"Os governos social-democratas são responsáveis pela desigualdade no Brasil” - Revista Oeste

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“Os governos social-democratas são responsáveis pela desigualdade no Brasil”
Salim Mattar trabalha para propagar no país o ideário liberal e defender o cidadão pagador de impostos da sanha do Estado ineficiente
23 out 2020, 10:20

Burocracia excessiva, morosidade, interferências políticas, desperdício de dinheiro público… A lista vai longe. Mesmo depois de um ano e meio enfrentando tantas deformações inerentes ao Estado brasileiro, Salim Mattar continua “irremediavelmente otimista”. “Tenho certeza de que o Brasil tem jeito”, diz o empresário, que comandou de janeiro de 2019 a agosto deste ano a Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados. “Deixei o governo quando percebi que o esforço despendido estava sendo muito maior que o resultado obtido”, explica. “Isso para mim é investimento negativo.” Apesar disso, acha que valeu a pena: durante sua gestão, 84 estatais foram privatizadas, o que gerou uma economia de R$ 150 bilhões.

Longe do governo e distante das empresas que fundou, Mattar resolveu dedicar seu tempo à disseminação e propagação do ideário liberal. Além de mapear mais de 120 grupos brasileiros que perseguem esse mesmo objetivo, ele pretende criar o Instituto de Defesa do Cidadão Pagador de Impostos para defender a população do Estado onipresente.

Com permanente bom humor, Salim recapitula a história do mineiro de Oliveira — cidade de 40 mil habitantes a 160 quilômetros de Belo Horizonte — que fundou a Localiza, uma das maiores locadoras de veículos do mundo. Um dos episódios inclui a resposta que escutou do pai quando revelou, aos 6 anos, que queria ser pianista: “Esqueça o piano, empreenda e, com o dinheiro de seu suor, compre os melhores discos e as melhores vitrolas”. Foi o que fez.

O sorriso fácil desaparece ao identificar a origem de um dos principais problemas do país: “A social-democracia é a grande responsável pela desigualdade social e pela pobreza”.

O senhor deixou o governo há pouco mais de dois meses. O que tem feito?
Quando deixei o comando das minhas empresas para assumir o ministério, dei a minha palavra de que não reassumiria meu antigo cargo e vou honrar esse compromisso. Fiquei muito satisfeito ao descobrir que os processos sucessórios nas companhias foram um absoluto sucesso. Decidi que vou me dedicar à disseminação e propagação das ideias liberais. O Brasil se encontra nesta situação marcada pela desigualdade social e pela pobreza da população por causa dos governos social-democratas que tivemos até aqui.

Como o senhor pretende disseminar o ideário liberal?
Estou levantando a relação de todos os institutos liberais do Brasil. Até agora, identificamos mais de 120. Estamos ouvindo os responsáveis por cada um deles, conhecendo a situação de caixa, verificando a infraestrutura e o quadro de funcionários. Devemos finalizar esse mapeamento em 30 dias. A partir disso, decidiremos como ajudar essas instituições e o que fazer com esse volume de informações. Também vou criar o Instituto de Defesa do Cidadão Pagador de Impostos com o objetivo de defender a população do Estado. Queremos mostrar que o dinheiro pertence a nós. O governo é apenas um administrador desses recursos e tem o dever ético de aplicá-los corretamente.

Como atuará na prática o Instituto de Defesa do Cidadão Pagador de Impostos?
Queremos denunciar o que está errado e apontar caminhos para que o dinheiro público seja bem aplicado. O Brasil tem centenas de estatais desnecessárias. Ao mesmo tempo, tem 11 milhões de analfabetos, além de milhões de outros brasileiros que não compreendem o que leem nem conseguem fazer contas simples. Não faz sentido gastar com essas empresas o dinheiro que falta para educar pessoas. É uma irresponsabilidade. A população tem de discutir o que quer ver tratado como prioridade: construção de creches na periferia, melhora da qualidade dos postos de saúde, modernização da frota de viaturas de polícia ou mais casas populares. Precisamos alertar o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. É emblemático que a última canetada do ministro Dias Toffoli como presidente do STF permitiu outro aumento de salário de juízes. Os magistrados já são muito bem remunerados. Esse dinheiro poderia ser destinado a outros setores.

