{"id":103435,"date":"2026-04-03T13:45:00","date_gmt":"2026-04-03T16:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/?p=103435"},"modified":"2026-04-03T04:26:52","modified_gmt":"2026-04-03T07:26:52","slug":"icebergs-do-tamanho-de-cidades-deixaram-marcas-no-fundo-do-mar-ha-18-mil-anos-e-cientistas-agora-usam-esses-rastros-para-prever-o-futuro-da-antartida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/2026\/04\/03\/icebergs-do-tamanho-de-cidades-deixaram-marcas-no-fundo-do-mar-ha-18-mil-anos-e-cientistas-agora-usam-esses-rastros-para-prever-o-futuro-da-antartida\/","title":{"rendered":"Icebergs do tamanho de cidades deixaram marcas no fundo do mar h\u00e1 18 mil anos e cientistas agora usam esses rastros para prever o futuro da Ant\u00e1rtida"},"content":{"rendered":"\n<p>J\u00e1 pensou que o fundo do mar pode guardar registros de um mundo completamente diferente do que conhecemos hoje? No leito do <strong>Mar do Norte<\/strong>, enterrados sob camadas de lama marinha, pesquisadores identificaram sulcos quilom\u00e9tricos deixados por <strong>icebergs<\/strong> colossais h\u00e1 cerca de <strong>18 mil anos<\/strong>, e o que esses rastros revelam sobre o comportamento das plataformas de gelo pode mudar a forma como a ci\u00eancia projeta a <strong>Ant\u00e1rtida<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como os sulcos de icebergs foram detectados no fundo do Mar do Norte?<\/h2>\n\n\n\n<p>As marcas n\u00e3o foram encontradas por acaso. <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-025-58367-4\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Segundo o estudo publicado em abril de 2025 na Nature Communications<\/strong><\/a>, os dados que revelaram os sulcos foram coletados originalmente para prospec\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s, e s\u00f3 d\u00e9cadas depois foram reinterpretados por pesquisadores do <strong>British Antarctic Survey (BAS)<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe utilizou ondas sonoras para criar digitaliza\u00e7\u00f5es em <strong>3D<\/strong> detalhadas do leito marinho. O resultado foram imagens de sulcos que se estendem por <strong>quil\u00f4metros<\/strong>, esculpidos por blocos de gelo de at\u00e9 <strong>10 quil\u00f4metros de largura<\/strong>, compar\u00e1veis em tamanho a cidades como <strong>Cambridge<\/strong> ou <strong>Norwich<\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Iceberg_scraping_ocean_202604030426-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-103578\" srcset=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Iceberg_scraping_ocean_202604030426-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Iceberg_scraping_ocean_202604030426-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Iceberg_scraping_ocean_202604030426-768x432.jpg 768w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Iceberg_scraping_ocean_202604030426-750x422.jpg 750w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Iceberg_scraping_ocean_202604030426-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Iceberg_scraping_ocean_202604030426.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">As marcas n\u00e3o foram encontradas por acaso<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/2026\/04\/02\/o-citroen-guardado-num-celeiro-por-38-anos-pelo-engenheiro-que-ajudou-a-bater-um-recorde-mundial-de-velocidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Citro\u00ebn guardado num celeiro por 38 anos pelo engenheiro que ajudou a bater um recorde mundial de velocidade<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando esses icebergs navegavam perto da costa brit\u00e2nica?<\/h2>\n\n\n\n<p>A data\u00e7\u00e3o por radiocarbono dos sedimentos ao redor das marcas indicou que esses <strong>icebergs<\/strong> gigantes transitavam a menos de <strong>145 quil\u00f4metros da costa brit\u00e2nica<\/strong> entre <strong>20 mil e 18 mil anos atr\u00e1s<\/strong>. Naquele per\u00edodo, a antiga calota glacial brit\u00e2nica e irlandesa ainda se estendia sobre boa parte do norte da <strong>Europa<\/strong> e come\u00e7ava a se desintegrar rapidamente com o aquecimento do clima.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cO que encontramos foram marcas de eros\u00e3o que se estendiam por quil\u00f4metros, escondidas sob camadas de lama marinha, formadas por blocos de gelo de at\u00e9 10 quil\u00f4metros de largura\u201d, explicou <strong>James Kirkham<\/strong>, pesquisador do <strong>BAS<\/strong> e l\u00edder do estudo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Deep_ocean_floor_202604030425-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-103575\" srcset=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Deep_ocean_floor_202604030425-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Deep_ocean_floor_202604030425-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Deep_ocean_floor_202604030425-768x432.jpg 768w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Deep_ocean_floor_202604030425-750x422.jpg 750w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Deep_ocean_floor_202604030425-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Deep_ocean_floor_202604030425.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A data\u00e7\u00e3o por radiocarbono dos sedimentos ao redor das marcas indicou que esses icebergs gigantes transitavam a menos de 145 quil\u00f4metros da costa brit\u00e2nica entre 20 mil e 18 mil anos atr\u00e1s<\/figcaption><\/figure><\/div><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que a mudan\u00e7a no formato dos sulcos revela sobre o colapso das plataformas de gelo?<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das descobertas mais relevantes do estudo est\u00e1 na transforma\u00e7\u00e3o gradual das pr\u00f3prias marcas. Os pesquisadores identificaram dois padr\u00f5es distintos de sulcos ao longo do tempo, e a transi\u00e7\u00e3o entre eles conta uma hist\u00f3ria sobre como as plataformas de gelo se fragmentam.