Oswaldo Aranha e o país das ideias cretinas - Revista Oeste

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Oswaldo Aranha e o país das ideias cretinas
A geração de Aranha foi capaz de lidar com o primitivismo da República Velha, a gripe espanhola, eleições fraudulentas, golpes de Estado, uma guerra mundial, a ditadura do Estado Novo e muito mais
15 Maio 2020, 10:25

Prefeito de Alegrete com pouco mais de 30 anos, o gaúcho Oswaldo Aranha ingressou numa escola em que ensinavam e aprendiam a arte da política figuras como Borges de Medeiros, Assis Brasil, João Neves da Fontoura, Batista Lusardo e Flores da Cunha. Um dos líderes da Revolução de 1930, Aranha somou ao círculo de gaúchos gente originária de outras paragens — por exemplo, o sergipano Siqueira Campos, o cearense Juarez Távora ou o paulista Armando Salles de Oliveira. Adversários ou aliados, eram homens públicos de fina linhagem. E ninguém conviveu tão intimamente com Getúlio Vargas quanto o filho da fronteira do Rio Grande do Sul que presidiu a assembleia da ONU que oficializou a criação de Israel.

Se qualificou o Brasil em que vivia de “um deserto de homens e ideias”, o que diria Oswaldo Aranha do país em que vivemos? Como reagiria se visse na Presidência da República, durante oito anos, um analfabeto funcional que acabaria na cadeia por ladroagem? E o que pensaria de Dilma Rousseff, uma cabeça desprovida de neurônios e infestada de ideias imbecis, que desgovernou o Brasil por cinco anos e meio? A geração de Oswaldo Aranha parecia um criadouro de possíveis presidentes. Nesta segunda década do século 21, a paisagem política induz à suspeita de que Brasília é uma usina de patifes prontos para assaltar até o cofrinho do neto.

A geração de Aranha lidou com o primitivismo da República Velha, a gripe espanhola, eleições fraudulentas, golpes de Estado, insurreições militares, uma guerra mundial, a ditadura do Estado Novo, a industrialização do país rural, a expansão comunista, o início da Guerra Fria, o suicídio de um presidente da República e outras complicações de bom tamanho. Neste estranhíssimo 2020, um bando de poderosos ineptos não sabe o que fazer para sobreviver a um vírus chinês. Governadores não se entendem com o presidente e começam a desentender-se entre si. Prefeitos que tentam caminhos alternativos esbarram no autoritarismo dos ditadores de província. O Congresso obriga o presidente da República a distribuir bilhões de reais que não existem. Os corruptos que sobreviveram à Lava Jato se livram da síndrome de abstinência com o furto em larga escala de verbas destinadas à contenção da pandemia.

O sumiço de governantes competentes e carismáticos é um fenômeno mundial, mas o Brasil anda exagerando.

 Nestes trêfegos trópicos, a galeria de retratos presidenciais sempre lembrou um desfile de demagogos, oportunistas exóticos e doidos de pedra, interrompido de vez em quando por figuras ali infiltradas para lembrar que o gabinete do chefe de governo não abrigou apenas esquisitices. O Congresso já foi menos lastimável. Onde houve um Ulysses Guimarães agora há Rodrigo Maia. Davi Alcolumbre ocupa o lugar que já foi de Auro de Moura Andrade. Saiu Tancredo Neves, entrou um Renan Calheiros. Com a extinção dos cardeais, o baixo clero está no comando.

Nelson Rodrigues constatou há 50 anos que os idiotas haviam perdido o pudor e estavam por toda parte.

Não poderiam ficar fora do Supremo Tribunal Federal. A toga, como vive reafirmando Gilmar Mendes, transforma qualquer bacharel em Direito num semideus de botequim, pronto para deliberar sobre tudo, em especial sobre assuntos que desconhece profundamente. Um ministro decidiu recentemente que o escolhido pelo presidente da República não poderia assumir a direção-geral da Polícia Federal. Outro está decidindo se deve ser exibido na íntegra ou parcialmente o vídeo que registra uma reunião do ministério de Jair Bolsonaro. Meses atrás, o time das 11 Excelências resolveu uma pendência que se arrastava desde o século passado: pertence mesmo ao Flamengo um título contestado de campeão nacional de futebol.

Há semanas, o Pretório Excelso proibiu o chefe do Executivo de dar palpites no combate ao coronavírus.