“Na Noruega, é possível abrir uma empresa em um dia. Na Nova Zelândia, em dois. Aqui, são 180”

Na década de 60, o ator Mário Lago dizia que a esquerda só se une na cadeia. Com 120 institutos liberais, é possível uni-los em torno de objetivos comuns?
Diria que 80% a 90% do que esses institutos querem são assuntos convergentes. Claro que existem algumas diferenças. O Instituto Liberal, do Rio de Janeiro, por exemplo, tem uma linha mais voltada para o pensamento político; o Instituto de Formação de Líderes, de Belo Horizonte, se concentra em jovens lideranças. Mas todos têm em comum a defesa intransigente da liberdade de mercado, das empresas e dos cidadãos.

Por que o pensamento liberal ainda é pouco conhecido e mal compreendido no Brasil?
Por causa do patrulhamento da esquerda ideológica. Até os anos 1970, nenhuma editora publicava livros sobre liberalismo. Foi nessa época que alguns empresários começaram a pagar para imprimi-los. Ainda hoje são poucos os exemplares nas livrarias e bibliotecas universitárias. É muito mais fácil encontrar Karl Marx que Ludwig von Mises. É uma pena, porque o atraso na diversidade de conhecimento é muito grande.

Como resumir com clareza o pensamento liberal?
Dois exemplos simples. Primeiro: quem acha que vacina deve ser obrigatória para todos simpatiza com a esquerda socialista. O liberal não acredita que o Estado deve decidir por ele. Acredita que o cidadão é capaz de saber sem tutores o que é melhor para ele e sua família. Segundo: um vegano que vê com naturalidade um vizinho que come um suculento bife malpassado tem uma tendência liberal. Caso considere isso um absurdo, está mais à esquerda. A esquerda, aliás, quer que todo mundo pense igualzinho a ela e não aceita opiniões contrárias. Os esquerdistas são pobres de espírito.

Que conselho daria a quem quer empreender no Brasil?

Se conselho fosse bom, seria pago. Quando decidi abrir a Localiza, todos — inclusive a minha namorada na época — me chamaram de louco e recomendaram que mudasse de ideia. Fiz, e deu certo. O empresário no Brasil tem tudo contra ele: dificuldade de levantar capital, um emaranhado legislativo, dezenas de impostos e uma porção de licenças para conseguir — ambiental, da prefeitura, do Estado e até do corpo de bombeiros. Então, se ele não desistir no meio do caminho, é bem grande a chance de dar certo. Minha dica seria: siga a sua intuição, vá em frente e trabalhe. Trabalhe 12, 14, 16 horas por dia. Trabalhe, trabalhe, trabalhe…

Aos 6 anos o senhor disse a seu pai que queria ser pianista. Ele sugeriu que abandonasse a ideia. No Brasil, é mais difícil ser pianista ou empresário?

Empresário, sem dúvida. O Estado não gosta do empreendedor. Na Noruega, é possível abrir uma empresa em um dia. Na Nova Zelândia, em dois. Aqui, são 180. O brasileiro tem vocação empreendedora, mas tudo parece feito contra ele. Um jovem que tenta providenciar uma carteira assinada poderia tornar-se um empreendedor. Isso inclusive geraria mais empregos. Mas tanto o socialista quanto o social-democrata não gostam de capital, não gostam de lucro. Enquanto 30 milhões de brasileiros têm carteira assinada na iniciativa privada, existem 12 milhões de servidores públicos com estabilidade no emprego e salários muitas vezes maiores. Isso é ou não transferência de renda da sociedade para um pequeno grupo? Precisamos ter um governo liberal. Com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, pela primeira vez existe essa possibilidade. Mas, para aprovar medidas liberais, é preciso ter maioria na Câmara dos Deputados, no Senado e ter um Judiciário liberal.

“Voltaria [ao governo] se me dessem a caneta na mão, a decisão final sobre o processo de privatização”

O brasileiro critica a ineficiência do Estado, mas entrega ao governo a busca de soluções para qualquer problema. Como mudar esse comportamento?
O brasileiro-padrão é típico da social-democracia. Ele detesta políticos, mas ama o Estado. A Constituição é o retrato desse comportamento. Os textos constitucionais tomam decisões pela coletividade. A pandemia de coronavírus tornou evidente essa realidade. O “fique em casa”, o “não saia” são coisas do Estado autocrático. Já o governo liberal mostra quais são os riscos, mas acredita que o cidadão sabe se cuidar. O Estado liberal preza a liberdade e entende que as pessoas são capazes de pensar e agir por si próprias.

Depois dessa temporada no governo, continua achando que o Brasil tem jeito?

