{"id":109491,"date":"2026-04-15T08:35:00","date_gmt":"2026-04-15T11:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/?p=109491"},"modified":"2026-04-14T22:10:15","modified_gmt":"2026-04-15T01:10:15","slug":"o-gelo-antartico-perfurado-a-523-metros-guarda-um-registro-climatico-de-23-milhoes-de-anos-que-a-ciencia-nunca-teve-acesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/2026\/04\/15\/o-gelo-antartico-perfurado-a-523-metros-guarda-um-registro-climatico-de-23-milhoes-de-anos-que-a-ciencia-nunca-teve-acesso\/","title":{"rendered":"O gelo ant\u00e1rtico perfurado a 523 metros guarda um registro clim\u00e1tico de 23 milh\u00f5es de anos que a ci\u00eancia nunca teve acesso"},"content":{"rendered":"\n<p>Sabia que o passado clim\u00e1tico da <strong>Terra<\/strong> est\u00e1 gravado em camadas de sedimento enterradas sob centenas de metros de <strong>gelo ant\u00e1rtico<\/strong>? Uma equipe internacional de cientistas perfurou esse gelo com \u00e1gua quente pressurizada e extraiu um registro de <strong>23 milh\u00f5es de anos<\/strong> que pode mudar tudo o que se sabe sobre o futuro do n\u00edvel dos oceanos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como o gelo ant\u00e1rtico foi perfurado a 523 metros de profundidade?<\/h2>\n\n\n\n<p>A perfura\u00e7\u00e3o aconteceu na <strong>Ant\u00e1rtida Ocidental<\/strong>, em uma \u00e1rea chamada <strong>Crary Ice Rise<\/strong>, localizada a mais de <strong>700 quil\u00f4metros<\/strong> da Base Scott. A t\u00e9cnica utilizada foi a <strong>perfura\u00e7\u00e3o hidrot\u00e9rmica<\/strong>: \u00e1gua aquecida \u00e9 injetada sob alta press\u00e3o para derreter o gelo e criar um canal vertical por onde desce o sistema de coleta de material.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo abriu um t\u00fanel de <strong>523 metros<\/strong> no gelo, chegando ao fundo onde come\u00e7a a rocha e o sedimento. A partir dali, os cientistas extra\u00edram camada por camada o testemunho geol\u00f3gico, em um trabalho que exigiu precis\u00e3o extrema para n\u00e3o comprometer a integridade das amostras.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drill_bit_hoisted_202604020535-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-103161\" srcset=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drill_bit_hoisted_202604020535-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drill_bit_hoisted_202604020535-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drill_bit_hoisted_202604020535-768x432.jpg 768w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drill_bit_hoisted_202604020535-750x422.jpg 750w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drill_bit_hoisted_202604020535-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Drill_bit_hoisted_202604020535.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A perfura\u00e7\u00e3o aconteceu na Ant\u00e1rtida Ocidental, em uma \u00e1rea chamada Crary Ice Rise, localizada a mais de 700 quil\u00f4metros da Base Scott<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong><strong>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/2026\/04\/14\/o-astrolabio-do-seculo-xi-parado-em-uma-prateleira-em-verona-que-carrega-mais-de-mil-anos-de-historia-gravada-em-arabe-e-hebraico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O astrol\u00e1bio do s\u00e9culo XI parado em uma prateleira em Verona que carrega mais de mil anos de hist\u00f3ria gravada em \u00e1rabe e hebraico<\/a><\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que \u00e9 um testemunho geol\u00f3gico e por que ele funciona como um arquivo do tempo?<\/h2>\n\n\n\n<p>Um <strong>testemunho geol\u00f3gico<\/strong> \u00e9 uma amostra cil\u00edndrica de rocha e sedimento extra\u00edda do fundo de um local espec\u00edfico. Ele funciona como uma cronologia natural: as camadas mais <strong>superficiais s\u00e3o mais recentes<\/strong> e as mais profundas s\u00e3o mais antigas, com cada estrato registrando as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e ambientais do momento em que se formou.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do <strong>gelo ant\u00e1rtico<\/strong> da Crary Ice Rise, os pesquisadores encontraram varia\u00e7\u00f5es marcantes entre as camadas. Alguns estratos continham <strong>pedregulhos grossos e rochas grandes<\/strong>, sinal de que a zona estava coberta por gelo compacto. Outros mostraram algo completamente diferente:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Lama fina<\/strong> depositada em ambiente aqu\u00e1tico calmo, indicando aus\u00eancia de cobertura glacial.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Fragmentos de conchas<\/strong> e restos de organismos marinhos que s\u00f3 existem em \u00e1guas abertas.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Restos de seres dependentes de luz solar<\/strong>, o que confirma que a superf\u00edcie estava exposta, n\u00e3o coberta de gelo.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Isso significa que, em algum momento nos \u00faltimos <strong>23 milh\u00f5es de anos<\/strong>, aquela parte da Ant\u00e1rtida Ocidental n\u00e3o estava coberta de gelo, mas sim de <strong>\u00e1gua aberta<\/strong>, indicando que o clima era significativamente mais quente do que hoje.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que o derretimento do gelo ant\u00e1rtico ocidental pode elevar o mar em at\u00e9 5 metros?