O narcisismo dos políticos. E o nosso - Revista Oeste

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O narcisismo dos políticos. E o nosso
A cultura narcísica e o novo pacto social: eu finjo estar interessado em suas trivialidades se você fingir estar interessado nas minhas
7 ago 2020, 09:19

Recentemente vi uma foto do presidente Bolsonaro usando uma máscara em que havia uma imagem… do senhor Bolsonaro.

Confesso que pensei no título de um poema de Ernesto Cardenal, o poeta-sacerdote da Nicarágua com quem, em outras situações, não estou sempre de acordo: “Somoza desveliza la estatua de Somoza en el estadio Somoza”. Lembrei também da minha chegada a Puerto Stroessner — a atual Ciudad del Este, no Paraguai — em um barco chamado Presidente Stroessner, ao som da melodia, saindo pelo sistema de alto-falante, da polca “General Stroessner”. Comprei o disco, mas acabei perdendo-o: Cantos a Mi General.

Claro, no que diz respeito aos seres humanos, nenhuma grande descoberta, o narcisismo não é uma característica nova: faz muito tempo que Narciso olhou para dentro do lago e se apaixonou pela própria imagem refletida. Mas minha impressão — que, admito, não tem embasamento científico — é que o narcisismo em figuras públicas está aumentando.

Outra de suas características é um vazio interno que pode ser preenchido apenas pela aparição constante para e diante do público — o que também não é, em absoluto, algo inédito. A John Maynard Keynes (1883-1946), o grande economista, certa vez perguntaram o que ele achava que David Lloyd George (1863-1945), um primeiro-ministro demagogo do Reino Unido, pensava quando estava sozinho.

“Quando Lloyd George está sozinho”, respondeu Keynes, “não tem ninguém ali.”

Se não deixar rastros nas redes sociais, você é como o zumbi do folclore haitiano. Não está vivo nem morto, e sim algo no meio do caminho

Parece haver um número e proporção ainda maiores de pessoas sobre quem essa resposta seria verdade, e não, infelizmente, apenas entre figuras públicas. É uma característica comum na população. A tendência ao narcisismo e ao vazio interno que é só aliviada com a exposição pública foi intensamente reforçada pelas chamadas mídias sociais, claro. É quase como se as pessoas acreditassem que não tomaram café da manhã de fato, a menos que todos os seus amigos fiquem sabendo não só que elas tomaram café da manhã, mas o que comeram. Ninguém pegou o ônibus, ninguém comprou nada de fato, ninguém chegou ao trabalho, a menos que todos os amigos fiquem sabendo; e, claro, eles se comportam exatamente da mesma forma. A maneira de ser um tédio, disse Voltaire, é dizer tudo: mas isso foi no século 18. A forma de existir de verdade no século 21 é postar tudo no Facebook. Se não deixar um rastro ali, você é como o zumbi do folclore haitiano, ou seja, você não está vivo nem morto, e sim algo no meio do caminho.

O fato de que a vida é cada vez mais vivida e registrada para o público convence muitas pessoas de que elas e sua vida têm um significado que não teriam se vividas totalmente no privado. O simples fato de publicar dá, digamos, ao café da manhã uma importância que ele, e a vasta maioria dos outros eventos da vida, não teria se ninguém ficasse sabendo, ou pudesse ficar sabendo. A publicação da pequena mudança em nossa vida nos alivia da necessidade de comparar a insignificância de nossa própria existência com a importância ou as conquistas óbvias das outras pessoas. Existe um falso silogismo em ação:

O que é importante é publicado.

Eu publico o que faço para mim.

Logo, o que faço é importante.

Claro, o que acontece com alguém, e o que essa pessoa faz, lhe é importante. Nesse sentido, todos os homens são iguais. Mas ser existencialmente igual não é mais suficiente para um grande número de pessoas na era das celebridades. Ser é ser notado, disse o filósofo idealista Bishop Berkeley (1685-1753). Em outras palavras, a própria existência de qualquer coisa depende de haver um sujeito que a perceba para fazê-la existir. Quando o sujeito que o percebe desvia o olhar ou vira as costas, o objeto deixa de existir. Cada vez mais, eu deduzo, as pessoas sentem a mesma coisa sobre si mesmas. E, quanto mais são notadas, mais sentem que verdadeiramente existem. Quando estão a sós, como Keynes disse de Lloyd George, não tem ninguém ali, mesmo para si mesmas.

A era das mídias sociais é a era do narcisismo, e o narcisismo é incompatível com a sociabilidade

E, no entanto, ninguém consegue acreditar de fato na filosofia de Bishop Berkeley, para quem como as coisas só são conhecidas pela percepção elas deixam de existir quando não são notadas. Ninguém acredita de verdade que, se fechar os olhos, as coisas em volta deixarão de existir, só para voltar a existir quando os olhos forem abertos. Da mesma forma, ninguém pode realmente achar que os detalhes do próprio café da manhã são importantes se relatados nas redes sociais. Portanto, para manter o fingimento, existe um novo pacto social: eu finjo estar interessado em suas trivialidades se você fingir estar interessado nas minhas. E, se essa farsa prossegue por tempo suficiente, ela ganha certa realidade. Se você fingir ser algo por tempo suficiente, é o que você se tornará. Assim, se fingir ter interesse nas banalidades da existência cotidiana, você de fato ficará interessado nelas, à exclusão de todo o resto, e sua mente se atrofiará.

