{"id":110838,"date":"2026-04-18T12:45:00","date_gmt":"2026-04-18T15:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/?p=110838"},"modified":"2026-04-18T01:44:54","modified_gmt":"2026-04-18T04:44:54","slug":"cientistas-de-cambridge-aplicam-teste-infantil-em-uma-sepia-e-ela-prova-ter-autocontrole-comparavel-ao-de-chimpanzes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/2026\/04\/18\/cientistas-de-cambridge-aplicam-teste-infantil-em-uma-sepia-e-ela-prova-ter-autocontrole-comparavel-ao-de-chimpanzes\/","title":{"rendered":"Cientistas de Cambridge aplicam teste infantil em uma s\u00e9pia e ela prova ter autocontrole compar\u00e1vel ao de chimpanz\u00e9s"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea se lembra daquele teste em que uma crian\u00e7a precisa resistir a um marshmallow para ganhar dois? Uma <strong>s\u00e9pia<\/strong>, parente do polvo, acaba de passar por ele com louvor. Cientistas da <strong>Universidade de Cambridge<\/strong> descobriram que esses moluscos esperam at\u00e9 <strong>130 segundos<\/strong> por um camar\u00e3o melhor e, mais impressionante, os indiv\u00edduos mais pacientes s\u00e3o tamb\u00e9m os que aprendem <strong>mais r\u00e1pido<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que \u00e9 o Experimento do Marshmallow e por que ele ficou famoso?<\/h2>\n\n\n\n<p>O teste foi criado pelo psic\u00f3logo <strong><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Walter_Mischel\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Walter Mischel<\/a><\/strong>, da <strong>Universidade de Stanford<\/strong>, no final dos anos 1960. Uma crian\u00e7a \u00e9 colocada sozinha com um marshmallow \u00e0 frente e recebe uma escolha: comer agora ou esperar 15 minutos e receber dois.<\/p>\n\n\n\n<p>O teste mede a <strong>capacidade de adiar a gratifica\u00e7\u00e3o<\/strong>, habilidade cognitiva que envolve planejamento futuro, mem\u00f3ria de trabalho e controle dos impulsos. <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Experimento_do_marshmallow\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Conforme estudos de acompanhamento realizados por Mischel em 1988<\/strong><\/a>, crian\u00e7as que esperaram mais tempo foram descritas pelos pais como adolescentes significativamente mais competentes mais de 10 anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ressalva importante: uma revis\u00e3o metodol\u00f3gica de 2018 sugeriu que tanto a capacidade de esperar quanto os resultados futuros podem ser explicados principalmente pelo <strong>background socioecon\u00f4mico da crian\u00e7a<\/strong>, n\u00e3o pelo autocontrole em si. O teste permanece uma ferramenta v\u00e1lida para medir controle inibit\u00f3rio pontual.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"575\" src=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/iguak12m-1024x575.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-96825\" srcset=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/iguak12m-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/iguak12m-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/iguak12m-768x431.jpg 768w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/iguak12m-750x421.jpg 750w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/iguak12m-1140x640.jpg 1140w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/iguak12m.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Crian\u00e7as que esperaram mais tempo foram descritas pelos pais como adolescentes significativamente mais competentes mais de 10 anos depois<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong><strong>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/2026\/04\/16\/tartarugas-gigantes-voltam-a-galapagos-apos-180-anos-e-o-retorno-foi-possivel-gracas-a-uma-descoberta-genetica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Tartarugas-gigantes voltam a Gal\u00e1pagos ap\u00f3s 180 anos e o retorno foi poss\u00edvel gra\u00e7as a uma descoberta gen\u00e9tica<\/a><\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como os pesquisadores adaptaram o teste para uma s\u00e9pia?<\/h2>\n\n\n\n<p>A pesquisadora <strong>Alexandra Schnell<\/strong>, da Universidade de Cambridge, liderou o estudo em colabora\u00e7\u00e3o com o cientista <strong>Roger Hanlon<\/strong>, do Laborat\u00f3rio de Biologia Marinha de Woods Hole, nos EUA. Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel explicar regras verbalmente a um animal, a solu\u00e7\u00e3o foi criar um sistema visual de c\u00e2maras e portas coloridas.<\/p>\n\n\n\n<p>O funcionamento do experimento adaptado seguiu estas etapas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Treinamento inicial:<\/strong> as s\u00e9pias aprenderam que determinadas cores de porta sinalizavam qual alimento estava dispon\u00edvel e quando seria liberado.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>O dilema:<\/strong> em cada teste, o animal via duas op\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas: um camar\u00e3o cozido (menos preferido) dispon\u00edvel imediatamente e um camar\u00e3o vivo (fortemente preferido) em c\u00e2mara fechada com espera vari\u00e1vel.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>A consequ\u00eancia:<\/strong> se a s\u00e9pia comesse o camar\u00e3o cozido imediatamente, a c\u00e2mara com o camar\u00e3o vivo fechava, exatamente como a crian\u00e7a que come o marshmallow e perde a segunda recompensa.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_interacting_with_202604180143-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-110849\" srcset=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_interacting_with_202604180143-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_interacting_with_202604180143-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_interacting_with_202604180143-768x432.jpg 768w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_interacting_with_202604180143-750x422.jpg 750w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_interacting_with_202604180143-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_interacting_with_202604180143.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A consequ\u00eancia: se a s\u00e9pia comesse o camar\u00e3o cozido imediatamente, a c\u00e2mara com o camar\u00e3o vivo fechava<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quais foram os resultados que surpreenderam os pesquisadores?<\/h2>\n\n\n\n<p>Todas as <strong>s\u00e9pias<\/strong> testadas conseguiram esperar pela recompensa preferida, tolerando per\u00edodos de <strong>50 a 130 segundos<\/strong> de espera. <a href=\"https:\/\/www.earth.com\/news\/cuttlefish-passed-marshmallow-test-designed-for-kids-proving-high-intelligence\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Conforme an\u00e1lise publicada pela Earth.com<\/strong><\/a>, o desempenho foi compar\u00e1vel ao observado em vertebrados de grande c\u00e9rebro como chimpanz\u00e9s, corvos e papagaios.<\/p>\n\n\n\n<p>Alexandra Schnell comentou: \u201cFoi bastante surpreendente que as s\u00e9pias conseguissem esperar mais de dois minutos por um alimento melhor.\u201d O achado mais impactante foi a correla\u00e7\u00e3o entre paci\u00eancia e aprendizagem: as <strong>s\u00e9pias<\/strong> que esperaram mais tamb\u00e9m aprenderam mais rapidamente em um teste de invers\u00e3o de aprendizagem, onde a regra era invertida sem aviso, exigindo flexibilidade cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O podcast <strong>Naruhodo!<\/strong>, com <strong>33,8 mil inscritos<\/strong>, discute o Experimento do Marshmallow em profundidade e as revis\u00f5es metodol\u00f3gicas que questionaram seu poder preditivo, incluindo o debate sobre contexto socioecon\u00f4mico e imediatismo:<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"957\" height=\"538\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/w1uiXbZzsOM\" title=\"Naruhodo #139 - Por que crian\u00e7as ricas v\u00e3o melhor no teste do marshmallow?\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que uma s\u00e9pia teria desenvolvido essa capacidade cognitiva?