O comando da guerra foi entregue a governadores e prefeitos, mas nenhum tiro pode ser disparado sem a aprovação da Justiça. A ressalva malandra subordinou os métodos de combate concebidos pelas administrações estaduais e municipais aos humores do Ministério Público e à vontade dos juízes de distintas instâncias. Se mesmo infectologistas renomados andam batendo cabeça, pode-se inferir que, como a maioria dos prefeitos e governadores, também promotores de Justiça e juízes de Direito lidem melhor com física quântica do que com o coronavírus de última geração.

Quando não se sabe o que fazer no campo de batalha, melhor ficar em casa, certo?

É compreensível que, no momento, a maior parte dos magistrados simpatize com o isolamento social e veja com desconfiança a retomada gradual da vida econômica. O confinamento não funcionou? Que seja prorrogado por mais algumas semanas. A prorrogação não resultou no sonhado achatamento da curva? Que se endureça o jogo com a decretação do lockdown, palavra inglesa que camufla uma nova modalidade de prisão domiciliar. É essa a novidade em gestação na cabeça de Bruno Covas. O prefeito de São Paulo tem combatido a pandemia com mudanças no trânsito. A mais recente é o rodízio que, desde 11 de maio, obriga os veículos com placas pares a circular só em dias pares. Nos dias ímpares, é a vez das placas ímpares.

A ideia acabou com os engarrafamentos de carros. Em contrapartida, vem mantendo superlotados os ônibus e os vagões de metrô — e concentrações humanas são tudo o que desejam as esquadrilhas de coronavírus. Milhões de paulistanos precisaram de meia hora para constatar que Bruno Covas cometera um erro colossal. Em vez de revogar a decisão e pedir perdão aos paulistanos, o prefeito agora flerta com o lockdown. Com isso, conseguiria remover das ruas todos os veículos e expulsar das calçadas todos os moradores da maior metrópole brasileira. O Judiciário parece gostar da coisa.

Se vivesse para ver o que anda acontecendo, Oswaldo Aranha saberia que seu deserto de homens e ideias era muito menos perigoso que um ajuntamento de homens que têm ideias tão cretinas quanto as produzidas pelos brunos covas. Quando não se sabe o que fazer, ensinou dom João VI, melhor não fazer nada. E passar o bastão a figuras que não morram de medo do vírus chinês.

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40 Comentários

  1. Augusto Nunes em poucas palavras descreveu o que vem acontecendo no Brasil. Depois de anos sob o jugo do disfarce da social-democracia, que produziu uma geração idiotizada padrão Paulo Freire, a oposição (incluindo a justiça politizada), quer a todo custo voltar aos velhos privilégios que por anos abasteceu toda elite de governantes.

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    • Sempre Augusto Nunes. Espetacular!!!

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  2. Tudo foi dito!

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    • Excelente, Augusto. Está difícil viver aqui e alhures. O mundo carece de líderes.

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    • Foi não! Bolsonaro foi poupado! Ridiculo!

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      • Triste verdade!

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  3. Como sempre disse tudo para qualquer um entender. Está aí um texto da situação atual do Brasil sem nem precisar desenhar.

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  4. Augusto Nunes a cada dia melhor. Irretocável.
    Entretanto, considerando tudo o que acabo de prazeirozamente ler, é imperativo formular uma pergunta: como fazer para que essa situação mude?
    O mal causado por 20 anos de governos de esquerda precisa ser extirpado RADICALMENTE. Enquanto isso não for feito, estaremos todos nas mãos dessa corja.

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    • Craque das palavras!

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    • Decepcão total com seu artigo. Sempre fui seu admirador.
      Mas poupar Bolsonaro pela tragédia que vivemos?
      Estou sem entender!

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      • Não citou também o Dória, o Witzel, o Elder Barbalho… Por isso o artigo não serve?

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  5. Augusto Nunes, o mais grave é que o presidente da República foi afastado de suas funções de comandar a nação em tem de guerra- guerra ao Covide 19 e, juntamente com seu ministério de militares aceita pacificamente a decisão do STF de entregar a administração da pandemia aos governadores e prefeitos. O presidente só pode liberar polpudas verbas para os estados e municípios. Como se esperavam a maioria que viciado em ladroagem como o Sérgio Cabral, esta fazendo a festa com compra de respiradores que não chegam, os sacos de defuntos, as EPIs; tudo com verbas superfaturadas. Mesmo com o conhecimento do assalto o presidente e seu ministério assiste tudo como se nada fosse de suas responsabilidades. Que país é este?

