O possível caminho da imunidade coletiva - Revista Oeste

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O possível caminho da imunidade coletiva
Há chance de que a chamada “imunidade de rebanho” seja atingida antes do que se imaginava. É uma excelente notícia, mas a cautela ainda é indispensável
17 jul 2020, 09:30

Mais do que nunca, o mundo está à procura da cura para a covid-19. A notícia divulgada na última terça-feira, dia 14, de que a farmacêutica norte-americana Moderna avança rumo à terceira e última fase de testes da vacina para combater o coronavírus é um alento para a população mundial. Desde o primeiro caso registrado em Wuhan, na China, em dezembro de 2019, mais de 13 milhões de pessoas foram contaminadas pela covid-19 em todo o mundo e mais de 580 mil morreram.

Enquanto a vacina não chega, o Brasil discute como juntar os “cacos” resultantes da catástrofe da natureza e da política de isolamento social para retomar a economia de forma segura e responsável. O Estado de São Paulo, epicentro da pandemia no país, iniciou seu plano de flexibilização gradual desde o final de junho. E bastou o aceno de que as portas de comércios, bares e restaurantes pudessem abrir para os adeptos do confinamento eterno e do jornalismo funerário começarem a dizer que os casos de covid-19 devem aumentar e chegará uma “segunda onda” de contaminação ao país.

Entre as muitas teses sobre isolamento, vacinas e medicamentos para combater o vírus, a discussão do momento gira em torno da possibilidade de que a capital paulista esteja próxima da faixa em que ocorre a imunidade de rebanho, de acordo com recente artigo publicado pelo biólogo Fernando Reinach no jornal O Estado de S. Paulo.

A chamada imunidade de rebanho ou coletiva acontece quando o número de pessoas resistentes ao vírus atinge uma fração da população suficientemente alta para que o vírus não encontre outras suscetíveis à infecção, explica Reinach.

Essa seria, em tese, uma boa notícia: o Brasil conseguiria se ver livre da covid-19 mais cedo, sem temer uma segunda onda de infecção. Mas qual seria o porcentual ideal para atingir a imunidade de rebanho —  60%, 40% ou 15% de infecção da população? Para responder a essa pergunta, é preciso saber quantas pessoas já foram infectadas pelo coronavírus. E, para ter essa resposta, a política de testagem em massa deveria ser feita em larga escala em todo o país desde o registro dos primeiros casos da doença. Prática que não ocorreu. O Estado de São Paulo efetuou mais de 1,1 milhão de exames, o que equivale a 24.977 testes por milhão de habitantes, média superior à do Brasil, mas inferior à de países como Iraque, Colômbia e Paraguai. Se fosse um país, o Estado estaria em 98º lugar em um ranking de 215 nações. Antes tarde do que mais tarde ainda, quatro meses após a chegada do coronavírus, o governo do Estado lançou em 16 de julho o Placar de Testes do Governo de SP para dar transparência à divulgação dos dados sobre a gestão da pandemia. Além disso, a gestão de Bruno Covas admite ter gasto mais de R$ 45,8 milhões na construção e operacionalização dos hospitais de campanha do Anhembi e do Pacaembu na capital paulista. Quanto à política de testagem, a cidade com R$ 69 bilhões de receita anual e o terceiro orçamento do país, depois do orçamento da União e do Estado paulista, realizou cerca de 523 mil testes, de acordo com dados divulgados pela Secretaria Especial de Comunicação da prefeitura e investiu até o momento 23,9 milhões na aquisição de exames.

Coreia do Sul, o grande exemplo

Um estudo realizado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), no Rio Grande do Sul, em parceria com o Ministério da Saúde, revelou que o número de brasileiros que já tiveram contato com o coronavírus pode ser até seis vezes maior do que os casos oficialmente contabilizados pelo Ministério da Saúde — que hoje estão em cerca de 2 milhões. Para o reitor da UFPEL e coordenador do estudo chamado Epicovid19, Pedro Curi Hallal, falta no país uma política de testagem. Questionado sobre os motivos que levam a que o Brasil seja um dos países que menos faz teste diagnóstico em todo o mundo, Pedro Hallal disse em entrevista ao portal Hora do Povo: “No começo, faltavam testes. Agora, não é esse o problema. Falta uma política de testagem para determinar que, para cada positivo identificado, vamos rastrear os cinco ou dez contatos mais próximos do indivíduo para poder bloquear a transmissão do vírus”. Segundo o site Worldometer, no Brasil são testadas 23.098 pessoas a cada milhão de habitantes, ante 135.464 nos Estados Unidos, 183.531 no Reino Unido e 100.120 na Itália. 