<\/h2>\n\n\n\n<p>As <strong>s\u00e9pias<\/strong> s\u00e3o predadores de emboscada que passam longos per\u00edodos se camuflando e aguardando o momento adequado para atacar. Durante esse tempo, n\u00e3o se alimentam. A capacidade de resistir a presas de menor qualidade enquanto aguardam uma oportunidade melhor pode ser uma <strong>adapta\u00e7\u00e3o direta a esse estilo de vida<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Um detalhe intrigante: as s\u00e9pias t\u00eam vida m\u00e9dia de apenas <strong>1 a 2 anos<\/strong>, tempo muito curto para um animal com tamanha capacidade cognitiva. Isso levanta quest\u00f5es sobre a velocidade e a intensidade do desenvolvimento cerebral desses moluscos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_POV_waiting_202604180144-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-110850\" srcset=\"https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_POV_waiting_202604180144-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_POV_waiting_202604180144-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_POV_waiting_202604180144-768x432.jpg 768w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_POV_waiting_202604180144-750x422.jpg 750w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_POV_waiting_202604180144-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/revistaoeste.com\/oestegeral\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Cuttlefish_POV_waiting_202604180144.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">As s\u00e9pias s\u00e3o predadores de emboscada que passam longos per\u00edodos se camuflando e aguardando o momento adequado para atacar<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como o c\u00e9rebro da s\u00e9pia se diferencia do de humanos e primatas?<\/h2>\n\n\n\n<p>O dado mais perturbador para a neuroci\u00eancia \u00e9 que as <strong>s\u00e9pias<\/strong> n\u00e3o possuem o <strong>c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal<\/strong>, estrutura respons\u00e1vel pelo controle inibit\u00f3rio em humanos e primatas. Cerca de dois ter\u00e7os dos neur\u00f4nios de um cefal\u00f3pode n\u00e3o est\u00e3o no c\u00e9rebro central, mas distribu\u00eddos pelos tent\u00e1culos, que funcionam de forma semi-aut\u00f4noma.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso sugere que o autocontrole pode ser uma <strong>solu\u00e7\u00e3o cognitiva convergente<\/strong>: evoluiu independentemente em m\u00faltiplas linhagens animais que enfrentam o mesmo problema ecol\u00f3gico de equilibrar recompensas imediatas e futuras em ambientes imprevis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Outros animais que j\u00e1 passaram no teste do marshmallow<\/h2>\n\n\n\n<p>A <strong>s\u00e9pia<\/strong> n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico animal n\u00e3o humano com capacidade documentada de adiar a gratifica\u00e7\u00e3o. A tabela abaixo compara o desempenho das esp\u00e9cies mais estudadas:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"has-fixed-layout\"><tbody><tr><th>Animal<\/th><th>Desempenho no teste<\/th><th>Observa\u00e7\u00e3o<\/th><\/tr><tr><td>Chimpanz\u00e9s e grandes primatas<\/td><td>Muito consistente<\/td><td>Compar\u00e1vel a crian\u00e7as de 4 a 6 anos<\/td><\/tr><tr><td>Corvos e papagaios<\/td><td>Alto<\/td><td>Corvos esperam at\u00e9 10 minutos por recompensa preferida<\/td><\/tr><tr><td>Polvos<\/td><td>Positivo<\/td><td>Resultados documentados em 2020<\/td><\/tr><tr><td>S\u00e9pias<\/td><td>Alto<\/td><td>\u00danica esp\u00e9cie com liga\u00e7\u00e3o documentada entre paci\u00eancia e aprendizagem<\/td><\/tr><tr><td>C\u00e3es<\/td><td>Inconsistente<\/td><td>Desempenho abaixo do esperado para mam\u00edferos de porte cognitivo similar<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que a intelig\u00eancia da s\u00e9pia revela sobre a evolu\u00e7\u00e3o do autocontrole?<\/h2>\n\n\n\n<p>A descoberta redefine o que sab\u00edamos sobre os pr\u00e9-requisitos neurol\u00f3gicos para o autocontrole. Se um animal sem c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, com arquitetura nervosa distribu\u00edda pelos tent\u00e1culos e vida de menos de dois anos, consegue adiar a gratifica\u00e7\u00e3o e aprender mais r\u00e1pido por isso, o autocontrole n\u00e3o depende de um c\u00e9rebro como o nosso.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>s\u00e9pia<\/strong> demonstrou que intelig\u00eancia e autocontrole s\u00e3o solu\u00e7\u00f5es que a evolu\u00e7\u00e3o encontrou por caminhos radicalmente diferentes, em animais separados por centenas de milh\u00f5es de anos. O marshmallow, no fundo, testa algo muito mais antigo e distribu\u00eddo pela natureza do que se imaginava.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea se lembra daquele teste em que uma crian\u00e7a precisa resistir a um marshmallow para ganhar dois? Uma s\u00e9pia, parente do polvo, acaba de passar por ele com louvor. 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