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  6. Boa lembrança a sua dos idos tempos de 1930 e da geração que governou o Brasil até 1963. Só não compartilho uma coisa, uma parte deles eram caudilhos, autoritários e fizeram escola, tanto que aqueles que hoje governam nos Estados e municípios são herdeiros daqueles caudilhos. Só concordo em uma afirmação: realmente faltam homens de estatura no país, como um Oswaldo Aranha, com certeza. Mas isso é fruto de um sistema eleitoral engendrado em 1932 e recepcionado e manipulado pela Constituição de 1988 e alterado ao bel prazer dos netos e bisnetos dos caudilhos de 1900.

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  7. O melhor de tudo é a frase de meu conterrâneo pernambucano Nelson Rodrigues: “Nelson Rodrigues constatou há 50 anos que os idiotas haviam perdido o pudor e estavam por toda parte”. Faltou apenas completar, inclusive na corte suprema, nos governos estaduais e nas prefeituras. Como tem idiotas nestes cargos.

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  8. Caro Augusto: para mim, o melhor artigo teu que eu li. Osvaldo Aranha! 30 anos. Isso é uma bofetada na nossa cara tonta. Grande abraço.

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  9. Realmente, há muito não se via tantos idiotas em posto de governança! Vida longa, Augusto Nunes!

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  10. Obrigada Augusto Nunes por citar e lembrar de um brasileiro com todas as qualidades que faltam nos Homens hoje.Oswaldo Aranha, meu conterrâneo, estudei na escola em que ele era o patrono, no tempo em que se estudava, aprendia, respeitava e cantava o hino nacional toda a segunda feira em fila. Este Brasil não existe mais. E certamente por isto estamos no jeito que estamos. Perdemos a vergonha, a essência ,a ética e sucumbiremos à corrupção.

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  11. Brilhante! Como sempre.
    O que me impressiona é que o STF conseguiu subverter aquela máxima popular que dizia que quem tem o dinheiro manda.
    Aqui, quem manda são os governadores e quem paga é o PR. Ou seja, somos nós!!!
    E sem licitação!!!

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  12. Uma geração de políticos sob orientação do mais imbecil deles .. FHC

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  13. Excelente! Genial!

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  14. Vou lembrar outra frase de Nelson: “toda unanimidade é burra”. Governantes idiotas ascendem de um povo hegemônicamente idiotizado. Seu sucesso não advem da capacidade, mas da quantidade farta da infinita ignorância.

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  15. Excelente!

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  16. Augusto, olha só, algum tempo atrás li um livro do Luis Felipe D´Ávila sobre os 9 estadistas do Brasil. Pela ojeriza que tenho dessa porcaria que chamamos de constituição de 88, eliminei o Ulisses Guimarâes da lista. Depois, eliminei também FHC, por várias razões. Osvaldo Aranha continuava na minha lista…ele foi importantíssimo na “não oposição” ao governo americano durante a segunda guerra, o que poderia ter nos dado muita dor de cabeça (Getúlio já flertava com Hitler). Mas é verdade, Osvaldo era muito próximo a essa figura obtusa chamada Getúlio Vargas…comunista/populista na sua origem. Me quedam 6 estadistas…acho que no final, só sobrarão Dom Pedro II e Rodrigues Alvez

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  17. Parabéns pelo ótimo texto. Impressionante com o vírus da estupidez contaminou a maioria dos nossos homens públicos. A maioria dos eleitores também são hospedeiros desse vírus, que na época das eleições fica mais agressivo.

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  18. Augusto Nunes, como sempre, interpretando com lupa o que a maioria insiste em enxergar com olhos fechados.
    Se recordar é viver, sugiro que façam uma matéria sobre qual o destino penal de cada político envolvido nos escândalos do mensalão e petrolão. O covidão já começou e, com certeza, a competição também para ver quem levantará primeiro a taça do tricampeonato da picaretagem.
    Um forte abraço e longa vida à Revista Oeste!

