Os ataques a Churchill e o que temos a ensinar aos ingleses - Revista Oeste

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Os ataques a Churchill e o que temos a ensinar aos ingleses
Churchill é um gigante capaz de resistir tanto aos ataques vis quanto às críticas fundamentadas
12 jun 2020, 10:19

Durante a 2ª Guerra Mundial, quando o Brasil entrou no conflito ao lado dos Aliados contra o nazi-fascismo, os imigrantes alemães e seus descendentes que residiam no país foram alvo de desconfiança, perseguição e agressão. Estabelecimentos comerciais foram vandalizados e destruídos em várias cidades e muitas famílias se refugiaram em localidades afastadas dos centros para se proteger. Bastava ter sobrenome alemão para ser uma vítima em potencial.

Embora fosse uma figura conhecida em Cachoeiro de Itapemirim (ES), meu bisavô Carlos Garschagen temia que ele e sua família sofressem represálias pela origem alemã. Para deixar claro de que lado da guerra ele estava, pendurou numa parede da residência uma grande foto de Winston S. Churchill. Todos os que o visitassem teriam a certeza — e certamente espalhariam a notícia — de que por trás de seu sobrenome alemão não se ocultava um simpatizante do nazismo. Talvez, para meu bisavô, Churchill fosse uma espécie de amuleto.

A escolha pela foto do primeiro-ministro inglês era, de fato, uma mensagem poderosa. Churchill já era visto mundo afora como o grande adversário de nazistas e fascistas, o homem de coragem indiscutível e o único capaz de liderar a batalha contra a ameaça autoritária que, no Brasil, era representada pela ditadura de Getúlio Vargas. Sua atuação à frente da Inglaterra e a vitória dos Aliados gravaram o nome de Winston Churchill na história mundial. Graças a isso, Vargas também foi apeado do poder.

A mensagem da horda foi de que os sacrifícios do passado de nada valeram e a luta contra o nazi-fascismo não teve importância

Lembrei-me da história do meu bisavô ao ver, estupefato, as imagens da turba ensandecida vandalizando, em Londres, o memorial de Churchill e o cenotáfio em homenagem aos mortos na 1ª Guerra Mundial. Os sacripantas atacaram de forma vil e abjeta dois símbolos fundamentais da Inglaterra porque representam a luta pela liberdade e aqueles que por ela deram a vida. Os infames que diziam representar o Black Lives Matter não atacaram somente os monumentos (a sigla BLM foi pichada em ambos), mas a memória de cada indivíduo que lutou e morreu pelo país. Ao fazê-lo, a horda deixou a mensagem de que os sacrifícios do passado de nada valeram e que, portanto, a luta contra o nazi-fascismo também não teve importância. É exatamente isso: os antifas (antifascistas só no nome) violaram o monumento que representa não apenas Winston Churchill, mas a luta de um povo contra o nazismo e o fascismo.

O ato foi além. Ao picharem que Churchill “era racista”, os infames mascarados, cujas ações e vestes lembram as dos integrantes da SS (Schutzstaffel) nazista e a dos camisas-pretas do fascismo, tentam igualar o primeiro-ministro a racistas como Hitler. Trata-se de revisionismo histórico digno do inglês David Irving, historiador racista e antissemita que nega o holocausto e que, assim como os antifas, não tinha Churchill em alta conta. O ataque de Irving se deu antes e por meio dos volumes I e II de Churchill’s War, obra repleta de inconsistências e afirmações sem evidências documentais.

Quando os antifas acusam Churchill de ser racista, querem também destruir a imagem de um homem que foi tudo o que eles rejeitam e que representa uma civilização que eles odeiam. Se os antifas tivessem poder político em 1939, certamente a Europa teria se rendido ao fascismo e ao nazismo e um grande pacto seria estabelecido com os comunistas russos. Não haveria guerra fria, mas um tratado quente.

Churchill cedia sempre à tentação de escrever ou fazer comentários ácidos, satíricos, desagradáveis, preconceituosos

Churchill é um personagem histórico fascinante, sobretudo por seus defeitos e erros. Foram precisamente sua personalidade bélica, sua coragem desmedida e certa irresponsabilidade que no passado lhe garantiram fracassos monumentais como Galípoli, mas que na 2ª Guerra lhe valeram a vitória.

Seu estilo e suas ações não ficaram impunes: ele foi responsabilizado e vivia um ostracismo político quando o nazismo ascendeu ao poder e contou, inclusive, com simpatia e dinheiro de parte da aristocracia inglesa. Por isso mesmo, seus alertas iniciais no Parlamento e nos jornais sobre o perigo representado por Adolf Hitler foram desprezados. Ao fim da guerra, com o país cansado, chorando seus mortos e se reconstruindo, Churchill foi novamente punido pela imprudência: na eleição de 1945 e diante de uma esperada vitória arrasadora dos tories, ele fez um discurso na rádio afirmando que o Partido Trabalhista, se vencesse, agiria como uma espécie de Gestapo, a polícia secreta nazista, para acabar com as liberdades dos ingleses. Sua fala provocou indignação e rejeição eleitoral, e os trabalhistas venceram.

