O perigo mora numa praça em Brasília - Revista Oeste

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O perigo mora numa praça em Brasília
Qualquer movimentação de tropas é menos assustadora que uma conversa em voz baixa entre Gilmar Mendes e Rodrigo Maia
24 abr 2020, 16:02

O presidente da República é um milico de carteirinha, tem como vice um general e governa em sintonia com oficiais instalados em cargos estratégicos. Por que tantos militantes que votaram em Jair Bolsonaro seguem empunhando a bandeira da “intervenção militar”? Estariam insatisfeitos com o desempenho do chefe de governo e seus ministros fardados? Nada disso, informam os comandantes da tropa de soldados à paisana. Todos querem que Bolsonaro e o grupo que trocou a farda verde-oliva pelo terno cinza-planalto permaneçam onde estão. Mas exigem que o Congresso e o Superior Tribunal Federal sejam varridos da Praça dos Três Poderes. Removidas as pedras do caminho, e com o apoio explícito e incondicional do Exército, da Marinha, da Aeronáutica e do Povo, Bolsonaro enfim daria um jeito no Brasil.

Os intervencionistas são primos-irmãos dos devotos da seita que tem em Lula seu único deus.

“Um dos nossos grandes erros foi não ter promovido militares simpatizantes do PT”, confessou José Dirceu entre uma temporada na cadeia e uma sequência de bandalheiras gerenciadas pelo guerrilheiro de festim que virou facilitador de negociatas. Nas fantasias do capitão do time de Lula, expulso de campo por jogadas criminosas, a existência de coronéis e generais petistas poderia ter transformado Lula num Hugo Chávez dispensado de estudar em colégios militares. Ou, por que não?, num Fidel Castro poupado de tiroteios e do desconforto da vida na mata. (Dirceu sempre chorou nos reencontros com Fidel Castro. Mas o choro ficava mais sentido quando Fidel aparecia com o uniforme de comandante.)

Em 2005, no discurso em que formalizou a entrega da Casa Civil a Dilma Rousseff, Dirceu evocou os tempos em que declararam guerra ao governo militar. “Minha companheira de armas”, fantasiou na saudação à sucessora. Nenhum dos dois jamais disparou uma bala de verdade — ela porque nunca foi além do apoio logístico aos grupos de ação, ele por ter optado pela rendição preventiva. Mas ambos capricham na pose de guerreiro várias vezes condecorado por demonstrações de bravura em combate, e fazem de conta que serão os primeiros a liderar batalhões imaginários. O “exército do Stédile”, por exemplo. Ou o “exército da CUT”, há muito tempo entrincheirado em algum grotão do Brasil. É natural que sonhem com a adesão de tropas de verdade. E teimem em enxergar nos chefes militares de 2020 os generais de 1964.

Nada a ver, confirma a reação dos oficiais graduados à manifestação ocorrida neste 19 de abril nas imediações do Quartel-General do Exército, em Brasília, com a participação do presidente da República. Bolsonaro não incluiu em seu discurso nenhuma das palavras de ordem, berradas pela minoria dos participantes, que exigiam o fechamento do Congresso e do Supremo. Mas só as renegou no dia seguinte. Generais da reserva mal camuflaram o desconforto causado pela escolha do local do ato político. Militares da ativa não viram nada de mais — nem no cenário da manifestação nem nas bandeiras desfraldadas por correntes radicais. Se o evento aconteceu ali, deduziram oficiais graduados, certamente fora autorizado pelo comandante do Exército. Todos reiteraram o mantra: o Exército se limita às atribuições estabelecidas pela Constituição. Tradução:

56 anos depois do confronto de 1964, as Forças Armadas são essencialmente profissionais.

Não foi assim enquanto existiu o Partido Verde-Oliva, surgido na década de 1920 na esteira das ações políticas da mais impetuosa e politizada geração de tenentes. Divididos em alianças cuja composição obedecia às circunstâncias e conveniências, os líderes do movimento tenentista desempenharam papéis relevantes na Coluna Prestes, na Revolução de 1930, no parto e na agonia do Estado Novo, nas eleições presidenciais que se seguiram ao fim da ditadura, na crise que levaria Getúlio Vargas ao suicídio, nos barulhos que marcaram a eleição e a posse de Juscelino Kubitschek, na renúncia de Jânio Quadros, na deposição de João Goulart e na instauração do regime militar de 1964. Ao longo desse período, os antigos tenentes criaram a figura do militar anfíbio, que podia usar alternadamente o terno de governante civil e a farda de comandante de tropas.