<\/h2>\n\n\n\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o central do projeto vai muito al\u00e9m da curiosidade cient\u00edfica. A <strong>Calota Glacial da Ant\u00e1rtida Ocidental<\/strong> cont\u00e9m gelo suficiente para, se derretesse completamente, elevar o n\u00edvel m\u00e9dio dos oceanos em <strong>4 a 5 metros<\/strong> em escala global. O problema \u00e9 que os cientistas ainda n\u00e3o sabem com precis\u00e3o a que velocidade esse processo poderia ocorrer em diferentes cen\u00e1rios de aquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>testemunho de 228 metros<\/strong> oferece, pela primeira vez, um registro direto de como aquela regi\u00e3o se comportou em per\u00edodos passados, quando o clima era mais quente. Isso pode <strong>calibrar os modelos de previs\u00e3o clim\u00e1tica<\/strong> e tornar as estimativas muito mais precisas do que as dispon\u00edveis at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Sediment_cores_on_202604020535-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-103162\" srcset=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Sediment_cores_on_202604020535-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Sediment_cores_on_202604020535-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Sediment_cores_on_202604020535-768x432.jpg 768w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Sediment_cores_on_202604020535-750x422.jpg 750w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Sediment_cores_on_202604020535-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Sediment_cores_on_202604020535.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O testemunho de 228 metros oferece, pela primeira vez, um registro direto de como aquela regi\u00e3o se comportou em per\u00edodos passados, quando o clima era mais quente<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O projeto SWAIS2C re\u00fane cientistas de dez pa\u00edses para analisar cada estrato<\/h2>\n\n\n\n<p>A pesquisa faz parte do projeto internacional <strong>SWAIS2C<\/strong>, que mobilizou especialistas de <strong>dez pa\u00edses<\/strong> para analisar o material coletado. Cada camada do testemunho ser\u00e1 estudada para determinar com precis\u00e3o quando ocorreram as principais mudan\u00e7as clim\u00e1ticas do passado e qual foi a velocidade dessas transi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender a dimens\u00e3o da descoberta, o canal <strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@OlharDigital\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Olhar Digital<\/a><\/strong>, com quase <strong>949 mil inscritos<\/strong>, detalhou como essa perfura\u00e7\u00e3o recorde funciona e o que os dados do projeto SWAIS2C podem revelar sobre o comportamento futuro da Ant\u00e1rtida diante do aquecimento global:<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"957\" height=\"538\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/W-tWPSrRD08\" title=\"Perfura\u00e7\u00e3o recorde na Ant\u00e1rtida revela milh\u00f5es de anos de hist\u00f3ria clim\u00e1tica\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>Os dados coletados ser\u00e3o incorporados aos <strong>modelos clim\u00e1ticos globais<\/strong> e poder\u00e3o ajudar cidades costeiras de todo o mundo a planejar infraestruturas de prote\u00e7\u00e3o contra inunda\u00e7\u00f5es, sistemas portu\u00e1rios e pol\u00edticas de uso do solo para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma lacuna geol\u00f3gica preenchida no interior do continente ant\u00e1rtico<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, a maior parte dos dados geol\u00f3gicos sobre a Ant\u00e1rtida provinha de regi\u00f5es costeiras ou do oceano ao redor do continente. O <strong>interior permanecia um mist\u00e9rio<\/strong> para a ci\u00eancia, justamente porque o acesso \u00e9 logisticamente muito mais dif\u00edcil e os m\u00e9todos de perfura\u00e7\u00e3o convencionais n\u00e3o funcionam bem sob camadas t\u00e3o espessas de gelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este testemunho preenche uma lacuna espacial importante e entrega aos pesquisadores uma vis\u00e3o muito mais completa do <strong>passado clim\u00e1tico do interior ant\u00e1rtico<\/strong>. As informa\u00e7\u00f5es obtidas respondem a perguntas que a ci\u00eancia clim\u00e1tica carregava sem resposta h\u00e1 d\u00e9cadas, como:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Em que condi\u00e7\u00f5es a Ant\u00e1rtida Ocidental <strong>perdeu sua cobertura de gelo<\/strong> no passado?<\/li>\n\n\n\n<li>Qual foi a velocidade dessas <strong>transi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas<\/strong> em escala geol\u00f3gica?<\/li>\n\n\n\n<li>Qual era o <strong>n\u00edvel do mar<\/strong> naqueles per\u00edodos mais quentes?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O gelo ant\u00e1rtico como term\u00f4metro do que est\u00e1 por vir<\/h2>\n\n\n\n<p>O que torna esse testemunho singular n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o tamanho ou a profundidade, mas o que ele representa: um <strong>registro f\u00edsico e cont\u00ednuo<\/strong> de como o planeta reagiu a per\u00edodos de calor intenso ao longo de milh\u00f5es de anos. A Ant\u00e1rtida j\u00e1 perdeu sua cobertura de gelo antes. O que os cientistas precisam entender agora \u00e9 com que rapidez isso pode acontecer novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que os resultados do <strong>SWAIS2C<\/strong> forem publicados, eles v\u00e3o moldar diretamente as proje\u00e7\u00f5es sobre o aumento do n\u00edvel do mar usadas por governos, urbanistas e engenheiros do mundo inteiro. O futuro das cidades costeiras pode depender, em parte, do que est\u00e1 gravado nessas <strong>228 camadas de sedimento<\/strong> retiradas de baixo do gelo ant\u00e1rtico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabia que o passado clim\u00e1tico da Terra est\u00e1 gravado em camadas de sedimento enterradas sob centenas de metros de gelo ant\u00e1rtico? 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