Intelectual de pensamento rápido, excelente e profícuo escritor, Churchill cedia sempre à tentação de escrever ou fazer comentários ácidos, satíricos, desagradáveis, preconceituosos para atacar, basicamente, todo mundo, de todas as raças, cores e pátrias, inclusive seus colegas de Parlamento (ingleses, portanto). Porque era um homem de seu tempo e de sua classe social, Churchill acreditava na supremacia do povo inglês liderado pela aristocracia da qual fazia parte e defendeu ideias na época consideradas científicas, como o darwinismo social, que também era defendido por Karl Marx e socialistas-fabianos, mas que hoje são inadmissíveis.

É o primeiro passo de um movimento internacional que pretende destruir a história por meio de seus símbolos maiores

Churchill deixou farto material para ser admirado e criticado e, até pelo valor de seu legado, mereceria críticas melhores, não ataques estúpidos e juvenis, não vandalismo. As acusações que contra ele vêm sendo levantadas — como a sua posição em relação à Índia, à Grécia, ao Afeganistão — são baseadas em parte da história para apresentar Churchill como vilão que não merece ser celebrado, homenageado. A ótima entrevista feita por Fábio Silvestre Cardoso com o historiador Andrew Roberts para esta Edição 12 da Revista Oeste mostra isso claramente.

Leia a entrevista com Andrew Roberts

Essas e outras verdades mais ou menos incômodas sobre Churchill estão descritas e devidamente contextualizadas por Roberts na excelente biografia Churchill: Walking with Destiny, lançada em 2018 e que, desgraçadamente, continua inédita no Brasil. O livro apresenta o biografado como deve ser, com os elementos positivos e negativos que o tornaram historicamente relevante. E Churchill é um gigante capaz de resistir tanto aos ataques vis quanto às críticas fundamentadas.

Roberts nem pode ser acusado de defender acriticamente seu biografado. Na década de 1990, ele foi um dos responsáveis por criar essa imagem do Churchill como racista e genocida a partir de uma avaliação prematura e descontextualizada de documentos. Após escrever um livro tão bom e revisto  sua posição, não deve estar sendo fácil para ele defender Churchill dos ataques que vem sofrendo com acusações que ele ajudou a estabelecer.

Um aspecto que ficou evidente na depredação dos monumentos na Inglaterra é que se trata de um primeiro passo de um movimento internacional que pretende destruir a história por meio de seus símbolos maiores, pois são eles que lembram aos indivíduos suas tradições, valores, hábitos. Nos Estados Unidos, monumentos históricos começaram a sofrer ataques.

Nosso desafio é resgatar nossos heróis e defendê-los dos revolucionários cuja missão é destruir

Como contou Andrew Roberts na referida entrevista, Winston Churchill foi banido das escolas inglesas. Crianças e adolescentes não aprendem quem foi aquele que liderou a campanha vitoriosa que lhes permite viver num país livre. E esse é o caso de outros personagens históricos que construíram a Inglaterra. Caso a estátua de Churchill seja destruída e removida, não haverá nada além da memória da geração mais velha que um dia vai morrer. E será ainda mais fácil para o grupo ideológico que os antifas representam converter o país à sua imagem e semelhança.

O Brasil é o grande laboratório que pode ensinar aos ingleses o que não deve ser feito, ou seja, acerca do perigo e das consequências de permitir a destruição da própria história, de seus símbolos, personagens, instituições políticas, forma de governo. Os radicais republicanos e os militares que promoveram o golpe militar em 15 de novembro de 1889 empreenderam um bem-sucedido projeto para apagar, ridicularizar, falsificar e reconstruir a maioria da nossa experiência política no século 19, daquilo que foi erigido pelos dois imperadores, pelos construtores do Império e pelos brasileiros que ajudaram a forjar o país.

Se hoje fossem destruídas todas as estátuas que milagrosamente resistem no país, como a localizada no Rio de Janeiro do grande Bernardo Pereira de Vasconcelos, o estadista que foi comparado aos fundadores dos Estados Unidos Benjamin Franklin e John Adams, não haveria reação expressiva porque, provavelmente, nem os cariocas sabem de sua existência (da estátua e do personagem). Pelo que vi, a única vítima em potencial foi a estátua da Princesa Isabel, ameaçada de vandalismo pelas bestas que raciocinam segundo categorias marxistas: a história do mundo é a luta entre opressores e oprimidos.

Esse desconhecimento geral não é apenas uma tragédia educacional, mas impede a formação na sociedade de uma cultura política consistente, a emergência de uma classe política digna e o desenvolvimento de instituições adequadas. O que temos, pelo contrário, são 130 anos de um presidencialismo cuja regra é a instabilidade, cuja natureza é disfuncional, cuja ordem só se obtém a partir de golpes e instauração de regimes autoritários.