Outro ponto que pesa em relação à política de testagem no Brasil é que muitos testes sem qualificação foram aprovados pela Anvisa. Segundo o médico patologista clínico, mestre e doutorando em biologia de agentes infecciosos e parasitários da Universidade Federal do Pará (UFPA) David Bichara, em razão da urgência da pandemia, só agora o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, que é da Fiocruz, começou a avaliar os testes e fazer a validação. “Quarenta desses testes já foram reprovados e retirados do mercado depois de aprovados e de terem sido usados pela população.”

O Brasil perdeu a oportunidade de observar lições de outros países para criar sua própria estratégia. A Coreia do Sul é o grande exemplo de sucesso no combate ao coronavírus. O país apresentou uma das menores taxas de letalidade da doença no mundo, 0,9%, e uma das principais cartadas para enfrentar a pandemia foram os diagnósticos massivos para a doença, obtidos por meio de uma política de testagem do maior número possível de pessoas. A liberação de testes já em fevereiro permitiu a identificação rápida de áreas onde a doença estava ocorrendo com mais frequência, o isolamento de bairros críticos, bem como a desinfecção dessas regiões. Além disso, a polícia e os serviços médicos voltaram boa parte de suas forças para fazer um trabalho de detetive na identificação e rastreio dos indivíduos com quem os primeiros contaminados tiveram contato. O rastreamento epidemiológico do coronavírus foi feito tão rigidamente no país asiático que cada paciente recebeu um número específico e o último doente grave a ser recuperado, um piloto de avião escocês que passou três meses na UTI depois de ir a um bar, ficou conhecido por “Paciente 91”. 

Quatro pilares: conhecimento, consciência, disciplina e coletividade

Mesmo com casos de subnotificação e falta de testagem em massa, é possível que regiões do Brasil tenham atingido a imunidade coletiva? Não há consenso na comunidade científica sobre a questão. Até agora, os cientistas trabalhavam com uma estimativa que variava de 60% a 70% de pessoas com resposta imunológica para atingir a imunidade de rebanho. Isso significa que esse porcentual da população precisaria entrar em contato com o vírus para que uma região estivesse “imune”. A ressalva quanto a esse método é que ele considera a população de modo homogêneo, como se todos fossem iguais.

“Pesquisadores suecos e britânicos dizem agora que, considerando que a taxa de transmissão do vírus seja de 2,5 (cada cem indivíduos infectados transmitem para 250), a proporção de pessoas que precisam se infectar para que haja uma imunidade coletiva é de 43%, abaixo dos 60% sugeridos anteriormente”, explica a infectologista e consultora em biossegurança e controle de riscos da SBI, Sylvia Lemos Hinrichsen. A médica também afirma que as novas pesquisas levam em consideração a heterogeneidade da população, isto é, as condições de vida diferentes de cada grupo. “Haveria grupos que interagem com muitas pessoas por dia, os que ficam na média e os formados por pessoas mais solitárias”, aponta a médica. “Já os que vivem em áreas rurais, por exemplo, têm menos interações se comparados a quem vive em regiões urbanas e trabalha em grandes empresas.” No estudo Epicovid-19, da UFPEL, a situação econômica dos brasileiros pesquisados também influenciou nos resultados. Há maior proporção da população com anticorpos conforme diminui o nível socioeconômico, isto é, quanto mais pobre, maior o risco de ter contato com a doença.

Na Universidade de Strathclyde, em Glasgow, na Escócia, a professora de matemática e estatística Gabriela Gomes vai ainda mais longe. Nos últimos meses, ela colabora com um grupo internacional de matemáticos para executar modelos que incorporam as muitas variáveis de como o vírus afeta as pessoas. Seu objetivo tem sido afastar-se ao máximo das médias simples e adicionar o maior número possível de efeitos díspares do vírus ao fazer novas previsões.