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Sulcos longos, largos e retos<\/strong>: t\u00edpicos de icebergs tabulares gigantes, produzidos pelo ciclo normal das plataformas de gelo ainda \u00edntegras, predominantes no per\u00edodo mais antigo do registro<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Sulcos menores, mais estreitos e sinuosos<\/strong>: indicativos de icebergs menores e mais numerosos, gerados \u00e0 medida que as plataformas se fragmentavam progressivamente antes do colapso total<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cPor volta de 18 mil anos atr\u00e1s, detectamos uma mudan\u00e7a no tipo de marca deixada pelos <strong>icebergs<\/strong>: de enormes bergs tabulares para icebergs muito mais numerosos e menores, \u00e0 medida que as plataformas se desintegravam\u201d, explicou a coautora <strong>Dr. Kelly Hogan<\/strong>, geof\u00edsica marinha do <strong>BAS<\/strong>. Essa sequ\u00eancia mostra que o colapso n\u00e3o foi abrupto, mas precedido por uma fase de fragmenta\u00e7\u00e3o progressiva.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Fragmented_icebergs_underwater_202604030426-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-103577\" srcset=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Fragmented_icebergs_underwater_202604030426-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Fragmented_icebergs_underwater_202604030426-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Fragmented_icebergs_underwater_202604030426-768x432.jpg 768w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Fragmented_icebergs_underwater_202604030426-750x422.jpg 750w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Fragmented_icebergs_underwater_202604030426-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Fragmented_icebergs_underwater_202604030426.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Uma das descobertas mais relevantes do estudo est\u00e1 na transforma\u00e7\u00e3o gradual das pr\u00f3prias marcas<\/figcaption><\/figure><\/div><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que o Mar do Norte serve de modelo para prever o comportamento da Ant\u00e1rtida?<\/h2>\n\n\n\n<p>O registro geol\u00f3gico do <strong>Mar do Norte<\/strong> oferece algo raro na ci\u00eancia clim\u00e1tica: um exemplo completo e datado de como uma grande calota glacial respondeu ao aquecimento em escala de mil\u00eanios. O padr\u00e3o de fragmenta\u00e7\u00e3o progressiva identificado nos sulcos j\u00e1 foi observado em eventos recentes no continente gelado:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Colapso da plataforma Larsen B<\/strong>, em <strong>2002<\/strong>: a desintegra\u00e7\u00e3o ocorreu ap\u00f3s um per\u00edodo de fragmenta\u00e7\u00e3o gradual, exatamente como o padr\u00e3o registrado nos sulcos do <strong>Mar do Norte<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Ruptura do iceberg A68a<\/strong>, em <strong>2021<\/strong>: o desprendimento do maior iceberg j\u00e1 monitorado seguiu din\u00e2mica semelhante \u00e0 transi\u00e7\u00e3o observada nos registros hist\u00f3ricos<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A equipe do <strong>BAS<\/strong> acredita que esses paralelos tornam o registro hist\u00f3rico uma ferramenta direta de modelagem para o futuro da <strong>Ant\u00e1rtida<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender melhor como essa tecnologia de mapeamento funciona e por que ela \u00e9 crucial para a ci\u00eancia do clima, o canal <strong>British Antarctic Survey<\/strong>, com mais de <strong>17,4 mil inscritos<\/strong>, publicou um v\u00eddeo em que o pr\u00f3prio <strong>James Kirkham<\/strong> explica o processo diretamente:<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"957\" height=\"538\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0Vuia0znHik\" title=\"Ancient sub-ocean landscapes give clues to future ice sheet change - James Kirkham\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que os dados do Mar do Norte indicam sobre a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar?<\/h2>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC7062636\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Segundo pesquisa publicada no PMC sobre a eleva\u00e7\u00e3o global do n\u00edvel do mar no in\u00edcio do Holoceno<\/strong><\/a>, o derretimento das calotas glaciais do hemisf\u00e9rio norte contribuiu significativamente para a eleva\u00e7\u00e3o dos oceanos no per\u00edodo p\u00f3s-glacial. Os dados das turfas do <strong>Mar do Norte<\/strong> ajudam a calibrar esses registros e a entender a velocidade com que o n\u00edvel do mar respondeu ao aquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa conex\u00e3o entre passado e presente \u00e9 o que torna a descoberta relevante al\u00e9m da paleontologia. Se as plataformas de gelo da <strong>Ant\u00e1rtida<\/strong> seguirem o mesmo padr\u00e3o de fragmenta\u00e7\u00e3o progressiva observado nos sulcos, os modelos clim\u00e1ticos atuais podem estar subestimando a velocidade da eleva\u00e7\u00e3o dos oceanos nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os rastros de 18 mil anos que ainda t\u00eam algo a dizer sobre o nosso tempo<\/h2>\n\n\n\n<p>O que impressiona nessa pesquisa \u00e9 a escala do que estava escondido. Sulcos de <strong>quil\u00f4metros de extens\u00e3o<\/strong>, esculpidos por gelo do tamanho de cidades, permaneceram invis\u00edveis sob a lama do <strong>Mar do Norte<\/strong> por mil\u00eanios at\u00e9 que a tecnologia permitisse l\u00ea-los. E o que eles dizem \u00e9 direto: plataformas de gelo n\u00e3o colapsam de uma vez, elas se fragmentam gradualmente antes de ceder.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse detalhe muda a forma como os cientistas devem interpretar sinais como o desprendimento de <strong>icebergs<\/strong> gigantes na <strong>Ant\u00e1rtida<\/strong> hoje. O que parece um evento isolado pode ser, na verdade, o primeiro cap\u00edtulo de um processo muito maior, e o fundo do <strong>Mar do Norte<\/strong> j\u00e1 viveu esse cap\u00edtulo antes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 pensou que o fundo do mar pode guardar registros de um mundo completamente diferente do que conhecemos hoje? 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