No Brasil, Churchill é valorizado por tantos porque sua importância histórica ainda resiste internacionalmente. Nosso desafio é, sem abrir mão do legado de um Churchill, resgatar nossos heróis, restaurar seus exemplos e defendê-los dos revolucionários cuja missão é destruir. Não é tarefa fácil nem ágil. Roger Scruton já alertou para o fato de que “o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante”. Mas é o que deve ser feito: pelos nossos antepassados, por nós, pelos que estão por vir.

Sobre o assunto, leia também o artigo de J. R. Guzzo

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20 Comentários

  1. Que lamentável tudo isso, @Bruno.

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    • Excelente. Parabéns, Bruno.

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    • Caro Bruno, estou estarrecido com a informação de que Churchill foi banido do ensino de história. Será que o Brexit é uma reação dos ingleses a esses absurdos ou é apenas o suspiro final do orgulho de uma nação?

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  2. Caro Bruno. Mikail Gorbachev fez a Revolução Cultural COMUNISTA , com a “pseudo queda do muro de berlin!” .Fez o mundo acreditar que o comunismo tinha acabado. Ledo engano, os MARXISTAS com seus filósofos se infiltram nas Universidades Americanas, religiões, Cultura e patrocinaram uma ideologia do Politicamente Correto. Assim estão destruindo a civilização ocidental por dentro das instituições, como a FAMÍLIA que segundo alguns ideólogos a opressão começa na familia pelo pai, opressor da mulher e dos filhos, que dizem ser do Estado. Assim veja os vídeos do Pe.Paulo Ricardo, onde ele mostra a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO como uma ideologia MARXISTA para destruir a própria BÍBLIA com interpretações convenientes. Ele diz que não há verdade para marxistas usam mentiras para beneficio da ideologia MARXISTA.

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  3. Esses que atacam Churchill nunca leram nada sobre a II Guerra, pelo menos.
    Não sabem nada de nada !
    Ótimo artigo, Bruno ! Parabéns !

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  4. Muito triste…
    Aqui, no Brasil, estamos buscando e relembrando a história e nossos heróis!

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  5. Bruno, esse artigo é talvez o único na imprensa brasileira que descreve o trabalho unificado da esquerda mundial para apagar ou reescrever a história. Faltou talvez fazer a ligação dos últimos atos em Londres ao fato de que Churchill era um ardoroso anti-comunista que sempre se posicionou contra a ideologia desde os idos da primeira guerra mundial. Já no Brasil, a UFRJ/PSOL destruíram o maior museu de história do Brasil, o Museu Nacional no Rio de Janeiro, em um crime de responsabilidade que simplesmente oculta a tentativa obscurantista de reescrever a história do Brasil, acabando com os símbolos e com a cultura do país.

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    • Muito bem lembrado o seu comentário!!

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  6. Um povo sem passado nem história será umpovo sem futuro

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  7. Me assusta e muito sermos manipulados por “TRIBOS” de idiotas de pouquíssimas pessoas que fazem um barulho ensurdecedor atuantes combatentes sem medo que a todo custo tentam dominar e influenciar a esmagadora da população que é, absolutamente inerte medrosa e alienada .Sem duvida somos tantos dominados por tão poucos

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    • Sim Amilcar, é o triste e sufocado “silencio dos bons”

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  8. Churchill foi um gigante, o homem certo no momento certo no país certo. Era admirado até por seus inimigos nazistas, Hitler incluído. Ao contrário dos franceses adesistas, os ingleses daquela geração foram exemplo de coragem e resiliência.
    E o Império Britânico, ao contrário de TODOS os outros impérios coloniais que já existiram no mundo, foi o único que deixou um legado de países que se hipoteticamente abrissem suas fronteiras seriam imediatamente invadidos por bilhões de pessoas procurando uma vida melhor.
    Gandhi teria sobrevivido no império russo, francês ou alemão? A Índia deve sua existência como nação aos ingleses. Quisera eu que o Brasil tivesse sido colonizado pela Inglaterra…

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  9. Esquecer o passado só interessa às pessoas que vêm no passado a negação do que elas acreditam hoje.

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  10. Roger Scruton tb nos lembra sobre umas das consequências do abraço do politicamente correto com a inclusão, adotado nas cartilhas progressistas e que agora se faz ao vivo como bem falado no artigo. ” A vontade de repudiar o legado cultural que nos define “

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  11. Excelente texto.

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  12. Vamos pagar um sério preço pela nossa complacência bovina. Já que estamos a falar sobre Churchill, lembremo-nos do que ele tão exatamente escreveu: “Conciliador é aquele que alimenta um crocodilo -, na esperança de que ele o devore por último”.

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  13. Excelente texto!
    Existem 2 gerações sendo destruídas sistematicamente por interesses internacionais claros.
    Mas a resistência existe e seguirá firme.

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  14. Bruno, você é um craque!

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  15. Gratidão pelo esclarecimento de fatos históricos relevantes como estes, é o que sinto ao ler este artigo.

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  16. O texto é sensacional. Parabéns por expor um assunto de uma forma rica e clara. Serve de reflexão para muitos. Obrigada.

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Revista Oeste — Edição 27 — 25/09/2020

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