Com base em dados de vários países da Europa, os resultados de seus estudos mostram um limiar de imunidade de rebanho muito menor que o de outros modelos: menos de 20%. Se isso se provar correto, seria uma excelente notícia. Mas não significa que o vírus se foi. Segundo estimativas da professora de Glasgow, se uma em cada cinco pessoas em determinada população é imune ao vírus, esse índice pode ser suficiente para retardar sua propagação. Nesse cenário, cada pessoa infectada transmitiria a doença para uma média inferior a uma outra pessoa — assim, o número de infecções diminuiria constantemente. Essa é a definição clássica de imunidade de rebanho. Isso significaria, por exemplo, que com 25% de prevalência (número de pessoas que já foram infectadas e possuem anticorpos) a cidade de São Paulo poderia continuar reabrindo seus estabelecimentos com cuidado, sem medo de outro grande aumento de casos.

Para o médico cardiologista Juliano Lara Fernandes, formado pela Unicamp, com doutorado na FMUSP e MBA em Gestão de Sistemas de Saúde pela FGV, o risco de uma segunda onda intensa após a reabertura dos estabelecimentos é bastante baixo no país, “dado que tivemos um isolamento muito pouco efetivo na prática e o número de imunes é, presumivelmente, bastante elevado”. Em todo caso, todos os médicos entrevistados pela reportagem da Revista Oeste foram unânimes em recomendar que, até que uma vacina seja aprovada e esteja disponível, quatro ideias precisam guiar a relação de qualquer país com o vírus chinês: conhecimento, consciência, disciplina e coletividade. Esses quatro pilares devem sustentar a reabertura segura das cidades enquanto a imunidade farmacológica não chega.

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9 Comentários

  1. Ótimo artigo,inteligivel, esclarecedor. Vemos que apesar dos absurdos cometidos por governantes inescrupulosos avalizados pelo judiciário, com o passar do tempo e a desobediência às decisões autoritárias venceremos o virus chinês.

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    • Excelente matéria! Estou cada vê mais satisfeito em assinar a Oeste! Abraços e vamos que vamos!

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  2. Excelente artigo. Sem dúvida, é necessário que o Brasil tenha uma política séria, coordenada e efetiva de testagem das pessoas infectadas pelo vírus. Só assim poderíamos ter uma resposta mais segura sobre a eficácia da imunidade de rebanho, em face do poder de contágio do coronavírus. Mesmo sem termos atingido um índice razoável de testagem no país, os casos ainda muito recentes, é verdade, de queda no número de mortos em alguns estados do norte e nordeste podem ser um indicador de que a imunidade coletiva impede o avanço significativo da epidemia.

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  3. Mais politica correta de saúde e menos politicagem já teriamos uma boa definição dessa virose no pais, mas, infelizmente até o ministro da saúde fez politicagem de última categoria e vai pagar por isso, leia-se mandeta.

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  4. Artigo de excelente qualidade técnica, e ao mesmo tempo compreensível para leigos.

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  5. Quando é que os brasileiros e a Revista Oeste vão abrir os olhos para o horror das vacinas que estão tentando elaborar para combater a covid 19 (doença menos letal do que a gripe comum) num prazo absolutamente insano, pulando testes em animais, pulando estudos de segurança mínimos, desrespeitando todos os protocolos para produção de uma vacina????? Uma vacina que altera o material genético humano e jamais foi testada em seres humanos até hoje. Um experimento macabro com a raça humana…

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  6. Excelente artigo. Lógico, objetivo e esclarecedor, longe das desgraças pré anunciadas que utilizam do virus como cabos eleitorais

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  7. O artigo é interessante e ponderado, exceto, ao insistir com expressões como “adeptos do confinamento eterno”, “jornalismo funerário”, “vírus chinês”.

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  8. Hmm, quatro pilares? No Brasil? hmm, vamos a eles:
    conhecimento – HUGE FAIL
    consciência – MASSIVE FAIL
    disciplina – ABSOLUTE FAIL
    coletividade – TOTAL FAIL

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Revista Oeste — Edição 32 — 30/10/2020

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