A era das mídias sociais é a era do narcisismo, e o narcisismo é incompatível com a sociabilidade. Antes que a covid-19 pusesse fim ao turismo de massa, pelo menos temporariamente — um de seus poucos benefícios inquestionáveis —, você via as pessoas em toda parte tirando fotos de si mesmas com seus celulares com “paus de selfie” criados especialmente para esse propósito: eu e a Mona Lisa, eu e David, de Michelangelo, com ênfase no eu. Elas não se dariam ao trabalho se não fosse possível mandar a foto como uma espécie de resposta a alguém que tivesse enviado “eu e o Taj Mahal”, ou “eu e eu e o Angkor Wat”.

Então, a máscara do presidente Bolsonaro — eu e o vírus da covid-19 — sem dúvida é ridícula. Mas não mais ridícula, nem muito diferente, que o comportamento de milhões de nós — exceto, claro, pelo fato de ele ser o líder de um país. Mas, como o político radical francês do século 19 Ledru-Rollin supostamente disse: “Preciso seguir as pessoas porque sou o líder delas”.


Theodore Dalrymple é o pseudônimo do psiquiatra britânico Anthony Daniels. Daniels é autor de mais de trinta livros sobre os mais diversos temas. Entre seus clássicos (publicados no Brasil pela editora É Realizações), estão A Vida na Sarjeta, Nossa Cultura… Ou O Que Restou Dela e A Faca Entrou. É um nome de destaque global do pensamento conservador contemporâneo. Colabora com frequência para reconhecidos veículos de imprensa, como The New Criterion, The Spectator e City Journal.

 

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10 Comentários

  1. Lendo sua narrativa sobre a visita ao Paraguai e o trecho do poema nicaraguense, fiquei com vontade de convidá-lo para um passeio na Bahia, uma de nossas unidades federativas, onde a família Magalhães, com destaque para Luiz Eduardo, uma promessa política precocemente falecida, cumpre idêntico papel de ubiquidade, provando que o narcisismo e o provincianismo são perenes e universais – ao menos, indiscutivelmente latino-americanos.

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    • Pensei a mesma coisa, só que envolvendo os Sarney e o Maranhão.

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  2. Augusto meu jornalista preferido essa crônica de Theodore Dalrymple que tal aplicar aos egrégios pretórios do STF não seria bom , vc que descreve-os com tanta sabedoria e eficiência. Por favor leia e depois desfrute.

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  3. Muito divertida sua crónica. Embora eu não veja nada de ridículo em Bolsonaro usar uma máscara com sua própria cara. Eu usaria. E talvez ele tenha ganhado de alguém. Mas seu texto me fez lembrar que durante um longo tempo eu acreditava que eu era a única pessoa que gostava de se exibir – isso muito antes das redes sociais. Eu me tinha em alta conta e me achava muito especial. Daí, um dia descobri que todas as pessoas gostam de se exibir. Foi decepcionante. Muito mais do que surpresa, eu fiquei frustrada por descobrir que não havia nada de especial nisso.

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  4. Como diz a letra na música da banda Ultraje a rigor.”Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim.”
    Parece que eles já estavam adivinhando essa tara pela Self de hoje em dia.

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  5. Dispensada a alfinetada ao Presidente, o autor deve desconhecer os reais mandantes do Brasil, 11 seres indicados pelo governo mais corrupto da história e o líder anterior, que o narcisismo atingiu muito mais que uma máscara com sua imagem. Vale conhecer melhor os personagens para poder fazer um texto melhor.

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  6. Narcisismo precisa ser mais estudado.Da Mitologia grega, Freud utilizou Narciso e sua única amiga Eco,filha de Zeus,que o alimentava de elogios,à beira do lago onde se refletia,para explicar os(as)psicopatas narcisistas.Existem variações de comportamento,desde o simples “café da manhã”e as “selfies, “até o mais grave, onde só ele existe e tem valor,com prejuízo para o próprio e os que o cercam.Na real, Narciso nunca se amou nem amava ninguém.Morreu seco e definhado.Por isso incompatível com a sociabilidade.Mas se você fingir por muito tempo interesse em trivialidades,melhor assinar e ler Oeste.Ou consultar um psiquiatra.

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  7. O escritor Mark Twain disse certa vez: “De um bom elogio eu posso viver dois meses”. Ora, quem sabe não seja este o segredo do narciso. Elogiando-se a si próprio o tempo todo, sua vida vai se construindo. Bastam seis elogios ao ano e pronto, o problema estará resolvido. Fácil assim.

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  8. Ler Theodore Dalrymple é unir o útil ao agradável. Mas não dava para traduzir “Bishop Berkeley” para “bispo Berkeley”?

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  9. na minha opinião (eu tenho) pessoas que ficam postando detalhes prosaicos de suas vidinhas são ridículas, talvez pelo fato que sempre amei se uma anônima na multidão.

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Revista Oeste — Edição 27 — 25/09/2020

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