Sou irremediavelmente otimista. O Brasil tem jeito e vai melhorar. Hoje, por exemplo, temos oito deputados do Partido Novo. Isso faz uma diferença brutal. A cada dois anos, podemos melhorar com o voto a qualidade dos nossos políticos.

Por que o senhor deixou o governo? Houve uma gota d’água?

Sou mineiro. Ou seja, bastante cauteloso. Não acordei repentinamente e decidi que hoje estaria fora. Não foi uma decisão súbita. Durante a minha gestão, conseguimos vender 84 empresas e montar uma fila com 14 estatais à espera da privatização, sem contar as subsidiárias. Numa determinada hora, concluí que o esforço despendido era muito maior que o resultado obtido. Isso para mim é investimento negativo. O Congresso impediu a provatização da Casa da Moeda. A da Eletrobras também não avançou. Sem o toma lá dá cá fica muito difícil aprovar alguma coisa.

O senhor admite a possibilidade de voltar ao governo?
Voltaria se me dessem a caneta na mão, a decisão final sobre o processo de privatização. Como não receberei essa caneta nem do presidente nem do ministro Paulo Guedes e menos ainda dos ministros das outras áreas, não vou voltar.

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25 Comentários

  1. Excelente!

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  2. Inteligentíssimo e patriota.

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  3. Grande entrevista d um grande cidadão

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    • Nó! Pensei que fosse o papa Francisco.

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    • Empreendedor e Ministro Salim Matar e caro jornalistas vocês acham que Roberto de Oliveira Campos era Inteligente, mas era safado, o criador da Correção Monetária. Foi ele quem assinou os reversais de robore e mais ele era um liberal

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  4. Muito bom!!
    O esquerdista se acha superior e tem solução p’ra tudo. Sabe o que é melhor p’ra você. O Brasil precisa continuar com este CHOQUE DE LIBERALISMO.

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    • Quem sai aos seus, não degenera! Parabéns Branca!

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  5. Excelente que tenha empresários que possam dar parte do seu tempo para tirar o País do pensamento único que nos domina a tanto tempo. Com pluralidade de visão os jovens poderão com o tempo, talvez melhorar esse País.

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  6. Esquerdistas são podres de espirito! E cafonas!

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  7. Retrato simples e claro de nossa pátria !
    Esse cara é um exemplo do quão importante é a missão da iniciativa privada ,pois é ela quem
    carrega o piano !
    Parabéns Sr Salim,e conte comigo ao criar esse instituto liberal ,quero fazer parte desse projeto através de doações e ou participando ativamente de sua estrutura ,pelo simples prazer de colaborar sem remuneração de espécie alguma !
    Boa sorte !
    A pergunta que não cala :
    Porque políticos tem que decidir sobre a privatização de estatais ?
    E não uma equipe formada por consultores de diversas empresas da iniciativa privada !
    Político não sabe como viabilizar a receita de uma empresa privada e encaixar a despesa dentro dela ,
    Político sabe sim como vampirizar o estado e aumentar as benesses ,
    Político desconhece a palavra enxugamento,
    Político não pensa na comunidade ,
    Político pensa única e exclusivamente de onde chupar dinheiro para se reeleger ,
    Político não tem a menor noção do que seja ser um gestor na iniciativa privada!

    Então porque são eles que decidem sobre a privatização se dela não entendem !

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  8. Uma perda irreparável para o País a saída do Salim do governo. Suas propostas para a privatização de estatais resultariam em enormes ganhos e enxugamento de negócios ineficientes e cabides de emprego de políticos. Aliás, é exatamente por isso que estatizar não interessa a político.

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  9. A esquerda é podre, mas não é a única responsável. Outro dia fui ao Detran dar entrada numa documentação. Fui bem atendido, mas percebi que o trabalho do atendente se limitou a passar meus dados para um programa, escaneando os anexos. A papelada foi toda devolvida. Ora catso, pra que me fazer deslocar, esperar numa fila, se tudo poderia ser feito pela internet. Para sustentar um complexo de serviços de interesses dos políticos: aluguel, segurança, secretaria, limpeza, etc etc, cada deputado levando um rachuncho.