Até sair de cena como marechal, o tenente Oswaldo Cordeiro de Farias foi interventor do Rio Grande do Sul de 1938 a 1943, um dos comandantes da FEB na Segunda Guerra Mundial em 1944, comandante do III Exército em 1949 e governador eleito de Pernambuco entre janeiro de 1955 e novembro de 1958. Novamente nomeado para o comando do Exército durante o governo Jango, nem chegou a assumir o posto. Engajado na conspiração que seria vitoriosa em 1964, foi incorporado ao alto escalão do presidente Castello Branco como ministro do Interior. A primeira reunião do ministério juntou Cordeiro de Farias aos velhos companheiros Eduardo Gomes (candidato à Presidência em 1945 e em 1950), Juarez Távora (candidato à Presidência da República em 1955) e Juracy Magalhães (que chegou como interventor ao governo da Bahia e voltou duas vezes ao cargo pelo voto popular).

O processo de modernização das Forças Armadas incluiu a extinção dos anfíbios, decretada por Castello Branco.

Mas os remanescentes do tenentismo continuaram em ação. E coube a um deles, Ernesto Geisel, planejar e conduzir a “abertura lenta, gradual e segura” que, ao fim do mandato de João Figueiredo, encerrou o ciclo dos generais-presidentes, ressuscitou o regime democrático e afastou as Forças Armadas do desgastante monopólio do poder. Nos anos seguintes, generais que eram adolescentes ou nem haviam nascido em 1964 ensinaram a sucessivas gerações de cadetes que política não rima com quartel. Hoje, o típico militar brasileiro se concentra na missão de preservar a integridade do território nacional e garantir a lei e a ordem constitucional. Quem gosta do tiroteio eleitoral abandona a caserna a vai à luta.

Só não sabe disso (ou finge não saber, o que dá na mesma) gente que vê o começo da reprise de 1964 quando ouve o toque de clarim que abre uma parada militar. Para esses, o passado não passa. A essa tribo pertencem jornalistas que consumiram parte da vida consultando, coração em descompasso, a dança das estrelas no Almanaque do Exército. Eles recitavam os nomes dos generais de exército — possíveis presidentes da República, portanto — com mais segurança que a demonstrada quando instados a escalar o ataque do Santos de Pelé. Hoje, não chegam a cem os inscritos no Enem que sabem quem é o comandante da Aeronáutica. Mas até cretinos fundamentais conhecem os presidentes da Câmara e do Senado, e soletram nome e sobrenome dos onze ministros do Supremo que atuam no time da toga. Olho neles. Qualquer movimentação de tropas é menos assustadora que uma conversa em voz baixa entre Gilmar Mendes e Rodrigo Maia.

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19 Comentários

  1. Mais uma vez parabéns, caro Augusto.
    Entretanto permita-me uma pequena obeservação. A “abertura lenta, gradual e segura” promovida pelo general Geisel, culminou com a anistia ampla geral e irrestrita. Isso permitiu a volta de tipos como Brizola, Zé Dirceu, Pirmentel, Tarso Genro, etc,etc…. a lista é enorme e amplamente conhecida. Esse foi o maior erro do regime militar. A volta dessa corja deu origem ao aparecimento da outra que há mais de 20 anos vem destruindo o Brasil.

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    • As FFAA tanto se profissionalizaram em 56 anos, que jamais contratarão jornalistas do tipo Amaral Neto, “O repórter”, ou biônicos tipo Fernando Bezerra, reeditando o “Pacote de Abril de 1977”.
      Deus é mais.

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    • Concordo integralmente com seu comentário, o que deveria ter sido feito , é uma anistia geral e ampla com a impossibilidade de serem eleitos pra qualquer cargo publico, nomeados ou concursados.

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      • Realmente…o maior perigo reside em uma conversa do tipo Rodrigo Maia com Gilmar Mendes.

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      • Será??? Tenho muitas dúvidas. Mais uma vez fomos enganados. O Bolsonaro foi eleito por grande parte da população que não queria mais o PT no poder. Se elegeu com dois pilares da moral e ética e da liberal. E o resultado depois de 15 meses tudo acabou com o acordo com o nefasto Centrão. #forabolsonaro

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    • Exatamente isso. Alem do mais, permitiu que “essa turminha” participasse ativamente da CONSTITUIÇÃO DE 1988. Eis o resultado!

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      • Mais uma vez, análise impecável.

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    • Parabéns, comungo de sua manifestação. Aliás, o Brasil ficou mal regenerado na falta de uma reforma política de verdade, porque em 1979 revigoraram o Código Eleitoral de 1932, mantendo o mesmo sistema eleitoral em que os coronéis políticos mandam e desmandam no Brasil e, um sistema onde você vota em um e elege outro, na tal lista aberta do voto proporcional. Esse é um erro que levará gerações para corrigir. Afinal o coronavírus não fez a tão sonhada reforma política.

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  2. Perfeito. Continuemos a nossa luta por um Brasil melhor. Que venha as investigações do PGR, pois não temos bandidos de estimação. Mas no momento #ForaMaia #FechadoComBolsonaro.

