminuir o custo das eleições e acabar com a ditadura dos partidos, podendo as pessoas se candidatarem sem pertencerem a partido Político, será muito difícil o Brasil mudar, para crescer e distribuir renda,

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Oeste — Edição 10 — 29/05/2020

OESTE NOTÍCIAS