Os verdadeiros soldados - Revista Oeste

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Os verdadeiros soldados
Guerras trazem o que há de pior e melhor no ser humano. Em tempos de polarização política, o inimigo não escolhe posição ideológica para atacar. Saúdo quem busca a trégua
10 abr 2020, 09:35

No épico Tora! Tora! Tora!, filme de guerra de 1970 que dramatiza o ataque japonês a Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial, o almirante Isoroku Yamamoto, que comandava a Marinha Imperial Japonesa, diz logo depois do ataque à base americana: “Temo que tudo o que fizemos foi acordar um gigante adormecido e enchê-lo com uma terrível determinação”. Para alguns historiadores, Yamamoto não teria dito exatamente essa frase, mas escrito algo parecido, como “Posso correr solto por seis meses… depois disso, não tenho nenhuma expectativa de sucesso”. Ele estaria resumindo um sentimento geral entre os almirantes japoneses de que não demoraria muito para que o orgulho ferido do então gigante adormecido, aliado à enorme capacidade industrial dos Estados Unidos, garantisse a destruição do Império Japonês.

E eles estavam certos. Depois de anos de estagnação durante a Grande Depressão, a América havia despertado novamente para o esplendor industrial, e a recuperação bélica não era apenas uma questão de poder e posicionamento geopolítico, mas também de orgulho. Em 1940, havia menos de 500 mil militares em serviço nos EUA. Na época do histórico ataque a Pearl Harbor, esse número havia aumentado para quase 2,2 milhões. Em 1945, mais de 12 milhões de americanos estavam nas Forças Armadas. Foi uma mobilização surpreendente para uma nação com menos de 140 milhões de pessoas na época.

Durante a guerra, as mulheres saíram de suas posições de mãe e esposa no lar e se juntaram às Forças Armadas.

Aproximadamente 350 mil mulheres americanas trabalharam como enfermeiras, dirigiram caminhões, consertaram aviões, realizaram trabalhos de escritório e também ingressaram no campo da química e da engenharia para desenvolver armamentos. Enquanto os homens iam para o fronte da batalha, a Segunda Guerra Mundial levou muitas mulheres a aceitar emprego em fábricas de defesa em todo o país, especialmente na indústria aeronáutica — área até então predominantemente masculina. Até o final de 1944, o produto interno bruto americano excedeu a produção econômica de todos os principais envolvidos na Segunda Guerra Mundial juntos: União Soviética, Reino Unido, Japão, Itália e Alemanha.

A guerra trouxe sofrimento, mas também quebrou paradigmas, fortaleceu os fundamentais laços de amor e orgulho ao país.

A América se uniu de uma maneira até então nunca vista. Para muitos americanos, a escala da crise do coronavírus faz lembrar o sentimento de luta e sobrevivência em guerras, ou como foi mais recentemente no 11 de Setembro ou na crise financeira de 2008. Esses eventos remodelaram a sociedade de maneira duradoura, desde a vida cotidiana de levar as crianças à escola até o nível de segurança e vigilância ao qual nos habituamos. Não estamos em guerra, pelo menos não em uma guerra bélica. Mas lutamos contra um inimigo global que nos mantém em casa acuados e que já começa a redefinir nossas relações e perspectivas com governos, com o mundo exterior e até uns com os outros.

Apesar de o inimigo atual ser um inimigo comum a todas as nações, o perfil de uma América que costumamos ver em filmes de guerra ressurge.

Ainda durante o combate, fala-se na reestruturação da economia dos Estados Unidos e de mais uma ressurreição do espírito de seus habitantes, abatido pelos milhares de vidas já ceifadas pelo vírus e também pelos quase 17 milhões de desempregados em apenas três semanas, número que só foi atingido depois de dez meses na crise de 2008.

Não podemos atirar em um vírus e aqueles na linha de frente contra a covid-19 não são soldados comuns. Eles são médicos, enfermeiros, prestadores de cuidados especiais a idosos, policiais. E há aqueles que, expostos ao mal invisível em campos minados, são diariamente confrontados com tarefas insondáveis. Tarefas agravadas pelo risco de contaminação e morte — missões para as quais esses soldados nunca se alistaram.

Os livros de história nos mostram a bravura de combatentes que lutaram no passado para podermos viver hoje em tempos de paz.

Talvez, quando tudo isso for superado e o medo tenha se dissipado, reconheçamos com mais afinco o sacrifício desses bravos soldados que, sem hesitar, nos brindam silenciosamente com o verdadeiro patriotismo e amor, pondo a própria vida em risco para salvar os feridos. Talvez, quando acordarmos desse pesadelo e voltarmos à vida normal, mesmo com as marcas das feridas dessa guerra, começaremos a saudar nossos médicos e enfermeiros dizendo: “Obrigado por seu serviço”, como fazemos com veteranos militares por sua bravura e patriotismo.

Torço para que, quando essa guerra silenciosa acabar, estátuas sejam erguidas em homenagem a esses soldados, essa nova classe de heróis que sacrificam sua saúde e sua vida pelas nossas. Talvez também comecemos a finalmente valorizar o verdadeiro sentido do patriotismo, palavra tão demonizada em tempos de polarização política, como ele é, no verdadeiro sentido de doação e altruísmo sem categorizar as pessoas. Talvez, depois desse pesadelo, com as diretrizes do nosso cotidiano redefinidas, possamos perceber que cultivar a vida, o amor e o progresso primeiramente dentro de seu país, de sua cidade e de sua comunidade, valorizando as raízes, as tradições e a família, pode ser uma boa ideia. Guerras trazem reflexões profundas e talvez, apenas talvez, a percepção de que não é preciso muito para ter o essencial seja um dos benefícios dessa bagunça para arrumar uma sociedade que se acostumou a enaltecer os excessos, adorar os supérfluos e a discutir o número de gêneros na raça humana.