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  10. Muito boa entrevista, só a referência ao partido novo que deixa um pé atrás

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    • CONCORDO, PAULO LIN.
      QUANDO VC. VAI A UM BAILE DE GALA, DEVE SE PREOCUPAR COM TODOS OS DETALHES.
      NÃO TEM CABIMENTO CAPRICHAR NA CARTOLA, NO FRAQUE, NAS CALÇAS, MAS COMETER O DESCUIDO DE CALÇAR TAMANCOS.
      FICA CLARO TRATAR-SE DE UMA MONTAGEM DE “PERSONA”.
      UM LIBERAL “DE RAIZ” JAMAIS SE IDENTIFICARIA COM O PARTIDO NOVO.
      PREFIRO TER MEU DOIS PÉS ATRÁS. ESSE O UNICO PONTO QUE DISCORDO DE VC., POIS ULTRAPASSA, PARA MIM, O LIMITE DO OTIMISMO.
      A PRÁTICA DO ENGANO E DA FRAUDE INSTITUCIONALIZADOS NESTE PAÍS, ANIQUILA O ÂNIMO DE QUALQUER UM.
      A BRANCA NUNES, QUANDO TIVER MAIS TEMPO DE “CANCHA”, NOS POUPARÁ DE DÚVIDAS DO TIPO.
      OBS.:
      SINTO MUITO PELAS LETRAS GRANDES, MAS ESTOU MUITO AFETADO POR MALES OFTÁLMICOS, NESTES 76 ANOS DE RODAGEM. ESTÁ DIFÍCIL PARA LER AS DE TAMANHO NORMAL>

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  11. Só conhecia o senhor de nome, Sr. Salim, sem saber direito quem era. Agora já sei. São homens como o Senhor que fazem a diferença em qualquer lugar, mesmo sabendo que existem muitos outros por aí, com semelhante conteúdo e capacidade, mas que vivem desencorajados de se manifestar, limitando-se à leitura dos jornais. Uma grande perda para o nosso país.

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  12. Muito boa a iniciativa de reunir institutos com a mesma visão! O País esteve imerso em social-democracia de 1988 até 2018, e precisa de uma nova visão. Não por acaso o povo brasileiro está acostumado a exigir ou permitir que o estado tome conta de tudo!

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  13. Fico feliz em poder contar com este brasileiro patriota e que segue lutando pelo povo.
    Precisamos nos livrar das castas no Brasil…

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  14. Excelente! Volte ao governo e ajude o Brasil!

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  15. Esse Congresso é o símbolo do atraso. A renovação vai ser lenta, porque o clientelismo ainda é forte e a maioria do eleitor ainda vota olhando para o seu umbigo, senão não teríamos as aberrações de Maia e Alcolumbre, como presidentes das mais importantes casas legislativas da República. Tem que ser como Mattar: irremediavelmente otimista, senão desanima.

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  16. Somente se equivocou no DESIGUALDADE.
    Desigualdade não é problema. Problema é pobreza.
    Desigualdade é discurso de progressista revolucionário…
    Arrume o discurso.

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  17. É muito lúcido!!! Parabéns. E ainda, que facilidade que tem em falar/explicar os fatos. Só não entende quem não quer.
    E com certeza, os políticos e os demais que fazem parte “establisment” não querem ver o Sistema funcionar de forma competente e eficaz.
    Sim, no “Brasil” de Brasília e seus tentáculos, são regados por incompetencia e fartura de dinheiro. Definitivamente o nosso Brasil é um País rico. Se não fosse, já estaríamos no buraco mesmo!!

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  18. òtima reportagem, Salim é um grande patriota.

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  19. Estive conforme com o pensamento do senhor Salim, até este paragráfo, onde ele menciona esta especial circunstância em que algumas partes do mundo está vivendo neste momento por causa desta pandemia de vírus. Que foi aí, onde me parece que ele se confudiu ao misturar “alhos com bugalhos”, ao misturar um caso sanitário a uma ideologia sócio-política. Que parece comprovado e ele deve bem saber que, dependendo de certos caráteres e formas de ser de certos seres humanos, esses, só respeitam os limites, à base de obrigações impostas e não por espontânea vontade. Que é o que está acontecendo com respeito a esta desobediência e desrespeito de certos indivíduos que estão claramente desatendendo os conselhos e pedidos daquelas autoridades competentes e responsáveis pelo sistema sanitário, quanto aquelas do sistema social como um todo. Onde entra a incumbência de um governante que, sem ser autocrático, pode e deve utilizar umas determinadas normas perfeitamente constituídas, com fim de implantar ordem e respeito onde e quando haja falta. E enquanto esta espécie de mantra que foi e continua a ser ouvido durante esta pandemia, não é por outro motivo senão por aquele de zelar pela saúde de todos nós. Pensar de outra maneira, é adulterar uma realidade irrefutável.

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  20. E por que colocaram a foto do Chico Bergoglio na reportagem?

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