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  19. Bruno Covas concorre ao prêmio de maior estúpido da história. Seu aliado Doria, o oportunista da morte, pretende superar os maiores facínoras provocando um caos econômico de proporções épicas, apenas para se mostrar como o oposto de Bolsonaro, achando que vai ganhar a eleição de 2022! Estes elementos se acham acima do bem e do mal e ignoram absolutamente o povo, as massas, achando que estão á deriva de suas opiniões e arremedos ditatoriais. Acho que está na hora deles se preocuparem com a própria saúde, porque as pessoas de bem também tem limites… Extrapolaram….. melhor pedirem desculpam e retrocederem…

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  20. Excelente artigo! Sobre a frase “saberia que seu deserto de homens e ideias era muito menos perigoso que um ajuntamento de homens que têm ideias tão cretinas”, perfeito! É melhor ser liderado por um ignorante confesso que quer aprender, ao invés de alguém que “pensa” que sabe e faz besteiras por isso

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  21. Geração de políticos medíocres irresponsáveis.

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  22. Um texto que alguém distraído deveria deixar assim meio descuidado nas bancadas de repórteres e editores da ricas redações tanto quanto precárias em neurônios. Noventa e oito por cento atiraria o printer na lata de recicláveis só por ver o nome do autor a quem foi amestrado para odiar até mesmo por seu extraordinário talento. Oswaldo Aranha lá do céu de cristaos e judeus com certeza está comparando o Roda Viva de Augusto Nunes com a “roda mortuária” para uso polítco e pessoal de João, o Dória.

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  23. Parabéns, Augusto Nunes.
    Uma luz de conhecimento em meio às trevas da ignorância.

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  24. Como sempre Augusto Nunes nós surpreende com um texto irretocável. Nós os cidadãos de bem estamos encurralados. Somos favoráveis a quarentena vertical e ao uso da cloroquina. Faça uma pesquisa e ateste isso. Então, nós estamos em uma ditadura comandada pelos corruptos legisladores e governadores e o não menos execrável judiciário. Abraço fraternal.

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  25. Perfeito Augusto Nunes!
    Como diria o Pe. Benjamin Busato, vulto histórico que muito contribuiu para o desenvolvimento de Erechim-Rs, onde nasci e vivo:
    “ Por que o povo, o povo mesmo é um ente imaginário… Como o buraco, existe só porque é cercado por uma parede, mas, dentro do mesmo, o buraco é um nada. Precisamente como o povo… O povo cercado pelos políticos “.
    Meus sinceros cumprimentos,
    Prof. Julio Brondani

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  26. Cada vez mais, Augusto Nunes vai se consagrando como um “frasista”dos bons tempos.Seu texto ressuscita “A vida como ela é” crônicas do imortal N.Rodrigues.É o retrato fidelíssimo do país do ponto de vista político.Só lhe falta criar um Otto Lara para servir de “malhação fictícia de judas” ou “Bonitinha mais ordinária”.Tarefa difícil no atual estágio literário brasileiro, onde a “toga,transforma qualquer bacharel em direito num semideus de botequim”.Millôr da mesma estirpe,sobre STF diria, :”em terra de cego quem tem um olho EMIGRA.

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  27. “a paisagem política induz a suspeita de que Brasília é uma usina de patifes prontos para assaltar até o cofrinho do neto ” , perfeita descrição de Brasília, rindo até agora

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  28. Roberto Campos: “a ignorância no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promisso”.

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  29. Cara, o Augusto deu um raio-x do Brasil atual. Gosto muito de ler seus textos, toda a argumentação, as críticas contundentes, o sarcasmo empregado… Simplesmente excelente! Abraço!

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  30. Como ideia, o texto funcionou. Do ponto de vista da argumentação, me decepcionou. Nao vou me alongar sobre isso. Só deixo o meu registro.

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    • É direito seu fazer seu inútil registro…

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  31. Obrigado Por esse texto Augusto. Salvou o meu dia. Que ultimamente anda de saco cheio desse pessimismo da grande mídia.

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  32. O artigo Muito bem feito fala sobre IDEIAS. Realmente o muitos esqueceram o que significa debater ideias. E acham que tudo é uma questão de quem sai melhor, em quem ganhou a briga e quem saiu perdendo. Realmente as novelas da TV passaram para a vida real e muitos (não todos) não deram-se conta disso!

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Revista Oeste — Edição 10 — 29/05/2020

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