Em 1984, na celebração de 40 anos do desembarque das tropas americanas nas praias da Normandia na Segunda Guerra Mundial, o presidente americano Ronald Reagan fez um discurso na presença de alguns dos Rangers americanos que sobreviveram àquela batalha. Reagan disse: “Vocês eram jovens naquele dia em que tomaram esses penhascos; alguns de vocês eram apenas garotos com os maiores prazeres da vida diante de vocês e mesmo assim arriscaram tudo aqui. Por quê? Por que fizeram isso? (…) Nós olhamos para vocês e de algum jeito sabemos a resposta. Fé e crença. Lealdade e amor.”

Agora imagine por um momento que estamos em guerra real com um inimigo consciente, inteligente, cuja única razão de viver é machucar ou matar o maior número possível de nós. Esse é o coronavírus. Guerras trazem o que há de pior e melhor no ser humano. Em tempos de polarização política e muitas discussões vazias e acaloradas no curso de uma pandemia, em que o inimigo não escolhe a posição ideológica para atacar, saúdo quem busca o refúgio da trégua na atual tempestade das diferenças políticas. A todos os profissionais da saúde que se encontram no fronte dessa verdadeira guerra, protegendo-nos do ataque vil e invisível do inimigo, nosso muito obrigado. Sua fé e sua crença, sua lealdade e seu amor jamais serão esquecidos.

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22 Comentários

  1. Parabéns pelo texto. Mais uma vez, você jogou um bolão. Sou médico e tenho dois filhos. Os dois são médicos e um deles está na linha de frente. Tenho muito orgulho disso.

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    • Excelente

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  2. Parabéns pelo texto querida Ana, ele foi tão bonito que não cabe a min comentar; apenas te parabenizar e agradecer aos profissionais da saúde. Continuem na luta, precisamos de vocês 🙂

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    • Peço licença para fazer destas, as minhas palavras.

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      • Na guerra contra o vírus já notamos uma diferença fundamental. Nenhum setor da economia, como o da indústria bélica americana na década de 40, será capaz de reerguer um país nocauteado. Naquela época não houve um lockdown ou shutdown, mas sim um redirecionamento da produção industrial. E agora, que força motriz nos manterá de pé?

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  3. Parabéns pelo artigo . Brilhante!

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  4. Pois não é que a Ana tem razão.Levou apenas 3 edições da revista e já me sinto em casa e alegre,apesar do isolamento,quando ela chega me fazendo companhia.É difícil achar uma mensagem de boa reflexão nesses dias de coronavírus.Pois a Ana tem.Vou ler mais vezes.Começando por médicos,para-médicos,pesquisadores e todos que estão na linha de fogo.Parabéns!

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  5. Que texto. Quem se arrepio ao lê-lo, sabe o real sentido de patriotismo.

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  6. Excelente texto. Tenho acompanhado muito o que os EUA estao fazendo para virar o barco.

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    • Excelente texto! 👏👏👏👏

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  7. Texto emocionante!

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  8. Quem sabe o povo brasileiro se inspira e coloca o patriotismo em prática.
    Patriotismo é isso que você nos relatou. Não é ir pras ruas com bandeiras durante a Copa do Mundo, ou colocar 2 milhões na Paulista durante a parada gay.

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  9. Essa é a diferença básica entre os dois países. Enquanto lá há quase uma sinergia absoluta para resolver os problemas aqui se politisa tudo, dos medicamentos às verbas do governo. Parece que existe uma alegria da mídia podre quando se fala em RECORDES de mortes todo a os dias. Pouco se fala dos avanços, dos curados….. por isso quase não ligo mais a televisão e filtro muito o que leio. Parabéns pelo excelente artigo.

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  10. Parabéns Ana Paula, nossa musa inesquecível que se transformou numa bela jornalista. Antes de mais nada não podemos esquecer que essa guerra tem um inimigo pior que o Covide 19. É o primeiro ministro chinês Xi JInping, pois ele mandou contaminar o Ocidente mandando milhares de chineses contaminados para a Itália e daí para todo mundo Ocidental. Em cumplicidade do capadócio da OMS que disse que o vírus estava debelado e demorou a dizer a verdade. Além do mais o serviço secreto americano constatou que não morreram apenas 3000 chineses como divulgaram. Morreram 21 milhões de chineses. Isto foi descoberto pelo número de telefones celulares cancelados em março de 2020. Esta é a verdade que será aclarada muito brevemente.

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  11. Belo Texto, Ana! Obrigado! Mas aí nos EUA tem mais tregua do que aqui no Brasil… aqui segue a polarização…

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  12. Obrigado por mais um belo texto.
    Sempre bom ler o que você escreve.
    O povo ameriano não esquece seus inimigos…pobre China…

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  13. Excelente!

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  14. Aos heróis anônimos dessa guerra biológica a minha saudação e o meu apreço.

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  15. Espetacular Ana Paula Henkel! “Guerras trazem reflexões profundas e talvez, apenas talvez, a percepção de que não é preciso muito para ter o essencial seja um dos benefícios dessa bagunça para arrumar uma sociedade que se acostumou a enaltecer os excessos, adorar os supérfluos e a discutir o número de gêneros na raça humana.”

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  16. Texto maravilhoso! Sou médico, estou na linha de frente e me sinto orgulhoso de estar contribuindo. Sobreviveremos!

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  17. Você me fez chorar. Obrigado por colocar tanta emoção no seu texto.

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  18. Ana Paula, sua voz tem que se fazer ainda mais presente na mídia brasileira. Por favor, faça que isso aconteça.

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