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  3. Caro Augusto
    Ja esta ficando redundante parabeniza-lo pelo texto.
    Seu leitor ou telespectador desde sempre , desejo vida longa.
    Hj assisti a Santissima Trindade (pingos nos is) e resta uma pergunta , talvez inocente:
    O PR não cometeu crime ao juntar seus vassalos , contrariando recomendações de isolamento , e o único a usar mascara foi o P.Guedes , tbm o único a não aplaudir
    a continência verborragica?
    Abs

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  4. Nada como uma cultura perspicaz para ridicularizar com fino humor, os dogmas da história com seus heróis paspalhões.A.Nunes dá uma aula engraçadíssima que deveria servir como modelo para nossos professores.Não dá pra não rir de suas frases perfeitas,quando coloca os personagens nos seus devidos lugares e com as qualidades que pensavam ter.Pra quem não leu, recomendo também a biografia de José Dirceu na ultima edição.A história contada assim fica mais fácil lembrar.E mais fácil destruir a áurea das “otoridades”.Rs,Rs,Rs,Rs,Rs……..

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  5. Direto ao ponto .. os que confabulam contra o Brasil mudaram de endereço e uniforme e são pagos por nós, com o nosso dinheiro ..

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  6. Parabéns!

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  7. Ler Augusto Nunes é um aprendizado.

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  8. Caro Augusto.
    Ninguem ate agora falou do excelente trabalho que Moro vinha fazendo em relaçao ao crime organizado .Nao parece estranho isso?E somando-se a isso veja que” coincidencia ” segundo reportagem do Estadao”As portarias 46, 60 e 61, revogadas pelo comandante do Colog, general Laerte de Souza Santos, por exigência de Bolsonaro, foram elaboradas em conjunto por militares, policiais federais e técnicos do Ministério da Justiça. “Determinei a revogação das portarias (…) por não se adequarem às minhas diretrizes definidas em decretos”.
    Essas portarias estabeleciam o controle, rastreabilidade e identificação de armas e munições importadas e fabricadas pela indústria nacional, sob a finalidade de atividades esportivas, de colecionador e também para abastecer os quartéis. Na avaliação dos procuradores, ao revogá-las, o governo facilita o acesso do crime organizado a armas e munições desviadas. “A cidade do Rio de Janeiro é a face mais visível dessa ausência de efetivo controle no ingresso de armamento no País”(fonte Estadao).
    Na minha avaliaçao, (de mera mortal), Moro so fez o que fez, porque sabia que seria moido, pela “famosa maquina de moer reputaçoes”, tao utilizada pelo presidente e cercanias, e tornou publico ( mostrando as armas que possuia),optando pela REDE GLOBO, principal desafeto do Presidente ( odio reciproco)que lhe daria espaço e que utilizaria suas declaraçoes para “bater” no PR o dia todo e todo o tempo.Considero isso um golpe de mestre.

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  9. Caro Augusto Nunes, sempre perfeito nos comentários. Aproveito para fazer uma questão: será possível democraticamente acabar com o foro privilegiado, a verba de gabinete, a verba de moradia, auxílio gasolina, o salário acima do teto dos políticos e do judiciário, a venda de sentenças no STF(dito por Barroso), férias de 60 dias dos juízes, pagamento de férias de mais de 500 mil reais, foro privilegiado de ministros do STF e a gastança do congresso e do STF? Se o dileto jornalista disser que isto é possível dentro da democracia e através do voto dos parlamentares e ministros do STF, eu direi que vc. acredita em papai noel. [email protected]

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  10. A “renovação” do Congresso, a eleição de um Presidente descolado da vertente política tradicional (de direita e conservador), não foram suficientes para mudar o rumo de nossa política. Há um STF construído sobre essas mazelas, que vetou a reforma política, que extinguiria os partidos de aluguel. Estes sustentam os conchavos mais expúrios, capitaneados por Maia, Alcolumbre e Ministros dos Tribunais Superiores. Maldita PRAÇA…

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  11. “Hoje, o típico militar brasileiro se concentra na missão de preservar a integridade do território nacional e garantir a lei e a ordem constitucional.”

    A lei e a ordem constitucional são flagrante e frequentemente desrespeitadas pelo STF, pelo Congresso Nacional, por governadores e por prefeitos. Mas as Forças Armadas não as restabelecem!

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  12. Tomara que o Presidente consiga encontrar um caminho alternativo escapando da estrada pavimentada pelos demais Poderes através dos anos. Hoje o legislativo e o judiciário passam por cima das decisões do Presidente, transformando-o em uma figura quase decorativa, enquanto o Brasil
    é governado por congressitas corporativistas e corruptos, além de juízes compromissados com governantes anteriores que os escolheram.

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Revista Oeste — Edição 10 — 29/05/2020

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