O perigo do aumento da consciência racial - Revista Oeste

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O perigo do aumento da consciência racial
Ganha força a ideia de que a virtude do indivíduo não é determinada pelo seu próprio caráter, mas pelo caráter etno-histórico de sua raça
11 set 2020, 08:08

A raça está na vanguarda do discurso de hoje. A universidade, o jornalismo e o governo foram influenciados por uma visão de mundo de “justiça social”, que às vezes se refere a si mesma como interseccional, pós-modernismo aplicado ou neomarxismo. Enquanto lutamos para entender essas tendências culturais, existe uma socióloga relativamente desconhecida cujo trabalho oferece uma visão profunda do que está acontecendo hoje.

Em 1981, Anne Wortham publicou The Other Side of Racism — A Philosophical Study of Black Race Consciousness [O Outro Lado do Racismo — Um Estudo Filosófico da Consciência da Raça Negra]. O livro buscou entender os impulsionadores psicológicos e intelectuais do ativismo pelos direitos civis.

Embora o movimento pelos direitos civis, sem dúvida, tenha feito avanços fantásticos e necessários pela liberdade, algumas das ideias etnocoletivistas que Wortham estudou persistem hoje e se tornaram totalmente arraigadas. O conceito dela de “consciência etnorracial”, desenvolvido havia décadas, dá uma grande compreensão sobre como muitos entendem a raça atualmente.

Considere o caso do Evergreen State College. Em 2017, um grande grupo de estudantes confrontou o professor de biologia Bret Weinstein sobre sua objeção às ações propostas para o “Dia da Ausência”. No tal “dia”, o grupo queria alunos e professores brancos fora do câmpus para pôr foco integral nos estudantes negros e permitir-lhes discutir justiça social. Durante os protestos, os estudantes coagiram administradores, fizeram barricadas em torno da biblioteca e efetivamente paralisaram a instituição. Os protestos resultaram em uma série de ações judiciais, com Weinstein deixando Evergreen como parte de um acordo. Esse caso é um exemplo perfeito das atitudes e comportamentos etnocoletivistas que caracterizam uma visão de mundo de justiça social contemporânea.

Brancos na sociedade “branca” seriam como peixes incapazes de perceber a água racista em que nadam

Terminei recentemente minha tese de mestrado sobre o caso Evergreen, e parte da minha análise desse evento extraordinário se baseia na ideia de Wortham de consciência etnorracial. Ela define isso como “um nível psicológico, consciente e volitivo de consciência em que um indivíduo percebe a si mesmo e aos outros de acordo com as características das categorias raciais a que pertencem e aos grupos étnicos aos quais estão filiados”.

Uma pessoa consciente da etnorraça se percebe antes de tudo como sua raça. Como disse uma aluna da Evergreen: “Sou uma mulher negra antes de ser meu nome [Ava Johnson]. Sou uma mulher negra antes de ser estudante. Sou uma mulher negra antes de ser cidadã dos Estados Unidos da América”.

Esse tipo de pensamento substitui a ideia do indivíduo por uma visão de si mesmo como parte de um coletivo étnico mais amplo. Em consequência, isso significa que qualquer interação entre pessoas de diferentes etnias é fundamentalmente uma troca diplomática entre grupos étnicos. Essa é uma razão pela qual as pessoas costumam prefaciar suas opiniões com sua identidade de grupo, dizendo coisas como “falar como uma mulher branca” ou “como uma pessoa negra”.

A consciência etnorracial, Wortham explica, não é apenas um interesse passageiro na etnia de alguém, mas a crença de que a raça é a base da autoridade cognitiva. Você pode ver isso manifestando-se na Evergreen, e na sociedade em geral, na ideia de que existem verdades que só podem ser acessadas por certos grupos étnicos. Considere o trabalho de Robin DiAngelo, autor do best-seller White Fragility, que argumenta que os brancos na sociedade “branca” são como peixes incapazes de perceber a água racista em que nadam. Na verdade, essa é frequentemente uma justificativa por trás das iniciativas de diversidade, na medida em que os brancos não podem perceber ou compreender o funcionamento da raça e, portanto, devem se submeter a outros cuja etnia lhes conceda autoridade no assunto.

