O gelo mais antigo da Antártida tem oferecido novas pistas sobre a história climática da Terra e sobre o papel dos gases de efeito estufa ao longo de milhões de anos. Análises recentes de blocos preservados no leste do continente antártico indicam que o planeta passou por um intenso resfriamento global há cerca de 3 milhões de anos, enquanto as concentrações de dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4) variaram bem menos do que se imaginava. Esse tipo de investigação amplia o registro climático disponível e ajuda a compreender como diferentes componentes do sistema terrestre interagem em escalas de tempo muito longas.
O que o gelo antigo da Antártida revela sobre a história climática da Terra?
A chamada história climática da Terra é reconstruída a partir de evidências físicas, como sedimentos marinhos, fósseis e, mais recentemente, núcleos de gelo. No caso da Antártida, o gelo funciona como um arquivo de alta resolução, preservando amostras da atmosfera do passado que ajudam a entender períodos de aquecimento e resfriamento global.
Mas como exatamente o gelo consegue ‘falar’ sobre o passado remoto? O canal @fatosdesconhecidos desvenda esse mistério ao mostrar o trabalho de campo e laboratório envolvido na extração desses dados. Confira no vídeo a seguir como as camadas de gelo da Antártida e da Groenlândia guardam os segredos das mudanças climáticas que moldaram o nosso mundo.
Como o gelo antártico registra a atmosfera e a temperatura dos oceanos?
À medida que a neve se acumula e é compactada ao longo de milhares de anos, o ar presente entre os grãos de neve fica progressivamente preso em pequenos espaços, que acabam sendo selados em bolhas quando a neve se transforma em gelo. Essas bolhas de ar preservam, com alta fidelidade, a composição química da atmosfera do momento em que foram aprisionadas, incluindo concentrações de CO2, CH4 e N2O.
Nesse caso específico, as estimativas de temperatura média dos oceanos são obtidas a partir da análise muito precisa da razão entre diferentes gases nobres, como argônio, xenônio e criptônio, presentes nesse ar aprisionado. Como a solubilidade desses gases nos oceanos varia com a temperatura, eles permitem reconstruir o aquecimento ou resfriamento global dos mares ao longo do tempo e mostram um resfriamento de cerca de 2 °C a 2,5 °C entre 3 e 2 milhões de anos atrás.
O que são gases nobres e por que eles são importantes para a história climática da Terra?
Gases nobres são elementos químicos como hélio, neônio, argônio, criptônio e xenônio, que quase não reagem com outras substâncias químicas. Justamente por serem quimicamente inertes, eles não participam de processos biológicos ou industriais de forma significativa e, portanto, preservam um sinal físico muito estável ao longo do tempo, ideal para estudos climáticos de longo prazo.
A quantidade desses gases dissolvida na água do mar depende essencialmente da temperatura, o que torna sua medição uma ferramenta poderosa. Quando o ar fica aprisionado nas bolhas de gelo, ele guarda essa assinatura da troca de gases entre oceano e atmosfera, ajudando a estimar a temperatura média global dos oceanos de forma independente de outros indicadores climáticos e aprimorando os modelos usados em pesquisas atuais.

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O clima da Terra depende apenas do CO2?
Os dados vindos do gelo antártico sugerem que a história climática da Terra não pode ser explicada apenas pelas concentrações de gases de efeito estufa. Diversos elementos atuam em conjunto para moldar a temperatura global e a extensão das calotas polares, e os cientistas analisam esses fatores para entender ciclos de aquecimento e resfriamento.
Entre os principais fatores estudados pelos pesquisadores estão elementos que se combinam ao CO2 para definir o clima global.
- Expansão e retração das calotas de gelo, que alteram o nível do mar e a distribuição de água doce nos oceanos
- Mudanças na vegetação, capazes de influenciar o quanto de luz solar é absorvido ou refletido pela superfície
- Refletividade da Terra, ligada à presença de neve, gelo, desertos e florestas
- Circulação oceânica, que controla o transporte de calor das regiões tropicais para latitudes mais altas
- Variações na órbita e inclinação do planeta, que modificam a distribuição da energia solar ao longo das estações
Os registros extraídos do gelo antigo mostram que, naquele período de 3 milhões de anos atrás, o CO2 oscilou em torno de 250 a 300 partes por milhão, com leve tendência de queda ao longo de milhões de anos, e o metano se manteve próximo de 500 partes por bilhão. Esses valores contrastam com as concentrações atuais, em torno de 425 partes por milhão para o CO2 e acima de 1.900 partes por bilhão para o CH4, segundo redes de monitoramento como a NOAA, o que evidencia a rapidez das mudanças climáticas em curso.