Não se pode ter uma “conversa sobre raça” se as opiniões das pessoas forem invalidadas com base na cor da pele

Outro aspecto aparente dessa visão de mundo é o que chamo de “determinismo etno-histórico”, a ideia de que não é o conteúdo do caráter de alguém, mas o caráter histórico de sua raça que determina a virtude de uma pessoa. Isso significa que o negro hoje é ele mesmo considerado vítima de séculos de escravidão e opressão monstruosa, enquanto o branco hoje é ele próprio o responsável por essa vitimização.

Uma consequência trágica disso é a segregação de fato e na lei, como dormitórios universitários exclusivos para negros ou o agora infame Dia da Ausência de Evergreen. Igualmente preocupante é o apartheid intelectual que esse tipo de pensamento impõe. A dissidência pode ser invalidada com base na identidade do grupo, o que torna o diálogo impossível. Não podemos ter uma “conversa sobre raça”, como muitas vezes é exigido, se as opiniões das pessoas forem invalidadas com base na cor de sua pele.

Essa visão de mundo, que permeou muitas instituições sociais, políticas e educacionais, rejeita as nuances e a tolerância necessárias para o funcionamento de uma sociedade pluralista. Esse tipo de coletivismo, como Wortham argumentou, “busca reforçar as fronteiras que dividem os grupos hereditários e promover a solidariedade dentro desses grupos, independentemente do que os membros individuais do grupo possam desejar”. Mas devemos ter permissão para discordar e nos associar separadamente de nossas afiliações de grupo, caso contrário corremos o risco de exacerbar essas divisões artificiais.

O conceito de consciência etnorracial de Wortham foi muito útil em minha pesquisa sobre Evergreen, e eu suspeito que pode nos ajudar a entender nossa política cada vez mais “racializada”. É claro que muitas pessoas hoje estão de fato adotando uma consciência etnorracial e transformando uma característica superficial de sua identidade na base fundamental de sua pessoa, ao mesmo tempo em que consideram suas características individuais (ou realidades biológicas como o sexo) como construções sociais arbitrárias. Eles estão tornando essencial o superficial e externalizando o essencial. Estão se virando do avesso.

Leia também os artigos “A nova política racial: separar brancos de negros” e “A nova religião dos antirracistas”


Shaun Cammack é colaborador associado do Young Voices e estudante de graduação na Universidade de Chicago. Sua tese, “The Evergreen affair: a social justice society” [O Caso Evergreen: uma sociedade de justiça social], estuda as considerações morais, os valores e as crenças fundamentais que sustentaram o caso do Evergreen State College em 2017. Siga-o no Twitter: @shaunjcammack.

 

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3 Comentários

  1. Creio que esse negócio de identidade de grupos não pode estar acima dos ideais de uma nação como a americana em si mesma. Há muita coisa em risco. Os problemas mundiais que nos afligem não serão resolvidos com consciência disso ou consciência daquilo. Bastou uma pandemia mundial de algo invisível, o vírus, para sacudir o planeta e externar a cretinice de grande parte de nossas convicções. Nossas democracias ocidentais têm sido complacentes demais com seus inimigos internos, em especial professores universitários que se valem de seu anonimato e liberdade para lutar dia e noite pela destruição das bases de nossa civilização . Já está passando de hora de colocar as cartas sobre a mesa.

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    • Excelente artigo. O autor expõe de forma cirúrgica os prinvipais problemas da consciência étnorracial , problemas esses que costumam ser ocultados no debate acadêmico e midiátici, como se estivéssemos apenas diante da luta contra o racismo

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  2. Se brancos não podem debater sobre questões históricas envolvendo negros por que motivo negros poderiam opinar sobre questões de brancos? Fica muito claro a tática marxista de divisão de classes em toda essa baboseira. A América sucumbe ao vírus da Escola de Frankfurt a qual acolheu tão bem. às vezes um pouco de radicalismo vai bem: se houvessem chutado os traseiros dos alemães da Escola de Frankfurt a América hoje ainda seria grande e talvez o único inimigo à altura dos malditos globalistas.

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Revista Oeste — Edição 27 — 25/09/2020

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